A CASA DUS BUDAS DITOSOS
JOO Ubaldo Ribeiro

a casa dos budas ditosos


Publicaes Dom Quixote


Biblioteca Nacional -- 
   Catalogao na 
   Publicao
Ribeiro, Joo Ubaldo, 
   1941 -- A Casa dos 
   Budas Ditosos
(Fico universal; 212)
ISBN 972-20-1667-9
CDU 821. 134. 3(81)-
   -31/"19/"

Publicaes Dom Quixote, 
      Lda.
   Rua Cintura do Porto
   Urbanizao da Matinha, 
      Lote A-2.o C
   1900-649 Lisboa -- Portugal

C 1999, Joo Ubaldo 
   Ribeiro
C 1999, Publicaes Dom 
   Quixote
1.a edio: Novembro de 1999
Depsito Legal n.o 
   143. 279/99
Execuo grfica: Grfica 
   Manuel Barbosa  Filhos,
   Lda.






   Escrito no feminino, o que o autor justifica com a curiosa
histria de ter recebido um pacote com a transcrio
dactilografada de vrias fitas, gravadas por uma misteriosa
mulher, A Casa dos Budas Ditosos  a narrao, na primeira
pessoa, de uma libertina que narra a histria da sua vida
inteiramente dedicada ao sexo, ditando-a para um gravador. Ao
longo do romance, a narradora pratica todas as modalidades de
sexo, sem manifestar o menor arrependimento, experimentando
alegremente incesto, sexo com menores, em grupo, troca de casais,
homossexualidade e at sexo informtico. Considerado pela revista
Veja como ostensivamente pornogrfico, A Casa dos Budas Ditosos
 uma narrativa pouco comum, s vezes chocante, s vezes irnica
e sempre provocadora, envolvendo um dos pecados mais indomveis
e capitais: a luxria.

   

   Joo Ubaldo Ribeiro nascido em 1941 na Ilha de Itaparica, 
um dos mais importantes escritores brasileiros contemporneos.
Licenciado em Direito, fez o mestrado em Cincias Polticas na
Universidade da Califrnia, e exerceu a profisso de jornalista.
Viveu dois anos em Lisboa, regressando  sua ilha natal em 1983,
onde reside.  presentemente membro da Academia Brasileira de
Letras. De entre as suas obras destacamos: A Semana da Ptria,
Sargento Gertlio, Vencecavalo e o Outro Povo, Vila Real, O
Sorriso do Lagarto, Viva o Povo Brasileiro (Prmio Jabuti e
Prmio Golfinho de Ouro em 1985) e O Feitio da Ilha do Pavo,
estes ltimos publicados nesta mesma coleco, aos quais
brevemente se vir acrescentar outra obra do Autor: Livro de
Histrias.



Para as mulheres


Tudo no mundo  secreto


   No final do ano passado, depois que alguns jornais noticiaram
que a editora responsvel por esta publicao me havia
encomendado um texto sobre o pecado da luxria, os originais
deste livro e o recorte da nota de um dos jornais em questo
foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifcio onde
trabalho, acompanhados de um bilhete assinado pelas iniciais CLB.
Informava que se trata de um relato verdico, no qual apenas a
maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua
autora  uma mulher de 68 anos, nascida na bahia e residente no
Rio de Janeiro. Autorizava que os publicasse como obra minha,
embora preferisse que eu lhes revelasse a verdadeira origem. "No
por vaidade", escreveu ela, "pois at as iniciais abaixo podem
ser falsas. Mas porque  irresistvel deixar as pessoas sem saber
no que acreditar". Assim foi feito, e com justa razo, como o
leitor haver de constatar, aps o exame deste depoimento
espantoso.
   Embora no tenha tido dificuldades extremas para a edio do
texto,  meu dever prazeroso agradecer a Andria Drummond pela
pacincia e afinco na decifrao de muitas emendas manuscritas,
a Maria de Lourdes Protsio Benjamin pela  mesma razo e a
Geraldo Carneiro, por sua valiosa ajuda no esclarecimento de
algumas passagens, em que a reviso dos originais parece no ter
atentado a problemas certamente ocorridos na transposio das
fitas gravadas para o papel. Essa ajuda tambm foi fundamental
para a diviso do texto em sees e pargrafos, bem como para a
insero de raros trechos em discurso direto e diversos acertos
de pontuao, com o que creio que somente ficilitamos a leitura,
sem alterar o sentido de forma significativa. Mantivemos tambm
inmeros "erro de portugus", com o fito de preservar, tanto
quanto possvel, a oralidade dos originais.
   Pela transcrio

   Joo Ubaldo Ribriro

   Rio de Janeiro, maio de 1998.







a casa dos budas ditosos






   Essa noite eu tive um sonho. Grande bobagem, nada disso. No
era assim que eu queria comear, no  assim. Essa noite eu tive
um sonho -- parece dirio de colgio de freiras, no  nada
disso. Mas, de fato, eu tive um sonho. Um sonho inesperado, com
aqueles dois budazinhos ali. Antigamente eu sonhava muito com
eles, mas parei faz dcadas, tudo faz dcadas. So muito
pequenininhos, os detalhes se perdem, comprei num camel de
Banguecoque,  um objeto sentimental. No lembro onde li a
respeito de dois Budinhas, um macho e uma fmea fazendo sexo,
essas coisas milenares de chins, nunca entendo direito, misturo
as  datas, apronto a maior confuso. Havia uma espcie de templo,
a Casa dos Budas Ditosos -- no  bonitinho, a casa dos Budas
ditosos? eu acho --, com imagens iguais a essas, s que enormes.
Os noivos, antes do casamento, iam l para venerar esttuas e
passar as mos nos rgos genitais delas. Era uma espcie de
aprendizado ou familiarizao, uma introduo a um casamento bom
na cama. Eu acho de um bom gosto delicadssimo. Em Roma antiga,
houve um tempo em que noivas acariciavam a glande de Prapo, ou
se sentavam nela. Pelo que eu li, a glande mais usada, a glande
pblica, por assim dizer, devia ser uma verdadeira poltrona.
Prapo foi substitudo por So Gonalo, no nosso politesmo
catlico. Os catlicos so politestas. Desculpe, se voc 
catlico. Alis, naturalmente que eu tambm fui criada como
catlica, tinha aulas de catecismo, fiz primeira comunho vestida
de organdi branco, s falava o estritamente necessrio na
sexta-feira santa, s comamos peixe toda quinta-feira e assim
por diante. Mais ainda, fui criada para considerar os
protestantes gentinha e ficava com raiva de Lutero, que me
parecia a feio do demnio, nos livros de Histria Geral. Levei
um certo tempo para me livrar dessa estupidez, veja voc; hoje,
tenho at bastante afinidade com os protestantes, exceto os
calvinistas e, bvio, esse pentecostalismo histrico e de baixa
extrao, que ora nos assola. O magistrio da Igreja me enerva.
Prefiro eu mesma ler a Bblia e pensar do que leio o que me
parece certo pensar, quero eu mesma me inteirar das boas novas,
sem nenhum padre de voz de tenorino gripado me ensinando
incoerncias subestimando minha inteligncia e repetindo
baboseiras inventadas, semelhantes  desfaatez de afirmar que
no Pentateuco h mandamentos como guardar castidade, que os
homens santos no batizados foram para um tal de limbo e tantas
outras  criaes conciliares, j li a Bblia de cabo a rabo e
nunca vi nada disso nela. E por que tambm no observam o que
tambm est l, no Levtico? Fingem que no est. E o Papa 
vigrio de Cristo? Certos papas, todo mundo sabe o que foram
certos papas, todos infalveis e tantos safados. Enfim. No vou
falar mais nisso, perda de tempo.
   Alm de tudo, no h nada de mais em ser politesta, de certa
forma  muito melhor do que ficar acreditando somente num Deus
impossvel de compreender. E, ainda alm de tudo, j estou
cansada de no dizer o que me vem  cabea e olhe que nunca fui
muito de agir assim, mas o pequeno grau em que fui j  demais
para mim. Ainda me restam alguns penduricalhos desse legado
imbecilide, de que tenho de me livrar antes de morrer. A doena,
esta doena que vai me matar, tambm contribui para meu atual
estado de esprito. No sei quem foi que disse que a perspectiva
de ser enforcado amanh de manh opera maravilhas para a
concentrao. Excelente constatao. Nada de pessoal com ningum,
no falo para ofender ningum em particular,  como se fosse uma
atitude filosfica genrica. Meu av materno era aristocrata,
elegantssimo, falava francs e alemo fluentemente, esteve
vrias vezes na Europa, era cultssimo, mas, depois que passou
de uma certa idade, peidava em pblico. Assisti a ele peidar na
frente do interventor, na poca do Estado Novo. O interventor
tinha ido almoar com ele e, depois do almoo, ficaram
conversando na sala de estar, com meu av volta e meia levantando
os quartos e soltando vento aos troves. Quando minha av
reclamava, ele dizia que o que est preso quer ser solto e todo
mundo peidava, inclusive o interventor, ento no era ele que,
quela altura da vida, ia arrolhar um peido. Quem quisesse que
arrolhasse, mas ele no. 
   Mas, sim, mas ento eu estava dizendo que os catlicos so
politestas, botaram os santos no lugar dos deuses
especializados. Os gregos e os romanos tinham um deus menor para
cada coisa, regras atrasadas, artistas falidos, transaes
impossveis, dvidas falimentares, casamentos, msicos bbedos,
agricultores, criadores de cabra, tudo, tudo, tudo. Os catlicos
substituram os deuses pelos santos. Os msicos? Santa Ceclia.
Os ruins da vista? Santa Luzia. As solteironas? Santo Antnio.
E por a vai, como voc sabe. At lugares. So Jos de No Sei
Onde? Diana de feso, a mesmssima coisa. Os deuses no foram
derrotados ou eliminados, continuam imortais com sempre foram e
somente mudaram de nome, se adaptaram s mudanas. Eu pronuncio
verdadeiras conferncias sobre isso, sou a rainha da conferncia,
s vezes devo ficar chatssima. Mas pode permanecer tranqilo,
que eu no vou fazer conferncia para voc, afinal voc est
sendo pago, temos que trabalhar vamos trabalhar. Somente uma
ltima referenciazinha a So Gonalo, porque agora j comecei e
sou compulsiva; comecei tem que acabar. So Gonalo no existe.
Ou melhor, existe mas nunca existiu. Para a Igreja, no h nenhum
So Gonalo, nunca houve. Mas se declarou, na minha opinio por
falta de Prapo, uma grande lacuna, que clamava por ser
preenchida. No existe So Gonalo, mas j vi procisso dele com
padre e tudo, e as mulheres cantando obscenidades baixinho,  um
santo deflorador e consolador para as solitrias. No arraial
junto  fazenda da ilha, segundo at meu av contava, havia uma
imagem de So Gonalo com um falo de madeira descomunal, maior
que o prprio corpo dele. O corpo era de barro, mas o falo era
de madeira de lei e fixado pela base num eixo, de maneira que,
quando se puxava uma cordinha por trs, ele subia e ficava ali
em riste. Eu nunca vi, mas as negras velhas da  fazenda garantiam
que antigamente, todo ano, faziam uma procisso com essa imagem
de So Gonalo e as mulheres disputavam quem ia repintar o falo,
era sucesso garantido no mundo das artes, para no falar que a
felizarda ficaria muito bem assistida nos seguintes 364 dias.
   Claro!  simples,  porque eu queria botar um ttulo, mas 
claro! Eu sou como dizem que Buuel era: meu mtodo de exposio
 a digresso. Eu sei que estou muito longe de estar senil.
Evidente que eu delirei um pouco, mas eu sempre delirei, e So
Gonalo me fascina, eu tinha razo em lembrar o sonho. Claro, 
por causa do ttulo. Tire isso da gravao. Alis, no, depois
voc tira tudo da gravao, a gravao inicial s comea quando
eu disser. No tire nada agora. Deixa que eu tiro, quando voc
passar tudo para o papel.  melhor, vamos deixar fluir, depois
eu fao a triagem, boto ordem etc. Calma, calma. No sei nem por
que este... Como  o nome disto, disto que ns estamos
produzindo? Vamos dizer, um depoimento
socio-histrico-ltero-porn, ha-ha. Ou
sociohistoricoliteroporn, tudo grudado, deve ficar lindo em
alemo. Sim, no. Sim, no sei nem por que este depoimento tem
que ter ttulo, mas por que no? Esses dois Budas... Depois eu
falo sobre esses dois Budas, agora no  o caso. Me lembre,  uma
histria muito interessante. Mas no momento eles me interessam
por causa do ttulo. Eu acho bonitinho, com um som meio
aliterante -- a ca-sa-dos-Budas-ditosos --, acho simptico. Este
depoimento hereby se chama "A casa dos Budas ditosos".  bom, at
porque no quer dizer nada, como todo bom ttulo de qualidade
literria. O sujeito vai ler e pergunta por que esses Budas, 
capaz das explicaes mais desvairadas. Quanta gente vai ler este
depoimento, como ser que ele vai ficar, ser que algum vai ler?
Vai, sim, armei um esquema mais sofisticado do que os  dos filmes
de espionagem. Voc faz parte, mas no vou lhe contar como, no
tem importncia. Voc transcreve as fitas aqui, deixa as fitas
aqui, tudo o que vai restar  a sua palavra. Que pode vir a ser
til, nunca se sabe. Conte a histria, minta bastante se quiser,
diga que  tudo verdade, e  mesmo. No comeo, achei que ia
escrever s para mim e deixar para algum morador de Fulnia,
Sicrnia ou Beltrnia, com grande escndalo e engasgos pudicos,
tentar explicar tudo de acordo com seus padres empedrados -- 
espcie esculhambada que ns somos, que tempo ns perdemos,
quando h tanta coisa a descobrir! Fulnia, Beltrnia e Sicrnia
eram os pases fundados por uma grande amiga minha, Norma Lcia 
-- depois vou falar mais nela,  imprescindvel --, todos
habitados por velhacos como o velho Pedro, professor de Direito
Romano, depois eu falo nele, que moravam em outros pases,
moravam em outros mundos. Fulnia, Beltrnia e Sicrnia, bons
patifes, eles moram l e eu c. Mas no vou deixar isso a cargo
deles, no confio na posteridade. O ttulo que eu ia botar era
"Memrias de uma libertina", mas no vou mais botar,  bom gosto
demais para esse povo que nunca leu Choderlos de Laclos, no vou
desperdiar, jogar prolas aos porcos. Em Fulnia, Sicrnia e
Beltrnia, no se pode ser realmente fino, com um ttulo fino
desses; tem que ser pseudofino como eles, pronto, a casa dos
Budas ditosos satisfaz, satisfaz,  mais tranqilo, me garante
contra irritaes geradas pela burrice e pela ignorncia. Claro
que no fundo odeio esse ttulo de bom gosto ao qual acabo de
ceder, mas cedo, de resto vo todos pastar, em verdade vos digo.
No cheguei ao ponto timo como meu av, no tenho coragem de
fazer o que ele fazia em pblico, ainda estou amarrada a uma
poro de penduricalhos absurdos.  uma pena, porque memrias de
uma libertina seria to melhor do
 que essa bichice dos Budas ditosos, mas no se pode ter tudo
neste mundo, tome-lhe Budas misteriosos. Quem  burro pede a Deus
que o mate e ao diabo que o carregue. No comeo, achei que ia
deixar estas deluses -- como dizia meu professor de Medicina
Legal -- para serem publicadas depois de minha morte. Mas num
instante vi que era burrice, nada vale a pena depois da morte,
eu quero  passar na rua e ver as caras das pessoas que leram,
todo mundo fingindo que no  nada com eles. Nada desse negcio
pequeno-burgus de depois da morte. Antes da morte, tudo antes
da morte,  ou no ? E, por outro lado, me arriscaria a eles
darem um jeito de destruir os originais, no me pergunte como,
eles so diablicos.
   A casa dos Budas ditosos. One, two, three, tudo bem? A casa
dos Budas ditosos. Prefcio, introduo, nota preliminar,
qualquer coisa assim. Decidi dar este depoimento oralmente, em
lugar de escrev-lo, por vrias razes, a principal das quais 
artrite. Cortar isso, gracinha boba, eu no tenho artrite, nem
fao planos de ter. Muito bem, prefcio. Decidi fazer este
depoimento inicialmente de forma oral, em vez de escrita, pela
razo principal de que  impossvel escrever sobre sexo, pelo
menos em portugus, sem parecer recm-sado de uma sinuca no
baixo meretrcio ou ento escrever "vulva", "vagina", "gruta do
prazer", "sexo tmido" e "penetrou-a bruscamente". Falando, fica
mais natural, no sei bem por qu. Que mais? Gostaria de ter
jeito para falar inanidades labirnticas como certos
psicanalistas ou socilogos, ou um desses pensado es franceses,
desses que costumam aparecer nos cadernos de cultura dos jornais,
para, na maior parte dos casos, sumir imediatamente aps, e que
no dizem nada, mas intimidam as pessoas com seus relambrios.
Mas no sei fazer isso,  uma das minhas deficincias. Esquecer. 
   Sim, mas que mais? Sempre achei chique -- deve ser subproduto
de algum trauma de infncia -- botar no frontispcio "qualquer
semelhana etc. etc.", mas, no caso, o contrrio. Ateno.
Qualquer semelhana estar bem inferida. No, no, muito
pernstico, qualquer semelhana no  coincidncia, nenhuma
semelhana  coincidncia. Nomes trocados para proteger culpados.
Quem puser a carapua pode ter certeza de que est bem posta.
No, no, estou achando isto um pouco metido a engraado. Vou
reditar tudo, quero um prefcio decente. Vamos anotar uns
tpicos, depois eu desenvolvo. Um, tpico um. Ser mulher, ser
coroa? No. No, no, no! Depois eu arremato este prefcio, ou
no fao prefcio. Meu av -- o outro av, o alemo, um prussiano
insuportvel, nazista de nascena como todo alemo, embora tenha
morrido se proclamando antinazista, como tambm todo alemo --
dizia que tudo o que precisava de prefcio, inclusive emprego e
mulher, nesta ordem de precedncia, no valia nada.
Principalmente mulher, acho eu, porque a livro ele no dava muita
importncia, a no ser para esculhambar e querer queimar todos.
Ele s no gostava de Hitler porque Hitler era bvaro e
malnascido, no por causa do nazismo. Dava churrascos, ficava
bbedo e queimava livros Comprava muito, para depois queim-lo
nos braseiros do churrasco, um livro de Eduardo Prado, muito
famoso na poca. E fazia discursos, afirmando que os brasileiros
eram estpidos, os nicos inteligentes eram os antropfagos, no
sei bem o que ele queria dizer com isso. Minha me contava que
Eduardo Prado era lindssimo, de cabelos revoltos e farfalhantes,
ao vento do viaduto do Ch. Uma senhora o viu uma vez, contava
minha me, no se conteve e exclamou: "Mas que homem bonito!".
E ele respondeu: " do ar do prado, minha senhora." Ha-ha. Meu
pai tinha um terror patolgico de ser 
corno, e minha me sabia disso e ento, muito sacanamente,
genialmente sacanamente, minha me era uma enciclopdia do
sacanismo, fazia ares sutilmente ambguos e ento falava em
Eduardo Prado, falava em Douglas Fairbanks, Rodolfo Valentino,
Ramn Navarro, imitava Mae West, recitava Byron e Castro Alves
com caras e vozes de orgasmo, chamava Castro Alves de Cecu como
se houvesse ido para a cama com ele no dia anterior, era um
martrio a que o velho tinha de se submeter calado, por uma
questo de coerncia entre o que professava e o que realmente
sentia, ele era muito liberal de boca, coitado de meu velho,
morreu moo, mais moo do que eu hoje, 66 anos. Pronto, no fao
prefcio. Depois eu vejo, decisions, decisions. De qualquer
maneira, fica a o registro. Depoimento
oral, tatat, tatat, j falei isso, porque  mais fcil dizer
palavro do que escrever palavro, h exigncia de passaporte
para as palavras passarem do falado ao escrito, algumas no
conseguem nunca, a humanidade  muito estranha. Que mais?
Explicar que sou um grande homem e no digo que sou uma grande
mulher pela mesma razo por que no existe ono, s ona, nem
foco, s foca, tudo isso  um bobajol de quem no tem o que fazer
ou fica preso a idiossincrasias da lngua, como aquelas cretinas
feministas americanas que queriam mudar history para herstory,
como se o his do comeo da palavra fosse a mesma
coisa que um pronome possessivo do gnero masculino, a
imbecilidade humana no tem limites. Sou um grande homem
fmea, da mesma forma que os grandes homens machos so
grandes homens machos, fica-se catando picuinha porque o
nome da espcie  por acaso masculino e no neutro, como 
possvel que seja em alguma outra lngua, como se a gramtica
resolvesse alguma coisa nesse caso. Explicar isso, no existem
grandes homens e grandes mulheres, existem grandes homens 
machos e grandes homens fmeas. No h nada mais ridculo do que
galeria de grandes mulheres isso e aquilo, fico morta de
vergonha. A espcie  humana, como Panthera uncius, Panthera leo,
um ona, no feminino por acaso, outro leo, no masculino por
acaso, questo de lngua, exclusivamente. Explicar isso como quem
explica a um marciano. A um terrqueo. Escuta aqui, terrqueo,
deixa de ser dbil mental. Bem, ambies inteis, vamos ao
trabalho. Que mais? Nada, estou em grande dvida quanto a este
prefcio. Rever necessidade de prefcio.
   Odeio dizer isto, mas a verdade  que estou um pouco nervosa.
Minha famlia sempre desprezou qualquer forma
frescura, fui criada assim. Minha famlia no vale nada, mas 
tima, principalmente os mais antigos. Temos ancestrais
fantsticos. Tudo bandido, e eles se escondem por trs daquelas
baixelas e daqueles pratos de antes da Primeira Guerra e daquelas
maneiras de lordes das ndias Ocidentais. Meu av era, como eu
j disse, era prussiano, prussiano de Brandemburgo, abominava
todo mundo, com exceo de Frederico II. A idia dele de um
grande programa na Europa era passar quatro dias em Potsdam,
babando dentro da Orangerie e sonhando em empalar poloneses.
Grande famlia. A mulher dele era catlica da Vestflia, s
tomava banho sbado e nunca ria, a no ser gargalhadas histricas
que duravam horas, geralmente aos domingos, depois da missa e
antes dos repolhos hediondos. Tremenda famlia. S conheo meus
bisas pelos retratos ovais, espalhados por a. Os dos
museuzinhos, no levo em conta, s lembro que meu bisa Joo me
assombrava com uns olhos horripilantemente biliosos, num retrato
cercado de louros, na sala grande da casa da fazenda de Lenis.
Joo teve imensos escravos, e um antigo jornalista baiano, desses
que a  gente finge que lembra e  nome de rua em Brotas, publicou
seis nmeros da destemida gazeta independente e republicana "14
de agosto", esse jornalista, como  mesmo o nome dele, escreveu
-- hoje ningum acredita, a humanidade  burrssima mesmo -- que
meu bisa tinha descoberto a cura da gagueira. O canalha
falsificou documentos e a prpria alma 
-- voc acredita que o pulha era mulato? pardo, como se dizia
mais nessa poca -- e inventou uma poro de coisas sobre no sei
quantos escravos, pelo menos duas dzias, em cujas bocas meu bisa
mandou enfiar ovos quentes, ele adorava enfiar um ovo quente na
boca de algum sob qualquer pretexto, ou mesmo sem pretexto,
dizem at que meteu um na boca de minha bisa Sinhazinha, mulher
dele. Os ovos realmente ele mandava enfiar, mas evidente que seu
efeito foi inventado pelo jornalista. Seis desses escravos, disse
aquele crpula, eram gagos e ficaram bons da gagueira, depois dos
ovos quentes. Claro, ele no defendia que se pusessem ovos
quentes na boca de ningum, mas que se aproveitasse a lio, a
cincia mdica podia encontrar um meio para curar esse aflitivo
mal da fala atravs de uma
terapia inspirada nisso, imagino que talvez um ovo no muito
quente, em vrias aplicaes. O homem  muito ingrato para
com seus benfeitores, como dizia minha tia-av Ins, que tinha
horror de preto e chamava de cu-de-luto qualquer branca que
dormisse com negro ou raceado.
   Vejo tudo como se fosse hoje. A velha casa-grande do Outeiro,
que j peguei com as paredes cobertas de limo de verde a retinto,
insetos por tudo quanto era canto, jias que no inverno miavam
como gatos, plantas estalando, as telhas se entrelaando com
cips e uma ou outra cobra cor de esmeralda, o resto da chuva
ainda pingando das rvores nas plantas de folhas grandes embaixo,
uns fedores e cheiros mornos saindo 
das rachas nos pisos de lajota, passarinhos cantando e piando,
uns azulejos desmaiados nas paredes do varando, umas quatro
galinhas brabas ciscando debaixo das touas de bananeira, pedras
soterradas pela lama, calangos trepando pelos troncos das
mangueiras, duas ou trs mutucas zumbindo e, apesar de tudo, um
silncio que chegava a doer. Isso. Foi nesse dia, nessa grande
casa velha embolorada, que tinha uma estante de sucupira crua que
as goteiras haviam empenado nas juntas. J conhecia muito aquela
estante, mas, mesmo assim, ou talvez por causa disso mesmo, foi
mexer nos livros enrugados pela umidade, com as pginas
tresandando inesquecivelmente e, a cada uma que eu folheava, essa
exalao me trazia um arrepio no meio das costas e me deixava
enlouquecida. Havia todos os tipos de livro. Lembro bem do O
Guarany, com psilon, ilustrado pela figura de Pery, tambm com
psilon, que eu achava que mostrava um volume fascinante do lado
esquerdo da tanga de espanador, de Salamb, estampando uma mulata
quase nua na capa, D. Quixote de ceroulas em meio a alucinaes,
uma coleo encadernada de Anatole France se desmanchando, tudo,
tudo. Como seria a voz de meu bisa Joo Ferdinando Bibiano
Rafael, mandando enfiar ovos quentes na boca dos outros? Como
seria?
   Sou fixada na fase oral, fase oral canibalista certamente,
adoro qualquer forma de ingesto. Nessa poca, eu j estava bem
fixadinha, hoje isso  perfeitamente claro. No sou chegada 
psicanlise. L em casa, desde muito antes de Freud, com certeza,
sempre se achou obsceno ficar contando intimidades e fraquezas
a um estranho, mas de vez em quando uso uma frase que aproveita
o jargo dos psicanalistas, acho que  meio inevitvel na minha
gerao, no sei. Ento, na falta de melhor observao, eu tenho
certeza de que me encaixo nessa  situao de fixada na fase oral,
passei anos sem entender nada, e essa noo quebra meu galho.
Porque sempre achei gostoso ingerir, a no ser por via venosa,
e venho continuando vida afora, apesar de hoje em dia estar um
pouco blase. Ento eu ficava cheirando aqueles livros e tendo
arrepios. Ainda cheiro, mas s livros velhos e, como disse, estou
um pouco blase. Deve ser coisa da idade, certamente  a idade,
embora,  claro, eu no me considere velha. Mas j vivi quase
sete dcadas, alguma coisa sucede nesse tempo. Confuso, estou
fabricando uma tremenda mixrdia. Ser que estou fazendo
psicanlise? Pavor, ouvido de aluguel, pavor. Bem, de certa
forma, voc e esse gravador so ouvidos de aluguel. Sei l. ,
deve ser coisa da idade, eu abomino a expresso "terceira idade",
hipocrisia de americano, entre as muitas que j importamos,
americano  o rei do eufemismo hipcrita. No suporto velho,
velho mesmo, metido a alegre, velhice  uma desgraa, no traz
nada que preste. Cortar isso tudo acima, eu mesma acho que no
entendi nada do que acabei de falar. A gente fica a mesma e no
fica a mesma. Ih, chega, preciso botar alguma ordem nisto e at
os delrios precisam ser pelo menos um pouco organizados sob
algum critrio,  preciso dar mtodo  loucura, mais ou menos
como Polnio falou da pirao de Hamlet. Thy son is mad, but
there is method in his madness, no foi isso que ele disse, mais
ou menos? Eu gosto de Shakespeare, leio desde menina, mesmo no
tempo em que no compreendia patavina. Alis, ser que compreendo
hoje? Ningum compreende nada, seja da vida, seja de Shakespeare,
que morreu mais de dez anos mais moo do que eu, sem saber que
era Shakespeare, Voltaire desancou Shakespeare, todo mundo
desancou Shakespeare, a vida... Ih, chega!
   A vinda dele, o nosso encontro, isso era o que eu ia contar,
para finalmente comear o depoimento. Sem frescura, basta de 
frescura. A vinda dele eu posso dizer sem nenhum constrangimento,
foi meio violenta, ou bastante violenta, se voc quiser. Ele
brincava comigo e meu irmo Otvio, a gente gostava dele, minha
av de vez em quando deixava que ele almoasse com a gente, mas
ele era somente um dos negrinhos da fazenda, naquele bando de
escravos que meu av tinha. No eram escravos oficialmente, mas
de fato eram escravos, e a maior parte vivia satisfeita, fazendo
filhos e enrolando meu av. Figura interessante, meu av peido,
pena que eu no tenha tido a oportunidade, fsica e psicolgica,
de conviver mais com ele, no havia como, embora ele gostasse de
mim e eu dele. Acho que ele sabia que era enrolado o tempo todo.
Acho que no, ele sabia, mas claro que no ligava, ele era uma
postura pragmtico-egocntrica ambulante, no pode mais existir
gente como ele, naturalmente.





   A eu, sem qu nem para qu, muito de repente, cheguei para
esse negrinho, no ptio da quebra de coco de dend, e disse:
"Hoje de tarde esteja na casa-grande velha, na hora em que minha
av estiver dormindo. Sozinho e no diga a ningum." Ele
estranhou e disse que no podia porque ia ter
de catar ouricuri com a me e ficou revirando os olhos para cima
e levantando os ps como se marchando sem sair do lugar e
esfregando as orelhas com uma careta, como se quisesse remov-las
da cabea. "Mentira", disse eu, "mentira sua, hoje  domingo.
Voc vai, ou eu conto a meu av que voc tomou ousadia comigo e
ele manda lhe capar,
 como mandou capar finado Roque, seu tio, voc sabe que meu av
mandou capar ele, porque ele se ousou com uma rapariga dele." E
ainda dei um tapa forte, estalado mesmo, na cara dele. Ele
estremeceu e, se preto pode ficar lvido, ficou lvido. Alis,
preto fica lvido, engraado, voc nota os lbios plidos. Mas
no disse nada, e eu ainda fiz meno de dar outro tapa e s no
dei porque no tinha planejado nada daquilo e estava meio sem
entender a situao e tambm me deu uma espcie de gana de
continuar batendo e ao mesmo tempo uma sensao desagradvel,
como se tivesse medo de alguma coisa, no sei bem descrever esse
momento. Em todo caso, depois de marchar parado e esfregar as
orelhas novamente, ele respondeu que ia, e eu senti uma ccega
funda me subindo das coxas para a barriga. Senti muitas outras
vezes essa ccega, at hoje sinto, mas nunca como nesse dia.
   Quando ele chegou, parou bem embaixo da arcada do salo, com
aquele calo de saco de aniagem sem nada por baixo, vi logo que
era uma ereo impetuosa, uma fora irresistvel forando o pano
quase no meio da coxa esquerda, e ele cruzou as mos por cima,
numa posio que agora eu talvez possa considerar engraada, mas
na hora no me pareceu. Senti a ccega na barriga outra vez, mas
ao mesmo tempo no gostei. No sei direito por que no gostei,
mas na hora achei que foi porque fiquei pensando em como era que
aquele negrinho, aquele projeto de negro, alis, sabia que tinha
sido chamado para sacanagem. E se eu quisesse somente pegar
passarinhos, mostrar a ele os livros e lhe ensinar algumas letras
do alfabeto? S me lembro disso, embora tenha certeza de que
muito mais se passou atropeladamente por minha cabea, e meu
flego ficou acelerado. Ento veio o estupro, um inegvel
estupro. Domingo, e o nome dele era Domingos. Rodei os olhos por 
aquelas paredes, apareceu na minha cabea padre Vitorino na aula
de catecismo, dizendo que domingo queria dizer o dia do Senhor,
dominus vobiscum et cum spiritum tuum introibo ad altare Dei ite
missa est, aqueles latins do outro mundo e pareceu que um
redemoinho me pegou, meus olhos s viam em frente, meus ouvidos
zumbiam, e eu falei, levantando a saia e baixando a calola:
   -- Chupe aqui.
   No me recordo do que ele respondeu de pronto, lembro que
cuspiu para o lado e disse que aquilo no, nada daquilo. Curioso,
tudo est vindo de volta como nunca antes. Lembro que olhei para
baixo e vi no lugar geralmente designado por nomes ridculos sob
os quais a realidade  disfarada, vi o que eu tenho que dizer
com todas as letras, porque de outro modo vou agir conforme tudo
o que eu sou contra -- daqui a pouco eu consigo,  quase uma
questo de honra, no vou ficar satisfeita se no disser --, j
razoavelmente emplumada e enfunada como um cavalo de combate, me
senti poderosa, marchei para ele, apertei-o no meio das pernas
e, mordendo a orelha dele, disse outra vez que ia contar a meu
av a ousadia dele. Chupe aqui, disse eu, que no sabia realmente
que as pessoas se chupavam, foi o que eu posso descrever como
instintivo. Falei com energia e puxei a cabea dele para baixo
pela carapinha e empurrei a cara dele para dentro de minhas
pernas, a ponto de ele ter tido dificuldade em respirar. No me
incomodei, deixei que ele tomasse um pouco de ar e depois puxei
a cabea dele de novo e entrei em orgasmo nessa mesma hora e
deslizei para o cho. A essa altura, ele j estava gostando e se
empenhando e me encostei na parede de pernas abertas e puxei
muito a cabea dele, enquanto, me encaixando na boca dele como
quem encaixa uma pea de preciso, como quem d o  peito para
mamar, com um prazer enormssimo em fazer tudo isso 
minuciosamente, eu gozava outra vez. Imediatamente, j possessa
e numa nsia que me fazia fibrilar o corpo todo, resolvi que
tinha que montar na cara dele, cavalgar mesmo, cavalgar, cavalgar
e a gozei mais no sei quantas vezes, na boca, no nariz, nos
olhos, na lngua, na cabea, gozei nele todo e ento desci e
chupei ele, engolindo tanto daquela viga tesa quanto podia
engolir, depois sentindo o cheiro das virilhas, depois lambendo
o saco, depois me enroscando nele e esperando ele gozar na minha
boca, embora ningum antes me tivesse dito como realmente era
isso, s que ele no gozou na minha boca, acabou esguichando meu
rosto e eu esfreguei tudo em ns dois.  impressionante como eu
fiz tudo isso logo da primeira vez, porque foi mesmo a minha
primeirssima vez, e eu nunca tinha visto nada, nem ningum tinha
de fato me ensinado nada, a no ser em conversas doidas com as
outras meninas do colgio, principalmente as internas, que sempre
ficavam meio loucas, como  natural. Grande parte dessas
histrias no tinha muito a ver com o que efetivamente  feito,
com exceo das histrias sobre algumas das freiras e outras
alunas, que eu depois vi que eram mais ou menos verdade e hoje
sei que, na maioria dos casos, eram verdade. Suponho que devo ter
um certo orgulho disso, devo reconhecer sem modstia que sou um
talento nato, uma predestinada, uma escolhida dos deuses, s pode
ser algo assim. No gosto de falar desta maneira, mas no h como
escapar, existe alguma coisa de inexplicvel nisso, tenho de crer
que nasci sabendo, de certa forma. De certa forma no, eu nasci
sabendo. S pode ser, no me pergunte como. Eu nasci sabendo.
Arrepios.
   Depois disso, praticamente nunca mais nos falamos, voc
acredita? Nunca mais nos falamos, mas continuamos a fazer as
mesmas coisas e outras durante essas frias todas, uma relao 
meio animalesca, que aproveitava as oportunidades, sem que fosse
necessrio dizer nada. Era bom, era um dos muitos padres que
terminei aprendendo e que tem seu lugar, tem muito seu lugar,
estou com preguia de explicar por que e, alm disso, quem tem
sensibilidade aberta e aguada nesse terreno sabe o que eu quero
dizer, e explicar a quem no tem adianta pouco ou quase nada. S
fazamos isso, e depois ele ia embora e, se acontecia passarmos
um pelo outro em lugares em que havia gente, era como se no nos
vssemos. No nos falamos mais e, quando eu voltei, anos e anos
depois e, quando eu voltava eventualmente depois de bastante
adulta, ns saamos para pescar na canoa dele e trepvamos nus
no meio do mar. Isso s terminou mesmo depois que eu entrei em
outra rbita e nunca mais apareci. Sempre partamos para nos
agarrar automaticamente, quase todas as vezes em que ficvamos
sozinhos, a no ser nas raras ocasies em que eu no estava a
fim, e ele, por alguma via teleptica, sacava. Alm disso, a
iniciativa era sempre minha, ele ficava esperando. Ainda nesse
tempo de semi-adolescente e adolescente, eu ia com minha av ao
Outeiro e era a mesma coisa, aperfeioada a cada encontro. Ele
se viciou em me chupar e eu em chupar ele e me dava muito prazer
ns dois atrs das portas, fazendo as coisas de maneira
insubstituivelmente perigosa. Com o tempo, ainda nessas frias
em que comeamos, ele passou a botar nas minhas coxas, e a gente
aprendeu a sincronizar o gozo, e eu fazia questo de que ele
recuasse um pouco os quadris para gozar nas minhas coxas. Fiquei
uma especialista nessa prtica, at hoje acho que  muito bom em
certas circunstncias que no sei enumerar, mas sinto quando elas
se apresentam. O homem no pode gozar fora, no pode cometer o
pecado de Onan, que, como voc sabe, no foi se masturbar, mas
ejacular no cho, em vez de emprenhar  devidamente sua cunhada
viva, se no me engano era a cunhada viva, ou uma outra parenta
em situao semelhante. Est no Velho Testamento, onde, alis,
como eu j disse, esto muitas outras coisas habitualmente
denunciadas como reprovveis, que os padres e pastores fingem que
no vem. Os padres, em suas bblias, disfaram as referncias
de Salomo com notas de p de pgina, distores de sentido e
trocas de palavras.  possvel que eu tenha alguma fixao
mrbida nisso, agora talvez esteja notando indcios; curioso,
nunca tinha me dado conta. O fato  que amantes, concubinas e por
a vai so bastante encontradias no Velho Testamento, todo mundo
sabe disso e continua com as pregaes santimoniais a que at
hoje hoje no me acostumei.  capaz dessa histria de onanismo
querendo dizer masturbao haver sido inventada por eles, para
no terem que admitir as relaes hoje esprias, que a tradio
relatada mostra. Uma vez li um conto de Isaac Bashevis Singer em
que ele se referia ao pecado de Onan de maneira correta e
afirmava que, quando o homem ejacula no cho, um diabinho 
gerado. Pode ser, pode ser, o fato  que no est certo. Na hora
de gozar, tem que recuar os quadris e no privar a moa dessa
irrigao to rica em significados e smbolos, to misteriosa,
afinal. Aconselhei vrias outras meninas sobre isso e sempre
disse a elas: o homem que no goza nelas no merece confiana.
Ou ento  um inepto, que precisa ser treinado. Eu nunca deixei
de gostar, sempre adorei, at porque  geralmente em p, ligeiro
e escondido,  muito bom, por trs ou pela frente, evoca bons
tempos,  meio peralta e muitas outras coisas, dependendo de cada
uma e do momento. Enfim,  uma opo entre muitas, que no deve
ser desprezada.
   Era o que se fazia no meu tempo, chega a ser difcil
reconstituir como era complicado no meu tempo. Algum
 devia fazer a sociologia disso. Eu sou do tempo do automvel,
da garonnire e da demi-vierge, ningum hoje sabe mais o que 
isso, e eu tenho at uma certa saudade, acho motel sem graa, sem
nenhum condimento, mesmo os metidos a criar ambientes romnticos
ou erticos. Nesse ponto, sou obrigada a reconhecer meu
reacionarismo, embora no radical,  claro. E a hipocrisia da
poca era mais agressiva, dava muito gosto a quem desafiava seus
mandamentos, acabava resultando num grande prazer, a transgresso
era mais satisfatria, melhor para o ego. Vrios namorados meus,
inclusive meus dois noivos, eu j mulher completa desde priscas
eras, achavam que eu era virgem eras, achavam que eu era virgem
e diziam abertamente que no tinham preconceito, mas s casariam
com virgens. No segundo noivado, que chegou perto do casamento
e graas a Deus s chegou perto, com aquela bicha enrustida e
meio impotente, eu j estava at pronta, veja que coisa ridcula,
outrageous but true, j estava pronta para fazer uma recuperao
de minha condio virginal, restaurar o hmen. Muita gente
restaurou, sei de vrios casos. Fico pasma quando penso nisso,
mas  verdade, eu j tinha o nome de dois mdicos aqui no Rio,
j tinha planejado tudo. O passado me condena, me d vergonha
quando falo nisso. Mas era o tempo, tem que se dar um desconto,
de longe as coisas parecem fceis; na verdade, eram uma barra.
Intervalo. Vamos tomar mais um usque? Eu no devia beber, mas
s favas com isso, vou morrer de qualquer jeito. Intervalo para
uisquinho, se no for por nada, pelo menos porque in vino
veritas.
   Mas, enfim, de modo geral era um barato brincar com a
hipocrisia e dribl-la criativamente. Essa amiga de quem eu j
falei, Norma Lcia, que nunca mais vi porque casou com um
milionrio sul-africano e foi morar l, mas uma vez na vida ainda
me escreve -- depois eu quero falar ainda mais sobre ela,  ela
 mais tarada do que eu, muito mais,  um assombro, j deve estar
um tanto passada dos setenta e na ativa, ainda mais agora, que
o marido ficou paraltico e meio gaga --, essa amiga me deu
grandes lies de anti-hipocrisia aplicada, usando a fora dela
contra ela, como dizem que fazem os lutadores de jiu-jtsu. A
manobra de pegar no pau. Pegar no pau de forma que ele pense que
 a primeira vez em que a indigitada pega num pau: nunca tomar
a iniciativa e, apenas na terceira ou quarta tentativa, deixar,
toda relutante e pudica, que ele puxe sua mo. E a pegar de
leve, como se estivesse tocando num bibel de casca de porcelana,
dedos hesitantes, mo quase flcida, at ele dar um risinho
superior e grunhir "pode apertar". E ento ele explica, e voc
escuta atenta e receosamente, que  natural para a mulher
inexperiente pegar daquela forma, mas agora voc sabe, deve-se
apertar. E a, a princpio sem muita convico, mas logo fazendo
progressos, voc passa a apertar  vontade e at a abrir a
braguilha dele, que naquele tempo era de boto e nunca de fecho
ecler, j que fecho ecler, para os machos mais ciosos de sua
machido, era coisa de veado, abrir com dois dedos habilidosos,
na hora interminvel em que ele comeava a meter a lngua em sua
orelha e babar tudo. At hoje  um mistrio para mim a razo por
que os homens consideravam de rigueur meter a lngua nas orelhas
das mulheres no comeo dos dares-e-tomares, vai ver que eles
trocavam informaes sobre isso e acabaram formulando um ritual.
No que eu seja absolutamente contra, mas a obrigatoriedade do
lambuzamento s vezes dava uma certa exasperao ou impacincia.
Depois, graas a Deus, paravam, geralmente era s nas primeiras
vezes. Nmero dois: manobra para chupar. Isso era sempre,
semprrrimo, a primeira vez. Era tal a obsesso dos homens pela
primeira vez, que iam para a cama com uma  mulher de quarenta e
ela conseguia convenc-lo de que era a primeira vez em que
chupava algum. Que maravilha, eu nunca fiz isso, sabia? S com
voc, nunca fiz com ningum, s sabia disso por ouvir falar, nem
acreditava, achei que ia ter nojo, mas com voc eu no tenho,
essas coisas. Ainda hoje, acredito que a maioria dos homens 
assim, juventude descontrada e tudo. Outra coisa: nunca deixar
que ele acabe logo na boca e, se por acaso acontecer, cuspir,
lavar a boca, esfregar leno e assim por diante. O pela primeira
vez, nesse caso, era ainda mais importante do que o do chupar
simplesmente. Mulheres casadas diziam aos amantes -- e muitas
ainda dizem, suspeito eu -- que jamais fizeram ou fariam isso com
o marido, e os cretinos acreditam, no existe coisa de que homem
se gabe mais do que a amante fazer com ele o que no faz com o
marido, tudo chute, armao. Sexo anal, a mesma coisa etc. etc.
Oh,  a primeira vez, devagar, t? Grandes atrizes se perdem
todos os dias.
   Norma Lcia era uma gnia. Ela e eu subamos juntas a rua
Chile, com semblantes de moas mais ou menos recatadas e
absolutamente famlia, olhando as vitrines e tendo altos papos
de sacanagem. Altos papos mesmo, porque eu sempre tive minhas
tinturas, e ela era meio intelectual, escrevia em suplementos
literrios e se esfregava com pintores por causa de quadros,
chegou at a conseguir que um namorado comesse um pintor veado
em troca de quadros, ela era danada. Esse negcio de primeira vez
mesmo, ela batizou em latim. Principium primae no sei o qu,
qualquer coisa assim, somente para poder encetar papos de
sacanagem com Almeida Jnior, um professor de filosofia da
faculdade, e tirar uns sarros com ele, sarros pesados, mas s
sarros, porque ele tinha medo de meter nela, havia muito homem
assim, pelo menos na Bahia. Aquela  rua Chile de antigamente,
aqueles homens nas portas das lojas, todos de branco e apalpando
ou pinicando os bagos, alguns passando a mo para cima e para
baixo, acho que era um tipo de moda, no sei por que faziam isso,
sempre me pareceram um bando de hipoptamos no cio. A gente, as
hipoptamas, sou obrigada a reconhecer, a gente rebolava bastante
quando passava por eles, e Norma Lcia gostava de ouvir piadas
grossas, como "eu lhe dou um banho-de-gato, putinha", ou ento
"bonito cu" e outras que tais, parece que ela atraa isso, algum
deles dizia esse tipo de coisa a ela toda vez que ela passava,
ela fingindo que no ouvia, mas adorando. Eu digo que tenho
saudade e no deixa de ser verdade, mas  como se eu pudesse
separar as coisas boas das ruins, impossvel. Era um tempo
difcil mesmo, tnhamos que ser artistas em diversos campos. Um
dia apareceram umas mulheres de cala comprida -- isso eu j com
uns trinta anos ou mais! -- nessa dita rua Chile, e houve um
tumulto, da mesma forma que tiveram de chamar a polcia para
tirar da praia umas francesas que foram tomar banho de mar de
mai de duas peas. J havia uma multido de homens na
balaustrada, e por pouco as francesas no foram passadas pelo fio
da espada ali mesmo. Como eu j disse, barra pesada, pesada
mesmo. , saudade  besteira, h sempre muita idealizao nisso.
Eu na realidade no tenho saudade de nada, a no ser do auge da
juventude madura, mas eu queria ser jovem trazendo na cabea tudo
o que aprendi at hoje, a no podia, eu ia ser ditadora do
mundo. Est certo, duas plsticas na cara e uma nos peitos, mas
e as pernas, onde eu no fiz nada, s uma massagem ou outra?
Iguais s da Marlene Dietrich, parece at que ela era minha prima
pelo lado alemo da famlia, e eu partilho com ela a bno de
ficar com estas pernas at morrer, at porque minha morte... No,
mais tarde eu falo  nisso, no quero baixar o astral lembrando
que minha morte vem a a qualquer hora, esta doena...  isso
mesmo, quem sabe eu no estou me habituando  idia? Mais tarde
eu falo nisso, falo nisso abertamente, quanto mais aqui. Mais
tarde. Pois , hoje eu sou uma das melhores de quase setenta no
Brasil, uma das melhores do mundo, eu sei o que estou dizendo.
Imagine como eu era entre os trinta e os quarenta e poucos, na
minha opinio a melhor idade para qualquer mulher, com a exceo
da que se casa para engordar, realar a celulite, usar meias
contra varizes, assistir a novelas, entrar em concursos de
televiso, limpar o catarro dos filhos e o prprio e encher o
saco do adltero de meia tigela que a sustenta. Eu era tima, mas
tima mesmo, no dessas timas de segundo time esforado que voc
v por a, mas tima mesmo, Afrodite, Helena de Tria, Frinia!
No dou ousadia a contemporneas, talvez Ava Gardner. Um pouco
de Ava Gardner e Sophia Loren no apogeu. E me sinto um pouco
desperdiada, embora infinitamente menos do que a maioria
avassaladora. Quero e no quero voltar quele tempo.
   Ambivalncias, sempre fui muito ambivalente. No pareo, mas
sou,  uma condio bastante interna, mas sou; ningum diz, mas
sou. Por exemplo, alm de ter saudades do tempo das coxas...
Ainda vou contar algumas aventuras do tempo das coxas, tenho
material para duas guerra-e-pazes. Passagens espetaculares, uma
vez com padre Misael em pleno colgio de freiras, outra vez com
meu noivo Maurcio na porta do apartamento onde estavam dando uma
festa, e eu gozando como vinte ambulncias desgovernadas, outra
vez com meu tio Afonso no banheiro e minha tia Regina, mulher
dele, querendo entrar, ah, e essas so somente algumas, so assim
as que me vm  cabea, de momento. Eram tempos timos, em vrios 
sentidos, mas nihil est ab omni parte beatum, acertei essa, outra
que Norma Lcia me ensinou, mas dessa vez no tinha relao com
comer nenhum professor casado, de culos sem aro e cara de
santarro devotado ao partido, como Almeidinha. Foi s para
sacanear o velho Pedro, depois que ele no agentou mais ela
cruzando e descruzando as pernas e mostrando at as amdalas nas
aulas de Direito Romano e a, um belo dia, ele no se conteve
mais e acabou cantando ela, uma cantada deplorvel, em que ele
tentou usar a linguagem e as referncias que estavam em moda
entre os mais jovens e se saiu grotescamente. Foi nesse dia que
ela falou isso em latim como resposta,  uma citao de algum.
E disse mais que ele podia continuar olhando as pernas dela, ela
tinha at prazer em exibi-las, e ele era merecedor, at pela sua
sensibilidade e estatura intelectual. Mas dar, jamais de la vie,
incogitvel, ele no percebia? Alm do mais, disse ela, eu sou
virgem, o senhor pelo visto anda acreditando nas histrias que
ouve desses oligofrnicos por a, que no tm o que fazer e no
passam de um bando de donzeles frustrados, eu sou uma moa de
princpios. Norma Lcia era diablica, me contou que o velho
quase morre no sei quantas vezes, e um dia se exibiu para ela
na sala dele, at em surpreendente boa forma para a idade. Ela
ento -- Norma Lcia, grande Norma Lcia, isso  de deixar o
universo boquiaberto, pelo menos o universo dos que viveram
aquele tempo -- disse que sim, que lhe daria alguma coisa. O
velho babou e perguntou o qu. Ento est tudo azul, tudo azul?
Coitado, era assim que ele achava que a gente falava em nosso
meio. Ela conteve o riso e disse que dependia do que ele
considerava tudo azul, porque o que ela ia dar era uma alisadinha
rpida, mas s uma alisadinha. E deu a alisadinha mesmo e foi
embora com uma leve rabanada jovial, jogando um beijo para ele,
j da porta  entreaberta. E no passou dessa alisadinha, e com
toda a certeza o velho ficou maluco, j esqueci os pormenores do
comportamento dele depois desse episdio. Eu sei mesmo  que ele
ficou perturbadssimo e morreu uns meses depois, claro que a
humilhao deve ter ajudado. Embora eu no chegue a ter pena
propriamente, por causa daquela pose austerssima dele, moral
acima de qualquer dvida, baluarte dos mais elevados valores
ticos e cristos, censor de revistas e jornais, que gostava de
insultar os alunos com palavras que ele descobria em sua
biblioteca bolorenta e que os meninos tinham de ir ao dicionrio
para descobrir o que queriam dizer, como "precito", que nunca
ouvi nem li ningum mais usando e que nunca esqueci. Precito,
precito era ele, voc conhece o tipo. Geralmente, por trs dessas
carrancas intolerantes e cheias de si, se esconde um poo sem
fundo de concupiscncia e sordidez. Fariseu safado, bem-feito,
muito bem-merecido.
   , eu cheguei a dizer que no tenho saudades de nada, mas
tenho algumas. Muitas, at.  natural, no seria normal no
t-las. Saudades daqueles bailes americanos, por exemplo. Os
navios da marinha americana aportavam, e o mulherio ia aos
pncaros. Havia bailes nos navios e bailes em clubes. Os
quirmanos baianos -- quem nos ensinou esta palavra foi o velho
professor Mendona, esse, sim, uma prola de pessoa, maluco
beleza, como se diz agora, grande homem, a gente morria de rir
com ele --, os quirmanos baianos, ou seja, os viciados em mo,
que eram praticamente todos, ficavam revoltadssimos, mas a gente
no estava nem a nem chegando. Eles ficavam assim indignados
porque sabiam que a gente dava para os americanos e no dava para
eles. Quer dizer, a maior parte no dava propriamente, pela razo
de sempre, a necessidade de permanecer tecnicamente virgem, mas
dava, em ltima anlise. At hoje me espanta essa himenolatria.
Era a honra da mulher, que horror. Ainda existe, sabia? E existe
aos montes,  de cair o queixo, de vez em quando tomo um susto.
Pittigrilli, um escritor que hoje ningum l, mas andava em voga
e de que as mooilas no podiam nem chegar perto, mas cujos
livros davam sopa na biblioteca de meu pai e na do de Norminha
-- mais um ponto para minha famlia, nossas famlias, alis --,
dizia mais ou menos que, em vez de se preocuparem tanto com a
integridade dessa honra, melhor fariam as mulheres italianas em
lav-la, com gua mesmo e no com sangue, pelo menos uma vez por
dia. E, de fato,  triste, acho que como ele prprio ainda disse,
viver numa sociedade em que a honra feminina  portada entre as
pernas, que coisa mais besta, meu Deus do cu. Mas, no , no
? s vezes me d vontade de fazer um comcio. Quantas vidas se
perderam, quantos destinos se estragaram, quantas tragdias no
houve, quantos conventos no foram abarrotados desumanamente, por
causa da honra de tantas e tantas infelizes?




   Sim, creio que a grande maioria preservava o hmen com os
americanos, mas, de resto, fazia-se tudo. E a gente quase sempre
tinha que ensinar muito a eles, embora com bastanta jeito, para
no espantar. Nunca encontrei um -- nem eu, nem Norma Lcia, nem
nenhuma das outras meninas que faziam intercmbio de experincias
comigo -- que no tivesse um mundo para aprender. Eles eram uns
bestalhes, os americanos, mas tinham grande serventia, porque
o homem baiano metia a mo por baixo de sua blusa e, no dia
seguinte, todo mundo sabia, at em Feira de Santana. Isso num
tempo em que no se usava telefone como hoje e, por  exemplo, uma
ligao aqui para o Rio costumava levar o dia todo para se
completar. Quando se completava. No final, a gente tinha que
falar aos berros, entre todo tipo de chiadeira, zumbidos e
apitos, uma cacofonia infernal. Acho que no h um s baiano
dessa gerao, e das duas ou trs posteriores tambm, ou mais,
que nunca tenha chegado a um amigo, ou  turma do bairro ou do
colgio, para dizer "no digam a ningum, mas eu peguei nos
peitos de Guiomar por dentro". Peguei nos peitos por dentro,
frase mgica, muitas moas mais frgeis quase foram destrudas
por essa frase e os "tambm quero, seno vou espalhar" que se
seguiam.  inacreditvel, mas havia sujeitos que chegavam para
as meninas e diziam isto, e algumas cediam,  inacreditvel.
   Em suma, os americanos eram uns merdas simpticos, s eram
bonitinhos, mas no sabiam trepar, e a maioria, quando queria
dizer um palavro, dizia God e Jesus, imagine um povo que achava
palavro dizer Deus e Jesus, tudo ligado ao puritanismo deles,
usar Seu santo nome em vo, essas coisas. Tanto assim que muitos
empregavam eufemismos, como Geez, Golly gee e oueras besteiras
do mesmo jaez, imagine novamente um povo que precisava de
eufemismos para exclamar o nome de Deus ou de Jesus. Eles
trepavam e diziam oh God, oh God, s me lembra um portugus,
Nuno, um portugus lindo que foi meu caso uns tempos, Jos Nuno,
lindo. Alis, fode-se muito bem em Portugal, ao contrrio do que
eu suponho ser a opinio generalizada. Mas eu quase nunca gozava
com o Z Nuno, porque, no momento culminante, ele urrava "no
t.acanhes, no t.acanhes!", e meu ponto G acionava o disjuntor
no ato, eu entrava em crises de riso e depois roava na bunda
dele, ele adorava, embora fosse machssimo como todo portugus,
inclusive os veados -- paneleiros, para ficar com a usana 
portuguesa e emprestar alguma cor local  narrativa --, os
paneleiros que se juntam nos arredores do Campo Pequeno, onde se
fazem ash curridash d.toirosh em L.shboa e vo trabalhar como
forcados, que so uma espcie de veados parrudos que vo
enfrentar os touros no peito. Em fila, trenzinho, um encostando
a bunda no de trs, naturalmente. E depois vo s tascas, aos
copos e  veadagem, so veados machssimos. Vi muitas belas
bundas em Portugal, que l no so chamadas de bundas, mas de cu
mesmo, que l nem  palavro, veja como so as coisas, grande
pas subestimado. Bundas de homens e mulheres. Toda mulher
portuguesa d a bunda, ou pelo menos dava, para manter a santa
virgindade vaginal, como aqui. Hoje, com a entrada na Comunidade
Europia e outras mudanas -- eles hoje detestam o Brasil, sabia?
portugus de-tes-ta o Brasil, com a exceo do Mrio Soares, do
Saramago, do Jos Carlos Vasconcelos e dois ou trs outros gatos
pingados, desprezam mesmo,  uma pena --, no sei mais como esto
as coisas. Provavelmente nunca mais ser ouvida a pergunta
imortal que um amigo meu escutou, depois de enfrentar
galhardamente a primeira com uma portuguesa belssima, ele que
antes estava at com medo de broxar. Ele me contou que,
satisfeito e aliviadssimo, estava fumando o tradicional
cigarrinho post coitum, quando ela olhou para ele e falou: "E ao
cu, no me vais?". Fantstico, disse ele; emocionante. E fui-lhe
ao cu, disse ele, que maravilha. Imagine aqui no Brasil, uma
mulher fazer uma pergunta dessas, no faz. Eu morei no bairro de
Alvalade, dava para ir andando ao Campo Pequeno, cansei de ir s
corridas somente para ver as bundas apertadinhas dos forcados.
Sou contra essa teoria segundo a qual os brasileiros tem belas
bundas e alimentam uma fixao patolgica por bundas somente por
causa dos africanos. Isto  preconceito, as belas bundas da nossa
gente vm tanto da frica  quanto de Portugal, tanto assim que
eu no tenho sangue africano nenhum, pelo menos que eu saiba, e
sempre portei uma bunda acima de qualquer crtica, at hoje no
envergonho. Duvido que, se eu disser a algum homem que me coma
"e ao cu, no me vais?", ele no v imediatamente.
   Claro que nunca fiz essa pergunta aos americanos, at porque
em ingls no tem graa, e eles eram realmente uns bestalhes,
a gente tinha que usar mil recursos para eles irem acertando aos
poucos. Mas no tinham s essa vantagem de que falei de no
poderem, mesmo que quisessem, sair pela rua Chile, espalhando aos
quatro ventos suas proezas conosco. Eram proezas nossas, pensando
bem. Mas era bom, no final das contas. A gente tinha de ensinar
tudo, porque eles no sabiam nem beijar direito, achavam chupo
com lngua uma coisa praticada exclusivamente em bordis
franceses -- at hoje chamam isso de French kiss, se bem me
lembro -- e mais uma poro de coisas infantis. As baianas de
minha gerao devem ser responsveis pela formao de centenas
e centenas de americanos, fomos uma fora progressiva na vida
deles. Teve um, chamado Chuck, a quem ensinei tudo, e ate hoje
ele deve ser um desajustado na terra dele, em Oklahoma. Muskogee,
Oklahoma, nunca mais esqueci. Acho que sou a nica pessoa de fora
de l que ouviu falar, deve ser um horror. Bom aluno, ele, um
talento que teria sido perdido, se a mulher baiana no tivesse
entrado em cena, e com meu brilhantismo, modstia  parte. E
apesar disso tudo, era bom, como eu falei. No s a gente dava
alguma vazo quela energia toda de potrancas mal-atendidas,
felicssimas por receberem uma carga macia de homens para uso
livre trs a quatro vezes por ano, como treinava o nosso ingls,
tanto para papos normais como para palavras que no eram
encontradas nos dicionrios e a gente
 morria de curiosidade em saber. Aprendi muita palavra chula em
ingls, cunt, pussy, prick, balls, blowjob, fingerfucking,
cherry, perdi a conta.
   Que interessante, nada como um dia depois do outro, realmente.
Quem te viu, quem te v. Quando Chuck passou por Salvador e mesmo
muito depois, as mulheres grvidas nem sequer apareciam
barrigudas nos filmes americanos, no podiam ter enjos, nada,
nada. Passavam nove meses grvidas, com a barriga do mesmo
tamanho. Dormiam de suti, impecavelmente maquiladas e penteadas,
e acordavam do mesmo jeito. Ningum falava palavro. Ningum
comeria nada de errado, a no ser para sofrer castigos demonacos
no fim. E por a se ia, era como se aqueles fascistas do tipo de
um tal de William Hays, de quem eu vi uma foto que imediatamente
me trouxe  cabea o velho Pedro e outros santarres do mesmo
quilate, despejassem o anti-sptico deles no cinema. Pois ontem
eu estava brincando na Internet e a bati de cara com uma pgina
de educao sexual, que qualquer criana pode achar, se bem que
eles agora estejam usando cdigos, programas e senhas especiais
para no deixar que as crianas tenham acesso a certo tipo de
coisa. At a, vamos dizer, tudo bem, porque a Internet realmente
mostra uns troos que voc entende por que os pais no querem que
seus filhos pequenos vejam, se bem que seja intil, como todo
esforo nessa rea sempre foi. Mas essa era uma pgina normal de
consulta e pesquisa, at meio famlia, com aquele ar de americano
vestindo palet para ir ao culto no domingo, ou trinchando peru
no dia do Thanksgiving. E l estava uma tal Dra. Betty Dolson,
grande Dra. Dolson, falando para uma platia aberta, que apenas
devia ter pago a entrada, a respeito do clitris dela, de
vibradores, de felao, de cunilngua, de um casal de mais de
setenta cuja mulher se queixava  agressivamente de que o pau do
marido no subia, experincias sexuais de todos os modelos e mais
uma poro de coisas do arco da velha, numa linguagem
tchan-tchan, sem disfarces, que fazem este depoimento soar at
como antigo, eu acho que ter uma aparncia de antigo e pudico
para muita gente que o ler. Verdade, no estou sendo irnica,
verdade,  por isso que eu quero soltar as amarras que ainda me
pegam, eu quero ficar livre. Livre! Eu quero ser moderna! Voc
no est achando que eu estou sendo branda demais? Eu estou
achando. Estou parecendo uma americana do tempo de Chuck. No,
no estou, exagero meu. Mas preciso pr tudo numa perspectiva
correta, atualizada, moderna, enfim. No posso ficar numa atitude
temerosa dos censores de Joyce, de Lawrence, de Henry Miller etc.
Se eles podem, se a Dra. Dolson pode, por que eu no posso?
Grande Dra. Dolson, me ajudou bastante nesta fase de
escancaramento e batalha contra a burrice e o atraso, vamos 
luta, ponto para os americanos. Ponto para mim tambm, por que
no? Estou atenta e tiro proveito inteligente de tudo o que me
aparece; comigo no pode haver hesitaes. Vamos  vitria, estou
com preguia de me estender mais e acabar me enovelando
novamente, como j aconteceu. Uma coisa de cada vez. Aos
americanos.
   Norma Lcia reuniu uma coleo de americanos da mais alta
categoria, quantitativa e qualitativamente. Funcionava como uma
biblioteca pblica; a gente ia l e tomava um emprestado, sem
burocracia. Sobretudo quantitativamente. S quantitativamente,
alis. Quantitativamente, s serve para o livro de rcordes. Um
acervo interessantssimo, o de Norminha. Basta citar Melvin, que
gozava e ficava com as pernas bambas se a gente tocasse no pau
dele nos minutos subseqentes e pedia perdo a Deus toda vez que
gozava, contribua  bastante para nossa religiosidade. Tinha esse
Melvin, tinha Gordon, tinha Cliff, tinha Andy, todos querendo
aparentar experincia, mas a gente sabia que precisava trabalhar
ex tabula rasa com eles. Mas tambm,  claro, teve o Bob, teve
o Ken... O Ken era judeu, e eu fiz um emprstimo dele; s vezes
Norminha e eu at armvamos umas surubinhas, semi-surubinhas na
verdade, coisa boba --americano at hoje no tem uma boa palavra
para "suruba", continuam um pouco subdesenvolvidos nessa rea.
Group Sex soa como sado do catlogo de cincias sociais de
Stanford e vai ver que est l. Foi o Ken que me ensinou o que
quer dizer mohel, porque eu fui tomada por uma crise de riso
incontrolvel, quando vi o pau dele pela primeira vez. Era todo
tronchinho e, quando voc o olhava de cima, parecia uma careca
dando risada. Ele no se incomodou, disse que j estava
acostumado, que o mohel que cortou a pelanquinha dele s vivia
de cara cheia e que o lugar de Nova Jersey em que ele nasceu est
cheio de judeus de paus tortinhos e risonhos, que esse mohel
circuncidou. Cultura intil  comigo, ningum sabe o que  mohel,
a sacanagem  mesmo um grande veculo de intercmbio cultural.
Mohel  o cara que faz a poda dos prepcios,  uma alta
especialidade mosaica, mas esse do Ken era mais chegado a No,
que tomou um porre e comeu as filhas e depois ficam falando isso
e aquilo para disfarar; at Dante acho que botou No no limbo,
em vez de no inferno, que era o lugar dele. Vamos ser coerentes.
Trepar com todo mundo d ou no d inferno? Comer filho d
inferno? Alis, vamos deixar de lado esse negcio de inferno,
ainda conservo um certo grilo de inferno.
   Pois , Norma Lcia tinha essa infinita coleo de americanos,
alguns ricos, e todos adoravam ela. Ela se hospedou muito
naquelas fazendinhas deslumbrantes da Nova Inglaterra,  ranchos
texanos, criaces de cavalos em Kentucky, desbundes em Palm
Springs, tudo o que voc possa imaginar, naquele tempo em que o
Galeo era um galpo mal-acochambrado e as mulheres viajavam de
chapu e desfilavam para l e para c, com os passaportes
abanando nas mos. Quando ela gostava de algum pobre, tipo
capito de submarino, bancava a despesa toda, eu amo Norminha.
Ela fazia todo tipo de estripulia, comeu a mulher de Ken, comeu
uma porrada de amigos deles, comeu o filho mais velho de Gordon,
comeu o general pai de Bob... Eu amo Norminha,  uma dola minha,
e olha que eu no sou dada a ter dolos. A vida  louca. Ela se
casou com Carl, o fazendeiro sul-africano, por causa do Bob. A
gente transou com o Bob em duas viagens que ele fez  Bahia, uma
como oficial da Marinha e outra num desses veleiros em que as
pessoas vomitam, dormem dentro de buracos, nunca tomam banho,
vivem de bunda assada e curtem se pendurar nas bordas dos barcos
-- "fazer beira", eles dizem; para mim fazer beira sugere outra
coisa, deixemos para l --, fazem beira entre ventos assassinos
e gua salgada na cara e as mos sangrando e tudo no corpo sendo
modo, tem gosto para tudo neste mundo. Apesar desse defeito, Bob
era fantstico, o av dele tinha inventado uma espcie de grampo
de papel inovador, no sei bem, um troo desses que todo mundo
usa e s os americanos patenteiam, de maneira que Bob tinha mais
dinheiro do que todo o estado da Bahia, era um festim, trazia
todo tipo de presente americano, do tempo em que s se achavam
certas coisas em Nova York, e Nova York era Nova York, e no
existiam japoneses. Ele aprendeu muito com Norma Lcia. Comigo
no, porque ela era craque e eu aspirante, se bem que muito
talentosa. Aprendeu tanto que virou virtuose e, quando ficou
amigo de Carl, numa dessas rodas de iatismo que eles 
freqentavam, contou tudo a ele. Contou que Norma Lcia era o
fodao dos fodaos, verdadeira oitava maravilha do universo, aqui
perdida neste lado do Atlntico Sul, e no deu outra. Claro que
no deu outra: o iate dele -- que iate! -- aportou na Bahia. E
claro que ele ligou imediatamente para Norminha, e ela, a va
sans dire, no envergonhou a Bahia, o homem ficou completamente
ensandecido. Casaram em trs meses, e Bob foi o padrinho e eu a
madrinha e, enquanto eles partiam no Hurricane para um cruzeiro
no Caribe, Bob e eu fomos nos enroscar numa casa de veraneio que
ele tinha alugado em Amaralina,  vida.
   Eles sempre foram felicssimos. Ela adorou a frica do Sul,
at porque sempre gostou muito de matar bichos grandes, e Carl
dava todo o dinheiro que ela queria para ela comprar o direito
de sair matando o que lhe desse na veneta, naqueles pases
africanos que a gente v nos documentrios, onde s tem bichos,
pobres fantasiados e generais com contas secretas na Sua, so
s no sei quantos mil dlares por elefante, no sei quantos por
leo e assim por diante, para no falar que no havia
ecologistas. Ela disse que matar  o maior afrodisaco que existe
e que sente um arrepio assombroso, na hora em que o bicho
sucumbe. Quando ela era menina, ordenava s serviais da fazenda
que a chamassem quando fosse hora de matar qualquer bicho,
inclusive porco, que  uma barra para morrer de faca, com aqueles
guinchos agoniados, aquelas contores e sangue espirrando por
tudo quanto  lado. E ela preferia faca a qualquer outro
instrumento, para essa diverso. O contato  mais prximo, dizia
ela, e eu acredito que ela tinha um barato fazendo essas coisas.
Naturalmente que no dava para matar
um leo dessa forma, feito Tarzan, mas ela sempre atirou bem e
matou uma poro. Ainda aqui na Bahia, ela chegou a criar  uma
jibia chamada Selma, e a coisa de que ela mais gostava era
alimentar Selma. Jibia no come comida morta, tem que ser um
animal vivo. Pelo menos foi isso que ela me contou. Cobra come
pouco, acho que uma ou duas refeies por ms. Bem, no vem ao
caso, o fato  que ela descolava uns ratos brancos com uma amiga
em no sei que laboratrio, ou ento uma pre no criatrio de um
empregado do pai, e fazia um verdadeiro ritual para dar o bicho
a Selma. Assisti a algumas dessas celebraes. No entrei em
transe nenhum, mas acredito que compreendi o barato dela, acho
que intuo esse barato, havia alguma coisa de morbidamente sensual
naquela cena. Ela trazia o rato numa gaiolinha de arame, no
tinha nem a caridade de arranjar uma caixa fechada; me lembrava
aquela cena de Ana Bolena em que vm dizer a ela, Ana Bolena, que
Henrico mandou cortar o pescoo dela, com aqueles tambores
agoureiros redobrando e Maria Callas gritando "sirrrr
Peeerrrrrrcy!", acho lindo. Norma Lcia botava Selma num quarto
desocupado e sem moblia daquele casaro enorme da chcara,
trancava a porta, acendia uns incensos fedidos que ela comprava
nas Sete Portas, se acocorava num canto e soltava o rato para
Selma comer. Despejava o rato, quero dizer, porque ele no saa
da gaiola, gelava assim que via a cobra. Ela entrava em xtase
s de ver o rato paralisado de terror, e Selma fixava aquele
olhar malevolente de cobra nele, com a lngua tenteando o ar,
para depois, com uma classe sinuosa que s cobra tem, enroscar-se
nele, lamb-lo, esmag-lo e engoli-lo sem pressa. Norma Lcia no
se aguentava de excitao diante desse espetculo e se masturbava
horas seguidas. Muitssimo mais tarada do que eu,
incomparavelmente, chegava a acariciar longamente os paus dos
cavalos dela, com os olhos fechados e quase em transe. E adorava
ver cavalos trepando tambm. 
   No que cavalos trepando no sejam uma viso muito bonita, eu
tambm gosto de ver, assim como jegues; vi inmeros, soltos pelas
ruas e terrenos baldios, em Itaparica. E cachorros tambm, 
interessante como cachorros trepando tambm so excitantes. A
corte dos cachorros parece desgraciosa  primeira vista, mas, bem
olhada, no , principalmente a dos vira-latas em bando, brigando
pela posse da fmea, at que um sai vitorioso, e a penetrao
culmina o triunfo. Mas nunca cheguei a ser como Norminha. Ela era
diferente, era realmente completa, sempre tive uma certa inveja
dela. Inveja sadia, eu no queria tirar o que ela tinha, queria
somente ter tambm o que ela tinha, ou melhor, ser como ela era.
Uma inveja a favor, de admirao, no uma inveja destrutiva. Tudo
o que ela fez, fez num tempo em que tudo era bem mais difcil
para as mulheres. No que no fosse difcil para os homens tambm
e, sob outros aspectos, nunca deixei de ser solidria com os
pobres dos machos, acorrentados a uma poro de deveres
esdrxulos, desde no chorar at enfrentar situaes
horripilantes, s porque eram machos. A gente pensa que lembra
como eram as coisas, mas no lembra, h sempre filtros, filtros
da memria, filtros das neuroses, filtros do voluntarismo, tudo
quanto  tipo de filtro. No era brincadeira, no, mesmo com ela
e eu vindo de famlias muito liberais e meio porras-loucas, meio
metidas a europias cosmopolitanas. Minha me dirigia carro,
usava calas compridas e fumava desde que eu me entendi e ia ao
mdico sozinha e ao cinema sozinha, um escndalo. Mulher no
tinha que ficar virgem apenas porque o babaca do noivo exigia --
como at hoje exige, o Brasil no  s Ipanema --, pois havia
tambm o medo de engravidar. Usava-se camisa-de-vnus, mas os
prprios homens tinham vergonha de comprar camisinha nas
farmcias, para no falar 
que  um recurso insuportvel e grande parte dos homens fica to
concentrada ao tentar enfi-las, que acaba broxando. A ereo no
foi planejada para acontecer quando se est concentrado num
problema tcnico.  uma operao esquisita e desajeitada. Eu ouvi
dizer que, aqui no Rio, j h meninas que pem a camisinha no
namorado com a boca. Eu imagino como seja, mas mesmo assim
gostaria de ver, no creio que a camisinha melhore com essa
manobra, nunca suportei camisinha. Quando foi que chegou a
plula? No me lembro bem, mas ns no ramos mais mocinhas, por
a se pode adivinhar o que ns vivemos, se bem que a represso,
como j observei, teve sua utilidade, at mesmo ldica. Eu passei
muito tempo sem saber que era estril, s vim a saber muitos anos
depois, de maneira que tinha tanto pavor de engravidar quanto
Norma Lcia e todas as outras, a no ser as chantagistas ou
inconseqentes. Ela, por sinal, apesar das cautelas, tabelinhas,
simpatias e remdios suspeitos, fez trs abortos. Havia uns
mdicos conhecidos e comentados  boca no to pequena, dizem que
at bons mdicos, que faziam abortos. A clientela devia ser
fortssima, s podia ser. Quem podia, vinha fazer os abortos aqui
no Rio, para despistar. Mas, claro, eu, graas a Deus, no tive
que fazer aborto e agora, olhando para trs, vejo que Deus sabe
mesmo o que faz, porque eu no ia dar para me, ia ser uma me
horrenda e talvez at comesse meu prprio filho, conheo uma meia
dzia de trs ou quatro dessas jocastas por a, nada no mundo 
impossvel, isso  at relativamente comum. Como dizia o velho
Matosinho, na faculdade, a verdade di, a verdade machuca, a
verdade contunde, a verdade fere, a verdade maltrata, a verdade
mata -- o velho Matosinho era um estilista baiano, no piorssimo
sentido da palavra, mas tinha bvia razo. Como tinha razo
Nelson Rodrigues: se todo 
mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ningum se dava com
ningum. A verdade  essa, de vez em quando eu fico com mpetos
de sair vergastando os fariseus, acho que  por isso que eu quero
publicar este depoimento, j me quebra um galho. No vou dizer
que seja comunssimo me comer filho ou irm comer irmo, mas que
las hay, las hay. E los hay tambm, talvez at mais. No interior
do Nordeste 
-- e por que no dizer do Brasil todo, do mundo todo? -- de vez
em quando prendem um, como sempre, pobre, e suspeito que  a
famosa ponta do iceberg, na verdade as ocorrncias so muito mais
numerosas do que se imagina. Em relao a irmo, posso dar meu
testemunho pessoal, eu comi muito Rodolfo, meu irmo mais velho,
at ele morrer a gente se comia, sempre achamos isso muito
natural. Evidente que  natural, a maior parte das pessoas passa
pelo menos uma fase de teso no irmo ou na irm, s que a
reprime em recalques medonhos. Ns no. Norma Lcia tambm no.
Muita gente tambm no.
   Mas no era isto que eu estava dizendo, eu ia dizer que, se
houvesse mesmo feminismo neste pas -- feminismo sadio, no esta
merda de querer ser melhor do que os homens e apenas assumir o
papel de dominador, como se para descontar, burrice, burrice, uma
tirania no justifica outra, burrice --, levantariam uma esttua
para Norma Lcia, estabeleceriam uma Fundao Norma Lcia,
qualquer coisa assim. Talvez eu mesma tome essa iniciativa,
pensando bem. Por que no? A gente se acostuma a achar que no
pode fazer as coisas e, de repente, descobre que pode. Quase
sempre pode,  por isso que muitos malucos do certo. Vou meditar
sobre isso seriamente. Fundao Norma Lcia pela Liberdade da
Fmea da Espcie, a FUNOLU! No, sem brincadeira, pode ser uma
boa idia, pensar nisso com carinho. Fundao Antipreconceito
Norma  Lcia, Fundao da Liberdade Humana Norma Lcia, Comit
Antiburrice Norma Lcia, Comisso Norma Lcia de Combate ao
Atraso e  Estupidez, alguma coisa importante em homenagem a ela,
inspirada nela e em outras heronas ignoradas. Ela de fato
merece. Elas merecem. Ns merecemos. Se bem que, como eu tambm
ia dizendo, as restries todas nos foraram a conseguir caminhos
inteligentes para super-las, o que nos tornou melhores mulheres
em todos os sentidos, inigualavelmente melhores do que seramos
sem elas. Aprendemos a dobrar situaes adversas, desenvolvemos
reas intelectuais, emocionais e sociais que do contrrio teriam
ficado estagnada, atrofiadas. E aprendemos a transar, a curtir
tudo. As mulheres, paradoxalmente, nesta era de liberdade, esto
ficando incompletas, em relao a ns. No todas, nunca so
todas, mas muitas de ns aprenderam a gozar por praticamente
todos os buracos do corpo, basta dominar uns truquezinhos e
exercit-los com um certo afinco; eles, quando menos voc espera,
se tornam automticos, parecem inatos. A necessidade deu muita
criatividade  minha gerao, muita versatilidade. Aprender a
apertar as coxas produtivamente, por exemplo, muitas mulheres no
sabem mais, a necessidade no as espicaou. Antigamente era muito
mais comum a mulher gozar apenas apertando as cozas uma contra
a outra, ou quase isso, havia recurso para tudo, havia realmente
um certo virtuosismo hoje perdido, pela falta de explorao plena
de nossas potencialidades. Enfim, conseguimos transformar o limo
em diversas limonadas, transformamos o limo em laranja doce,
melhor dizendo.


Isso pode resvalar para o saudosismo, os bons tempos e
semelhantes asnices, no h bons tempos, s h tempos. Nada de
saudosismo, saudosismo  uma espcie de masturbao sem
verdadeiro prazer, uma inutilidade atravancadora, que no mximo
pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente  perda de
tempo mesmo. No, nada disso. Aqueles tempos tinham seu charme,
mas eram duros tambm, cada tempo tem sua dureza, com mil perdes
pela filosofia de botequim. Tomar nas coxas, de que eu j falei
tanto, exige know-how, para ser desfrutado decentemente A mulher
tem que treinar a postura, para estar segura de que vai  atingir
um orgasmo, ainda mais quando o homem  semi-adolescente e goza
em dois dcimos de segundo. Era preciso tambm tomar cuidado com
o pessoal do "s a cabecinha", todo mundo manja esse pessoal,
embora ele exista mais no folclore do que na vida real, eu mesma
s encontrei uns trs. Tive at vontade de dar para um deles,
cheguei a comear a abrir as pernas, encostada no pra-lama do
carro do pai dele. Mas algo me disse que no. Algo quase sempre
mente, mas, mesmo assim, manda a boa parania sadia que se d
ateno a ele. Pois , Algo me disse que no desse, nem nesse dia
nem nos subseqentes, embora adorasse me agarrar com esse rapaz,
ele devia ter uns feromnios extraordinrios. Ficava ralado de
tanto botar nas minhas coxas e eu fazia tudo com ele, exceto
deixar que ele metesse, fosse na frente, fosse atrs. Atrs, bem
que eu tentei, a primeira vez em p, encostada no muro do farol
da Barra, que, alis,  meio inclinadinho, e a gente fica mais
ou menos reclinada de bruos, grande farol da Barra. Ele passou
cuspe, eu me preparei toda ansiosa e, quando ele enfiou, no
consigo imaginar dor pior do que aquela, uma dor como se tivessem
me dado dezenas de punhaladas, uma dor funda e lacerante, que no
passava nunca, me arrepio at hoje. E as tentativas posteriores
foram todas desastrosssimas, experincias humilhantes e
acabrunhantes, passei anos traumatizada e decidida a tornar
aquilo territrio perpetuamente proibido e mesmo execrado. At
que Norma Lcia me ensinou uma coisa. No. Duas coisas. No. Trs
coisas. Primeira coisa: no comeo, na iniciao, por assim dizer,
tem que ser de quatro, requisito absoluto para a grande maioria.
Segunda coisa: tem que dizer a ele que venha devagar. Ou, melhor
ainda, dizer a ele que espere a gente ir chegando de r devagar,
sempre devagar. Terceira e mais importante de todas: relaxar,
relaxar, mas  relaxar de verdade, soltar os msculos, esperar de
braos abertos, digamos.  um milagre. Foi um milagre, na
primeira vez em que eu segui essa orientao simples. Da para
gozar analmente -- no sei nem se  gozo propriamente anal, s
sei que  um gozo intensssimo -- foi s mais um pouco de
vivncia, with a little help from my friends, ha-ha. Quem no
sabe fazer isso nunca fez uma verdadeira suruba, nem pode fazer,
nunca vai poder comer direito um casal, enfim, vai ser uma mulher
incompleta, acho que qualquer um concorda com isso. No sei se
voc sabe, mas as hetairas, as cortess da Grcia antiga, davam
a bunda, preferencialmente. Apesar de j haver mtodos
anticoncepcionais, o mais seguro era mesmo uma enrabao,  uma
arte milenar que no pode ser perdida, e toda mulher que, sob
desculpas inaceitveis e ditadas pela ignorncia, preconceito ou
incapacidade, no conta com isso em seu repertrio permanente 
uma limitada, no importa o que ela argumente. Acho at que todas
as refratrias na verdade sabem que so limitadas e procuram
negar essa condio atravs de mecanismos para mim pouco
convincentes. Depois que aprendi, naturalmente que tive de
procurar esse namorado meu -- esqueci o nome dele agora, Eusbio,
qualquer coisa por a -- e dar a bunda a ele, no podia morrer
sem fazer isso. Dei numa festa de aniversrio da ento namorada
dele, num stio onde  hoje Lauro de Freitas, eu tambm era
levadinha.
   E por que eu no deixei que ele me comesse na frente tambm?
Bem, primeiro porque achei que no estava pronta ainda, embora
me sentisse profundamente lesada em meus direitos elementares,
por no  poder dar tudo o que era meu e de mais ningum. Mas,
para consolar, eu j rinha me desenvolvido extraordinariamente
em outras reas, j desfrutava tomar na bunda e nas coxas com
grande competncia, j gozava  chupando, gozava at quando
chupavam meus peitos bem chupados, gozava no dedo, gozava
apertando as coxas, no  sentia, enfim, falta de muita coisa e
tinha realmente terror de ficar grvida. Segundo, e mais
relevante,  que eu tinha uma fantasia de meu desvirginamento,
que eu acho que tirei da biblioteca de meu av, um livro grosso
sobre a vida sexual, que trazia as fotografias de um homem e uma
mulher, ambos nus de frente, ambos em posio de sentido, tudo
altamente neutro. Mas eu no  conseguia deixar de mirar os peitos
e os pentelhos dela e o bigode e o pau dele, passava horas
entretida nisso e lendo a descrio de um desvirginamento, feita
pelo autor. No  sei de cor, mas  como se soubesse, at hoje sou
capaz de repetir essas palavras, do jeito que ficaram em minha
cabea: "E ento chega o momento to ansiado. Sem pronunciar uma
palavra, ele fecha a boca da donzela com um beijo decidido entre
seus bigodes msculos, insinua seus quadris, delicada mas
firmemente, entre as coxas dela e dirige a glande inturgescente
para o hmen, ento trmulo e lubrificado pelos fluidos naturais
da vagina. Resoluto, ele se assegura, s vezes com a ajuda das
mos, de que est no ponto certo e ento, enquanto ela d um
gemido abafado, entre a dor e o prazer da fmea que finalmente
cumpre o seu destino biolgico, penetra-a com um s impulso
vigoroso, abre-lhe mais as pernas, inicia um movimento de
vai-e-vem profundo e, finalmente, derrama-lhe nas entranhas o
morno lquido vital, sem o qual ele no  nada, ela no  nada."
Essa era minha fantasia, at hoje , sempre foi um dos meus temas
de masturbao favoritos e, no sei se de alguma forma por isso,
passei grande parte da vida preferindo homens mais velhos, s
depois  que comecei a gostar de homens mais novos, depois que
descobri que os mais velhos so putas velhas iguais a mim, no 
valem nada. E, depois, burro velho, capim novo, verdade inegvel.
Hoje, sinto prazer em seduzir e treinar um jovem bonito; 
estimulante, revitalizador, faz bem ao ego.
   Claro que eu, mesmo gostando irracionalmente da cena, ou seja,
da maneira mais forte possvel, no tinha idia de que ia
acontecer comigo exatamente dessa maneira, ou quase exatamente.
Ainda nem sonhava em conhecer Jos Lus. Jos Lus foi meu
professor de prtica de Penal, ningum ligava para ele, mas Penal
 timo, porque tem aqueles papos de estupro presumido, seduo,
atentado ao pudor, rapto etc., tudo excelente para puxar
conversas de sacanagem aparentemente inocentes e tcnicas, mas
assim mesmo as meninas pouco ligavam para ele, no tinham
intuio ou experincia para avaliar adequadamente o potencial
dele. As poucas que se interessavam por ele no  alimentavam
planos, porque ele era casadssimo, caxissimo, ordeirssimo,
reprovadorssimo, de maneira que ningum achava que valia a pena
o trabalho, mesmo diante da tenebrosa escassez de homens
aproveitveis, aquele elenco deprimente de coadores de baixios
e primitivos neandertalescos. Parntese. Falando em
neandertalesco, me apareceu este parntese, talvez injustiando
um pouco o homem de Neandertal.  difcil acreditar neste
parntese, mas  a pura verdade, no  resisto a cont-lo.
Verdade, verdade, fiquei pasma na ocasio e continuo abismada.
Uma conhecida minha era noiva, de aliana no dedo, de um rapaz
muito conhecido, com quem todo mundo simpatizava, um
rechonchudinho corado, gentil, educado, aberto, simptico mesmo.
Eles eram um casal de pombinhos, todo mundo se referia a eles
como pombinhos, um chamego e um carinho que chamavam a ateno,
s apareciam juntos, aos beijinhos e alisadinhas. Namoro padro,
na Bahia. Pois bem, pois um belo dia acabaram. Foi um susto 
geral, dezenas de hipteses e especulaes e ningum conhecia a
verso correta. Muitas e muitas voltas do mundo depois, ns duas
estvamos tendo uma espcie de caso passageiro, e ela me contou,
na cama, o que de fato havia acontecido. Inimaginvel, mas acho
que at hoje continua acontecendo. Ela me contou que mantinha a
virgindade com ele, mas, de resto, faziam uma poro de coisas,
na verdade, agora ela sabia, uma poro de meras perfumarias. E
ele foi o primeiro na vida dela, a nica experincia que ela
tinha. E a esto os dois namorando numa balaustrada deserta na
Barra, j escurecendo, ele sentado, ela em p, recostada entre
as pernas dele, quando sentiu o pau dele duro lhe roar na
bochecha. Ela ento ficou esfregando a cara para l e para c,
por cima do pano da cala. E ento, me contou ela, que no tinha
razo nenhuma para mentir e parecia at estar precisando daquele
desabafo, ela foi seguindo um curso natural, sem nem pensar no
que estava fazendo. Abriu a braguilha dele e deixou que o pau
pulasse fora. Era a primeira vez que o via assim, cara a cara,
e ficou quase hipnotizada, se sentindo como nunca se sentira
antes, uma falta de flego, uma nsia, uma vontade de agarrar
tudo de uma vez, as costas fibrilando de alto a baixo. Da para
pr o pau dele na boca foi um instante e a acabou o namoro. Ele
de repente empurrou a cabea para trs e deu um murro nela. No
um tapa, disse ela, mas um murro que lhe deixou o queixo roxo.
Que era que ela estava pensando? Em que puteiro aprendera aquilo?
Achava que mulher dele era para fazer aquela coisa nojenta,
prpria das mais baixas prostitutas? Se ele quisesse aquilo, ia
procurar uma vagabunda na rua, no sua prpria mulher. E que
desenvoltura era aquela, onde ela havia aprendido aquilo, com
quem j fizera aquilo? Nunca mais a beijaria na boca, no queria
chupar homem nenhum por tabela. Casaria com ela, sim, porque j 
estavam comprometidos, mas nunca mais a beijaria na boca. Ela,
que tinha carter, decidiu que acabaria tudo naquela mesma hora.
Na ocasio, no  conseguiu dar a descompostura nele que
pretendia, mas nunca mais quis saber dele, mesmo quando ele tomou
corno de uma outra namorada e veio atrs dela no proverbial
rastejar, mordido de arrependimento.
   Ento voc v. No s os homens tinham medo de deflorar as
moas, mesmo quando elas imploravam, como ainda existia esse tipo
de selvageria. Era crucial ser uma navegadora hbil, nesse mar
de babaquice, cheio de armadilhas inesperadas. Mas eu sempre tive
um faro superior, uma capacidade de percepo mais aguada que
o comum, talvez. Talento, por que no? Por exemplo, descobri o
potencial de Z Lus num estalo, foi repentino mesmo. Eu estava
no saguo da faculdade, quando me veio um claro, claro  a
nica palavra apropriada. Mas... Mas estava na cara! Z Lus, Z
Lus ali dando sopa, e ningum  altura de aproveitar. E ento
ele subiu a escada sem me olhar, mas eu sabia que ele estava me
vendo e ento eu falei comigo mesma que Deus  grande e tudo
estava maravilhosamente s ordens, a vida  simples e a gente no 
repara. Cego  mesmo o que no quer ver e agora eu vou contar La
grande sduction.
   A grande seduo. Ele no era bonito, mas tambm no era feio.
Alis, as categorias "feio" e "bonito" no se aplicavam bem a
ele, como acontece com muitos homens. Com mulher tambm, mas as
mulheres tm mais truques superficiais, j consagrados pelo uso
e pelo tempo, e os homens, no. Ele era bonito, muito bonito,
at, sob certa perspectiva. E podia ser chamado de feio atraente
por outras pessoas, ou mesmo feio, ponto final. Bem, sem querer
ser Spinoza e ficar perguntando onde  que est a beleza, vou
mais ou menos pelo mesmo caminho. Para mim ele era bonito porque
preenchia as  condies para ser meu deflorador,  uma coisa
complexa, muito pessoal,  uma conjuminao de tudo o que voc
acha que compe uma pessoa e compe voc. Ele preenchia as
condies objetivas e emocionais, pronto, falava  minha neurose.
culos de tartaruga, que ainda no  tinham entrado na moda como
depois, magrinho no ponto certo, bundinha fornidinha, voz bem
modulada, sabia tudo de Penal e outros direitos, era
educadssimo, era de esquerda -- um must, nessa poca -- ,
sorriso lindo, uma graa, pensando bem. Um jeito entre acanhado
e sardnico, facilidade de falar bem sem afetao, um rosto
expressivo e franco e, bvio, bigode. No desses bigodinhos
ridculos, mas bigode cheio mesmo, bigode de homem macho. No 
era um gal como os americanos tecnicolor, mas um belo gal,
inclusive em termos de hoje. J deve ter morrido e, se no fosse
eu, certamente morreria completamente desperdiado. A mulher dele
ensinava Fsica em outra faculdade e era um horror, dessas
mulheres sem queixo que comparecem a toda reunio reivindicatria
e fazem colocaes -- sempre houve gente fazendo colocaes --
e, ainda por cima, tinha mania de cantar, cantava em todas as
festas, tocava um violo horrvel com um repertrio de quatro
acordes e imitava Stellinha Egg e Inezita Barroso e mais umas
tantas outras cantoras folclricas do interior de So  Paulo. E
ele adorava ela, carregava o violo dela, fazia psiu na hora em
que ela comeava a uivar e dava beijos sapecados nela, depois que
ela cantava trenzinho chu-chu, ou qualquer merda dessas, que
todo mundo ouvia se achando altamente povo. Ela ajudava a que eu
no sentisse remorso nenhum, acho at que lhe fiz um favor, Z
Lus deve ter melhorado bastante em casa, depois da srie de
surras de cama que eu lhe apliquei. E mesmo que desse remorso,
a verdade  que nunca fui dada a esse tipo de remorso. O nico 
problema mesmo era armar uma estratgia eficaz e eu enfrentei a
situao com uma categoria digna de Norma Lcia. Ou melhor, por
que me diminuir? Categoria minha, s quem viveu naquele tempo 
que pode sentir os desafios em sua inteireza. E a verdade  que
dessa vez no pedi assessoria a Norma Lcia, resolvi que ia
enfrentar tudo sozinha, vo solo.
   O passo inicial foi ser a primeira a comparecer s aulas e
sentar, com uma cara de ateno e admirao que qualquer um
jurava que eu tinha freqentado o Actors Studio, colega de turma
de Marlon Brando. S quem ia s aulas dele eram os c-d-efes e
os que estavam pendurados por faltas, mas eu no, eu j estava
no corredor na hora em que ele vinha e, quando ele vinha, eu
ruborizava -- sempre soube ruborizar  vontade --, virava as
costas e, sabendo perfeitamente que ele estava vendo, retocava
o batom e o ruge, alisava a saia, ajeitava o cabelo e ia sentar
na primeira fila. Quantas vezes eu sentei ali, toda pudica, antes
de qualquer outro aluno chegar! Ele ficava sem-gracssima, uma
teso, e eu no dava bandeira nenhuma, s perguntava como ele ia
e dizia que estava esperando aquela aula, eu adorava Penal, e as
aulas dele me abriam mundos. Minha postura era tambm muito
recatada, se bem que com umas certas excees repentinas e
fugazes, s para deix-lo de orelha em p e sem saber o que
pensar direito. E naquele tempo se andava de angua e suti e
minissaia era dos anos 20, do tempo das flappers, que a gente via
no cinema. E, mesmo que houvesse minissaia, eu no  usaria, j
estava ligada na prtica do primeiro-foi-voc, nunca perdi tempo
em querer dar murro em ponta de faca.
   Foram meses, algum acredita? Foram meses para ele compreender
que eu estava querendo dar para ele e mais meses para ele aceitar
me desvirginar. Foram meses renascentistas, florentinos, mas eu
no  me importei, at gostei. Continuei 
levando a minha vida como sempre, com noivo e tudo. Me sentia
mais ou menos como Selma, a jibia de Norma Lcia, e ele era o
ratinho em que eu ia me enroscar e engolir. E eu no me limitava
 manobra de sentar na primeira fila. A cada dia eu fechava o
cerco mais um bocadinho, um aperto sutil, um avano quase
imperceptvel, mas sempre um tijolo na minha construo. Dei para
ficar na sala depois da aula, sempre tinha uma pergunta, vrias
perguntas, olhando direto nos olhos dele, que desviava a vista,
mas eu firme. Pedia bibliografia, fazia que no entendia certas
coisas, citava trechos de livros, virei uma verdadeira Beccaria,
s se vendo. Depois pegamos mais proximidade e eu mostrei
cadernos, anotaes e escritos meus, uns poemas. Uma vez --
ningum neste mundo presta, muito menos eu -- ele estava lendo
uns poemas e eu, fingindo alto nervosismo, tomei o caderno dele
na hora em que ele estava comeando um poema e disse que aquele
no, aquele ele no  podia ler. E -- fiz, fiz, fiz, no posso
negar, fiz um negcio que sempre considerei vulgar, mas fiz --
apliquei aquele golpe do veja como eu estou nervosa, puxando a
mo do fregus para o meu regao. E, no setor visual, a esta
altura eu j tinha chegado ao saio com botes na frente. Angua
fina por baixo, mas saio com botes. No  aparecia nada, s
muito de relance e uma vez na vida e outra na morte, mas ele
ficava perturbado, j andava visivelmente perturbado comigo, s
vezes, coitado, dava uns olhares cados e compridos, como se
quisesse pedir misericrdia. E eu firme. Minhas ficadas depois
da aula viraram costume, comigo conversando e usando todos os
truques que j nasci sabendo, pegando no brao dele e tirando a
mo depressa e maliciosamente, elogiando ele, chegando perto para
olhar livros sobre o ombro dele, olhos nos olhos sempre que
podia, uma campanha napolenica, Norma Lcia disse que eu era
letal. 
   Finalmente, chegou o grande dia. Era uma quarta-feira e chovia
-- no  assim que se comeam esses relatos? No sei se era
quarta-feira, mas chovia, sim, no grande dia,  um pormenor
importante. E foi inesperado, porque ele no dava aula nesse dia,
mas Mascarenhas, o catedrtico, tinha medo obsessivo de ficar
tuberculoso outra vez e amaldioava at ventiladores e mandou que
ele aplicasse a prova. Quase todo mundo acabou mais ou menos
cedo, mas eu, que tinha estudado como uma alucinada, escrevi
resmas de papel e demorei ate quase o fim do horrio. Quando
chegou a hora, s restavam na sala ele e Jorginho, que era maluco
e tinha dificuldade em escrever, mas j estava terminando. Eu
esperei um bocadinho, vi que Jorginho ainda ia demorar mais um
tempinho e tomei uma deciso que j estava disposta a tomar fazia
muito. Fingi que o vade-mcum e os cadernos-estavam atrapalhando,
botei a caneta na boca e fui at ele. Ele estava curvado, com as
mos apoiadas na mesa, e ento, aparentando estar toda sem jeito,
deixei uns cadernos cair na mesa, peguei a papelada da prova para
entregar e, bem nessa hora, como quem est distrada mas deixando
transparecer uma determinao inegvel embora intangvel,
encostei na mo dele, que se fechava sobre a borda da mesa. Ele
levou um susto e tirou a mo, mas eu fiz presso e minha saia
chegou a subir um pouco, arrepanhada em frente a meu pbis pelo
movimento dele. Mas eu no  aliviei a presso, s olhei nos olhos
dele outra vez, depois baixei a vista, depois fiquei vermelha,
fiz meno de sair atabalhoadamente, voltei para pegar um caderno
que tinha esquecido de propsito e a perguntei a ele se eu,
agora que a prova estava entregue, podia permanecer ali um
bocadinho e tirar umas dvidas com ele? Sabe, eu tinha tido uns
dois professores que marcaram minha vida, dois ou trs, no
mximo. E ele era um deles, sabia? Ele  tinha despertado algo que
dormia em mim, algo de cuja existncia eu jamais suspeitara e
agora, pelas mos dele, descobrira arrebatada, quase sem flego.
Uma paixo, disse eu. E falei "paixo" de forma to ambgua que
eu mesma senti o ambiente esquentar e ficar como se um vapor
escarlate tivesse repentinamente se evolado do cho. E senti pena
dele, coitado! 
   Sim, senti pena dele, eu era a cobra Selma, ele era o ratinho.
A verdade  que, sob certo sentido, as mulheres no tm razo de
queixa. Em primeiro lugar, essa conversa de que a maior parte da
Histria da humanidade foi vivida sob o domnio masculino 
bastante questionvel. Hoje ningum l, mas o velho Robert Graves
-- grande Robert Graves, que eu desconfio que tambm era um
fantstico mentiroso, um colhudeiro, esta palavra admirvel que
tem na Bahia para designar mentirosos de primeiro time, um
sublime colhudeiro -- tinha umas idias sobre isso, de vez em
quando eu leio, ele era inteligentssimo, de bom-gostssimo,
eruditssimo. Hoje, a erudio acabou, a memria  a dos sistemas
de armazenamento eletrnico. No futuro, a gente pagar a um
sujeito para achar o que a gente quer nos bancos de dados, pois
nem ir l diretamente ou precisar disso a gente vai, a erudio
acabou mesmo. Mas, graas a Deus, no acabou a inteligncia.
Robert Graves, vou ler de novo, The Greek Myths, tenho uma edio
pequenininha, em paperback, j toda sebenta de eu tanto manusear.
Ento o Bob Graves e eu temos srias dvidas sobre essa questo
de a mulher ter sido sempre dominada. O contrrio, na verdade,
 que parece que aconteceu. Mas isso no vem ao caso, no se pode
querer ver a afirmao da mulher como uma vingana, agora vamos
descontar e assim por diante, essa barbrie insuportvel. Ento,
porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da Histria,
agora  a nossa vez de oprimir os homens,  para eles verem o que
 bom. No concebo estupidez maior, substituir uma merda por
outra, preservando a baixaria humana. Em segundo lugar, voc pode
at alegar que isso forou as mulheres a desenvolver aptides
pouco louvveis, como dissumulao, chantagem emocional e seduo
com golpes baixos, mas a verdade  que as mulheres sempre tiveram
um poder desmesurado sobre os homens, e muitos de bom grado
prefeririam o inferno e todos os seus diabes a passar de novo
pelo que lhes fez passar alguma mulher. O prprio machismo se
voltou contra os maches, tornou o homem prisioneiro dele mesmo,
obrigado a no chorar, no broxar, no afrouxar, no pedir
penico. Aquilo que, numa primeira viso, oprimia somente as
mulheres oprimia mais os homens, que at hoje vivem cercados por
um cortejo de mulheres fantasmagricas, reais e imaginrias,
sempre prontas a esquartej-los, se o pegarem fora desses
padres. E no adianta psicanlise, nem ficar arrotando
liberaes. Eles tm medo, eme--d-, cagam-se de medo. Medo,
teu nome  macho, no disse o Bardo, mas digo eu. Quanta mulher
no comeu o homem que quis, apenas porque ele no podia recusar
uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz
que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a no ser que ela seja
o corcunda de Ntre Dame. At mesmo recusar uma mulher obedece
a normas, porque  estabelecido o direito de ela se ofender, se
a recusa for feita fora das normas. Por exemplo, "voc  feia,
e eu no vou lhe comer", no se diz uma coisa dessas a uma
mulher. Para no fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que
ser artista. J a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos
piores termos possveis -- "voc nunca, t?" --, as mulheres
sabem do que estou falando, sou uma feminista
esclarecida-progressista, sou um grande homem fmea. 





Sim, eu fiquei com pena dele. Pena propriamente no, preciso de
uma palavra mais adequada. Fiquei numa postura meio filosfica,
meio melanclica... No  bem melanclica,  a de um sorriso
chapliniano, talvez. Tem uma palavra inglesa que est zanzando
aqui, em torno de minha cabea como uma mariposa em torno de uma
lmpada. Detesto usar palavras estrangeiras porque as portuguesas
me faltaram, me sinto uma dbil mental, isso s se perdoa em
alemo, que tem palavras para designar coisas que s alemo
sente. Bem, no  tenho inseticida aqui, wistful. Fiquei assim
meio wistful, olhando para ele, como se eu estivesse  distncia,
destacada da  cena. Eu tinha todas as armas, ele s tinha
obrigaes, s podia reagir como estava no cdigo, e eu joguei
tudo em cima dele. Bombardeio de saturao, artilharia e
infantaria blindada. Eu j disse isso, mas posso repetir, para
enfatizar, mesmo porque  verdade. Eu era linda de arrepiar, at
hoje sou bonita, mas claro que no tenho o vio da juventude e
sei que no tenho o mesmo olhar; depois dos quarenta, ningum tem
o mesmo olhar. Mas nesse dia eu tinha tudo, Deus me fez assim,
lembro que fingia espontaneidade e casualidade, mas passava horas
diante do espelho, s vezes nua, me admirando e ensaiando tudo,
do riso ao andar. Tanto ensaiei que muita coisa, talvez tudo,
passou a fazer parte de mim, no sei mais o que  natural ou o
que me condicionei a fazer. Acho que me lembro do riso, sim, o
riso  certo. Eu ria hi-hi-hi, me achava uma garrincha. E treinei
muito para rir ha-ha-ha, tanto que hoje s rio ha-ha-ha e ainda
lano a cabea para trs, nada disso  realmente espontneo em
mim. E ento eu joguei tudo em cima dele, cada detalhe do
vestido, do decote abotoado descuidadamente, das sobrancelhas,
da boca, dos ombros, do pescoo, dos joelhos, dos ps, dos
quadris, das pernas, eu sabia, eu sabia tudo. Ainda no sabia do
que interessava a ele mais particularmente, mas j tinha uma vaga
idia. Ps. Mos, minhas mos de dedos longos mas suaves e
cheios, as unhas compridas esmaltadas de vermelho. Lbios, olhos,
dentes. Meus dentes at hoje so estas prolas, todos naturais,
nunca perdi nenhum. Meus dentes mordendo lentamente o ar entre
meus lbios carnudos, minha lngua passando quase
imperceptivelmente por entre eles, eu era mortfera. Meu cheiro,
minhas curvas, minhas harmonias, meus trejeitos, eu sempre
enlouqueci os homens que quis enlouquecer, decifro todos, sei dos
que gostam de entrevises indefinidas, dos que sucumbem a um
porte erguido, de todos  os arqutipos que podem surgir neles,
eu sei, tenho talento e estudei, aprimorei esse talento.  por
isso tudo que eu disse que tinha pena dele, mas na verdade no
tinha e no tive e no tenho, fico wistful.
   Coitado. Quando ns ficamos a ss na sala, ele virou uma
pilha, chegou a tremer, mas acho que j estava ligado na
transao, claro que estava, embora nada de mais concreto tivesse
acontecido nesse dia. Ficamos conversando quase meia hora e,
quando nos despedimos, apertei a mo dele com fora e
prolongadamente e ruborizei de propsito novamente e disse "at
logo, professor", como quem no queria ir embora, e nos olhamos
enquanto ele seguia caminho. A partir da, pode se dizer que j
estvamos namorando. Era uma coisinha atrs da outra, todo dia
um progressinho, mas eu fiquei impaciente e resolvi dar uma
soluo to rpida quanto possvel quele chove-no-molha e
afetei nova crise de nervosismo, seguida de renovada apelao
vulgar, dane-se. Elogiei a mulher dele, dizendo que s podia ser
uma mulher excepcional para atrair um homem como ele. A
acrescentei que no podia falar aquelas coisas, ficava muito
nervosa e botei a mo dele no meu corao outra vez, quer dizer,
no meu peito,  claro, e desta vez dois dos dedos dele passaram
da blusa e roaram na borda de meu suti -- veja como meu corao
est palpitando, disse eu, eu vou morrer. E a -- tenha a santa
impacincia, no dava mais para aguentar aquela lentido -- dei
um beijo nele, um beijinho s, mas ele no se segurou e, para
grande surpresa minha, me devolveu o beijo. Felizmente era perto
do meio-dia como da vez anterior e ningum estava por perto para
espionar e, depois desse dia, passei a tomar todo tipo de ousadia
possvel sempre que tinha ocasio, passei o dedo pelos contornos
do rosto dele, encostei o joelho no dele, botei logo para quebrar
 tanto quanto se podia naquela poca, ainda mais eu querendo ao
mesmo tempo manter a imagem de inocente enlevada. E o que eu
falei mal de meu noivo foi um festival, coitado, ele apesar de
tudo no merecia, mas eu precisava falar que j estava farta de
rapazinhos, que no suportava mais imaturidade e falta de
experincia e tudo mais que me ocorreu para compar-lo mal com
o outro, sinto uma certa vergonhazinha at hoje, mas vale tudo
na guerra e no amor.
   O desvirginamento. Esse foi realmente um grande dia, a
culminao de muita dedicao e trabalho rduo. Primeiro, tinha
o lugar do encontro. Ele dava aulas de noite na Associao dos
Funcionrios Pblicos, de maneira que a gente conseguia se
encontrar pelos escuros. Quase sempre ele pegava o carro do pai
emprestado e me punha dentro dele, depois de grandes cautelas
para no sermos pilhados. Entrar em carro era muitssimo
malvisto, e os cafajestes, todos mentirosos e malfodidos e
malfelizes, diziam coisas como "entrou no meu carro, eu meto logo
a mo nas coxas" ou ento "eu saio sacudindo as chaves do carro
e pingo gasolina no leno e o mulherio chove em cima de mim" --
pabulagem pattica, no faziam nada disso, cansei de entrar em
carro e, se estava a fim do motorista, ter que me virar para ele
fazer alguma coisa. Ento o carro no era simples, com todos
aqueles subterfgios e sobressaltos. E, alm disso, estava
absolutamente fora de questo perder a virgindade num carro, no
tinha nada a ver com meu script. Virgindade s se perde uma vez
e, j que eu criara a oportunidade para me livrar dela do jeito
que idealizara, no  ia desperdiar satisfao to plena. Meu
script era taxativo: requeria cama, com todas as letras. E
transar em carro, francamente, s em certos casos, nas raras
ocasies em que tem o seu lugar, embora exista muita gente que
tem uma certa perverso automobilstica, adora  trepar em carros.
E, mesmo que no  houvesse esses problemas, ele no  queria tirar
minha virgindade, foi uma luta. At hoje dou risada, quando penso
que estava com vontade de chupar ele havia no sei quanto tempo
e, quando ele finalmente me chupou pela primeira vez -- e muito
mal, por sinal, cheio de
dentes e usando a lngua como um arado hipercintico --, eu
disse "agora que voc fez comigo, eu vou fazer com voc, machuca?
Voc no vai derramar na minha boca essa coisa que espirra, vai?"
Canalha, canalha. Mas no era o que queriam? Danar conforme a
msica muitas vezes no   uma m idia. E tive de vencer a
impacincia, porque era a primeira vez que eu chupava um homem,
claro, aquilo s ele, s ele, e ento tinha de fingir que no
sabia chupar com o vigor e a categoria que sempre tive, tinha que
perguntar de novo se machucava, tinha que afetar falta de jeito,
um saco, e eu doida que ele gozasse na minha boca e ele
acreditando naquela frescura preliminar do "essa coisa que
espirra" e tirando o pau fora de minha boca para gozar na minha
mo, at que eu no agentei e grunhi "goze na minha boca!" e
reenfiei o pau dele tanto     quanto pude na boca e s parei
quando senti ele gozando quase em minha garganta; at hoje no
deve ter entendido nada e por mim morre sem entender, certas
burrices so indesculpveis e  bom que haja mistrios
insondveis em nossas biografias.
   O problema do local do crime no foi de resoluo simples. Eu
tinha um amigo, melhor dizendo, uma verdadeira amiga, que s
faltava sair pela rua vestida de mulher, uma bicha
francesa chamada Claude, que tinha uma galeria de arte em
Salvador e que morava sozinha e me emprestava a casa na hora em
que eu queria. Foi uma produo inventar um jeito de dizer a Z
Lus, sem levantar suspeitas, que ns podamos usar a casa. Fui
obrigada a dizer que ajudava o francs nos catlogos e nas 
montagens de exposies -- de fato ajudava mesmo, mas no muito
-- e por isso tinha a chave, o francs viajava o tempo todo, no
sei o qu, imagine a complicao. Arranjar um dia em que Claude
pudesse emprestar a chave e sair de casa e, horror dos horrores,
fazer com que esse dia coincidisse com os dias da tabelinha. A
tabelinha, a famosa tabelinha! A tabelinha saa em certos livros
ou em forma de folhetos sempre de aparncia clandestina, que as
mulheres no tinham coragem de mostrar e muito menos de comprar.
Era uma verdadeira maonaria, mulheres casadas compravam para dar
secretamente s amigas solteiras, tudo se passava entre cochichos
e trocas furtivas de embrulhinhos, referncias em cdigo, uma
subcultura completa, hoje perdida como as revistinhas de Carlos
Zfiro. Alguns desses livrinhos eram aterrorizanres, com detalhes
intimidadores sobre umidade vaginal, temperatura e tantas outras
coisas que muita mulher deve ter preferido a castidade a tanta
aporrinhao por uma coisa que j no falava  alma
tanto assim. Agora existem programas de computadores para
os catlicos, naturebas, doentes e outros, que no usam ou
esto proibidos de usar qualquer outro meio de evitar filhos.
S vi um, de relance, mas imagino que h algum em que a
mulher digita os dados dela e ele responde: "You may fuck
safely tomorrow, Thursday rLe 16.th, from 08:32 am to 10:46 pm.
Remember, if you don.t know your partner well, it.s always on the
wise side to make sure he wears a condom." Ou "Hi Peggy, here are
your Fucking Hours for this week! Happy cavorting, tee-hee!". No
sei se gosto disso, mas, em todo caso, argumente-se que  um
progresso. Hoje uma menina que se d mal com plulas ou est
desprevenida pode clicar em trs lugares e receber o sinal de
FTF, Free To Fornicate,  outra coisa. Ajuda tambm a ter certeza
da paternidade, quando se est dando para mais de um
simultaneamente. Eu tenho uma amiga que no sabe os pais de dois
de seus filhos, de to panoramicamente que ela dava. Hoje, nem
quer mais saber, mas isso foi um grilo durante certo tempo.
Enfim, tudo vai ficando mais fcil, embora no necessariamente
melhor. A tabelinha devia ser estudada por algum bom historiador,
era uma irmandade secreta mais bem mantida do que o PC. Mas l
em casa, no, l em casa o regime era diferente e pedi uma a
minha me, que a providenciou logo e s fez comentar que j era
tempo de eu ter minha tabelinha; se ela soubesse que eu no
tinha, j haveria conseguido uma, minha me era extraordinria.
Hoje me arrependo de no ter sido mais chegada a ela, mas foi
tudo trauma de infncia, eu acho. Tem gente que diz que tudo 
trauma de infncia e deve ser verdade. Eu tenho praticamente
certeza de que minha me corneava meu pai com o irmo dele e
talvez com outros, certamente com outros. Agora, voc veja o que
 que eu tenho com isso, por que  que eu tanto tempo pus isso
em julgamento, logo eu? , logo eu, sou constrangida a
reconhecer, no sem uma certa vergonha, um ressentimento comigo
mesma. Minhas emoes quanto a isso sempre foram muito confusas,
eu mesma no compreendo direito. Eu sei que achava meu pai a
maior teso e tinha cimes dele e raiva dela e talvez tenha sido
por isso que eu tenha feito aquilo com meu tio Afonso e de certa
forma tenha me vingado de tio Afonso, ou dela com meu tio, uma
confuso, depois eu vejo se destrincho tudo isso, depois eu falo
em tio Afonso, primeiro eu quero acabar essa histria da
tabelinha e do dia D, em que finalmente Z Lus, nervosssimo,
bateu na porta da casa onde eu j estava esperando, subindo pelas
paredes de tanta ansiedade e j tendo me masturbado duas vezes,
vrios orgasmos intensssimos. 
   A tabelinha falhava o tempo todo, arquivvamos casos e mais
casos no folclore de nossa turma, mas era o menos ruim,
descontando,  claro, a camisinha. Eu jamais admitiria ser
desvirginada com camisinha, jamais! Imagine onde ficaria o trecho
de meu script que dizia "enquanto ela d um gemido abafado, entre
a dor e o prazer da fmea, ele a penetra com um s impulso
vigoroso, abre-lhe mais as pernas, inicia um movimento de
vai-e-vem profundo e, finalmente, entre gemidos de gozo,
derrama-lhe nas entranhas o morno lquido vital, sem o qual ele
no  nada, ela no  nada". No, nada de camisinha, tinha que
ser a tabela. Os outros mtodos no existiam, mulher sofreu muito
com isso atravs dos tempos, era muito cerceador da liberdade.
Algum pode acreditar que aconselhavam at sal l dentro,
pimenta-do-reino, azeite de oliva, uma verdadeira salada? Havia
tambm umas tais injees para atraso de regras, mas eu acho que
na realidade eram abortivas e, como minhas regras nunca
atrasaram, nunca precisei. Norma Lcia pesquisava essas coisas
nas bibliotecas e museus de tudo o que era canto aonde ia e
descobriu receitas hediondas, como, por exemplo, uma do Egito
antigo que prescrevia coco de crocodilo, e outra, no sei de
onde, cuja base era coco de elefante. Acho que j falei que as
putas grega tomavam na bunda, Norma Lcia viu um jarro no Museu
Britnico, que eu tambm vi depois. O mundo tinha feito muito
pouco progresso antes da plula e desses outros troos, como o
DIU. Como se matou e morreu por causa disso, meu Deus do cu. E
eu, tambm j disse, no sabia que era estril, ento a tabelinha
era sagrada.
   Num prodgio de coordenao, uma autntica operao de guerra,
parecendo filme ingls de espionagem, finalmente chegou o dia.
Quatro horas da tarde, eu daquele jeito que j contei, um
maremoto de teso latejante, ele atrasado, uma
 aflio. Tive que me conter para no cair em cima dele assim que
passei a chave e o ferrolho na porta, mas consegui me segurar,
fiquei em p junto dele, e ele, depois de uma eternidade, ps a
mo no meu ombro e disse "como vai voc?".
   -- Vou bem, vou bem. Vou nervosa.
   -- Nervosa?
   -- O que  que voc acha? Minhas pernas esto tremendo.
Estavam mesmo e ele ainda demorou para fazer alguma coisa alm
de botar a mo no meu ombro, at que finalmente desencantou e,
agarrados mesmo, fomos para o quarto que dava porta para o
corredor e onde Claude tinha sua cama de casal para receber
rapazes, um quarto penumbroso dentro de uma floresta de quadros,
esculturas e bibels, com parte do teto e uma parede cobertas por
espelhos. Sentamos na cama olhando fixo um no outro, eu fazendo
minha melhor cara de cora no cio alcanada pelo macho, sem nem
precisar muito, porque estava mesmo fora de mim de teso. Ele me
desabotoou a blusa, eu o ajudei a tir-la, com um sorriso leve,
sem mostrar os dentes e baixando os olhos. Ele me beijou bem, j
tinha aprendido comigo. E ps a mo no fecho de meu suti,
novidade tecnolgica na poca, um americano que Norma Lcia me
trouxe de presente, do tipo que soltava com uma pressozinha dos
dedos. Meus dois peitos pularam livres, trfegos e lindos como
luas cheias, as arolas rosadas quase apontando para o alto, os
bicos tensamente enrijecidos, as curvas delicadas se desdobrando
em mil outras sem cessar, e ele enfiou o rosto no meio deles. No
sei como, logo estvamos nus e deitados juntos e resolvi que
ficaria o mais quieta possvel na cama e s me mexeria em caso
de emergncia, para evitar uma barbeiragem mais grave, enquanto
ele descia a boca dos meus peitos para o umbigo e finalmente l
embaixo, que foi quando eu no  me controlei e  segurei a cabea
dele entre minhas pernas e gozei to profundamente que achei que
ia morrer. Quando parei de gozar, pensei que ele ia querer que
eu o chupasse tambm um pouco, e eu estava com vontade, mas, mal
resvalei os lbios no pau dele, ele recuou os quadris, ficou de
joelhos diante de mim e me disse, encantadorissimamente,
machissimamente no melhor sentido:
   -- Abra as pernas para mim.
   Eu abri, ele curvou meus joelhos para cima, afastou minhas
coxas ainda mais -- ai, que momento lindo! --, encostou a glande
bem no lugar certo, agarrou meus ombros com os braos em gancho
pelas minhas costas, abriu a boca para me beijar com a lngua
enroscada na minha e, num movimento nico e poderoso, se enfiou
em mim. Senti uma dor fina e quase um estalo, cheguei a querer
deslizar de costas pelo colcho acima, mas ele somente enfiou-se
em mim at o cabo e ficou l dentro parado, me segurando forte,
para s ento terminar o beijo, erguer o tronco e comear a me
foder, olhando para a minha cara. E ento, com a expresso de
homem mais bonita que j vi na minha vida e exalando um cheiro
para sempre irreproduzvel, gozou muito fundo dentro de mim e eu
senti, senti mesmo, aquele jato me inundar gloriosamente aos
borbotes, aquela pica grossa e macia pulsando ereta dentro de
mim, ai! Eu no gozei, mas s tecnicamente, porque de outra forma
gozei muito naquele momento, no posso descrever minha
felicidade, minha profuso de sentimentos, me sentir mulher, me
sentir fodida, me orgulhar de ter sido esporrada em meio a meu
sangue, sem fricotes, como uma verdadeira fmea deve ser
inaugurada por um verdadeiro macho. J li muitos livros erticos
e pornogrficos, a maior parte detestvel, j vi tudo, mas nada
pode espelhar aquele instante,  nada, nada, nada, nada, at hoje
me masturbo pensando naquela hora, minha fantasia perfeitamente
realizada.
   Ficamos amantes uns tempos, at porque acabei meu noivado. Z
Lus se revelou uma cama de primeira categoria e, mesmo depois
que nos afastamos, ainda dvamos umas incertas, uma vez na
prpria faculdade, l no terrao. Depois dele eu comecei a achar
meu noivo um chato com gosto de jujuba velha. Alm disso, como
eu podia dizer a ele que no era mais virgem e no  tinha sido
ele o autor da faanha? Sabia que certamente viria a encontrar
esse mesmo problema no futuro, mas no me interessava, preferia
no pensar nisso. Eu no conseguia suportar estar agora
habilitada a todo tipo de sexo e ter de fingir que no estava.
Comeou a me dar um certo nojinho dele.  horrvel quando isso
acontece, to horrvel que muita gente se recusa a reconhecer que
passou por isso, mas a verdade  que, antes de a gente se livrar
de algum, s vezes d um nojinho. Horrvel, at porque a pessoa
pode no ter culpa, mas de repente fica nojenta, cheiros
inaceitveis, manchas de pele insuportveis, roupas sujas
repelentes, hlito ascoso, cabelo fedido, tudo irremediavelmente
nojento. Como eu podia conviver com aquela contrafao toda,
ainda mais numa idade em que todos ns somos radicais e
intolerantes? No podia. Mandei-o  merda, dei um chute na bunda
dele, no fim de uma noite em que, ele no sabia, mas eu estava
dando a saideira dele. Aparentemente foi uma homenagem de
despedida, uma considerao final, mas qualquer pessoa de
sensibilidade nota que foi de uma escrotido absoluta. Eu no
tinha propriamente motivo para ser escrota com ele, mas eu
queria,  o instinto pelvelso, como explicava uma negra l da
ilha, que ficava apreciando siris morrerem em fogo lento,
xingando-os baixinho. O instinto pelvelso se apoderou de mim e
ento eu fiz  isso, no h o que explicar. Samos de carro e
fomos para um morro do Rio Vermelho a meu pedido. Quando cheguei
l, abri a capota, fiquei de p e tirei a roupa. Em seguida,
mandei que ele tirasse tambm a roupa, enquanto eu me requebrava,
em p no banco de trs. E a, com uma lua descomunal iluminando
a barra da baa de Todos os Santos, eu encarnei todas as deusas
do amor, todas as diabas desabridas que povoam o universo, a
Luxria com suas traioeiras sombras coleantes e seus estandartes
imorais, seu chamado  devassido,  dissipao e  entrega a
todos os gozos de todos os matizes at chegar  morte lasciva,
eu era a Luxria integral, baixada ali para reinar como um
esprito imisericordioso e invencvel, naquele morro assombrado
e suas redondezas petrificadas. Eu fiz tudo com ele, tudo, a
ponto de achar que ele desfaleceria. E nem perguntou nada, quando
eu sentei em cima do pau dele e ele viu que eu j estava longe
de ser virgem. No perguntou, nem eu disse nada. Depois de tudo
o que fizemos, sa do carro, vesti a roupa, ajeitei o cabelo e
a maquilagem, me compus com calma, voltei para o carro e, ao
sentar, pedi com um sorriso recatado, quase pudico, que ele me
levasse em casa. Fomos em silncio e olhando para a frente, eu
curtindo o vento no rosto e achando a paisagem muito mais bonita
que de hbito. Quando chegamos, ele quis me beijar, mas eu fiz
que no com a cabea e o empurrei levemente com o antebrao. E,
com a cara mais impassvel do mundo, tirei a aliana, botei na
mo dele, disse que me esquecesse, acenei bye-bye e entrei, ele
l fora com a aliana na palma da mo estendida, o queixo
certamente tocando a cintura.




Passado o nojo, at cheguei a pensar que, num futuro remoto,
ainda poderia dar para ele, mas ele ficou um desses coroas
untuosos de dentadura reluzente, pele bronzeada e eaux pour
l.homme ridculas, desses que voc tem dificuldade em acreditar
que algum dia j foi nenm, ou mesmo rapaz jovem. E eu disse isso
a ele, no dia em que ele veio me perguntar, na festa de
aniversrio de Julinho, aqui no Rio mesmo, a respeito daquela
noite no Rio Vermelho, ele  obsedado por isso. Acho justo. Mas
como vou explicar, se nem mesmo eu sei explicar? Claro, sei quem
me desvirginou, mas nunca iria contar a ele, como ele pedia. Eu
no podia  resolver o problema dele, que hoje, para piorar, est
grotescamente casado com uma mulher uns quarenta anos mais nova,
bom candidato a chifres, se j no os ostenta. Por que digo isso,
o que  que tem isso? Certo, certo, tem razo. No sei. Acho que
tenho um trao sdico, no sadismo fsico, a no ser muito light,
como quando fico querendo sufocar algum sentando na cara dele
ou puxando a cara para dentro de minhas pernas, coisa assim bem
light. J dei uns tapas, mas a pedido, em homens e mulheres,
nunca curti muito. Nunca permiti que me batessem na cara, mas
quis experimentar palmadas, chineladas e cinturo leve, no
gostei, no repeti. Sou ainda menos masoquista do que sdica.
Curto o sadismo superior, digamos assim, mas sem identificar-me
com ele.  como tourada. Eu sei que h toda uma beleza entranhada
nas touradas, toda uma cultura, toda uma mitologia, todo um
conjunto de valores, no sou hostil aos aficionados, mas no
gosto de tourada. Com sadismo e masoquismo, a mesma coisa. A
Histria de O me deixou excitadssima, mas eu no queria ser O.
Nunca; mas curto, tenho sensibilidade para saber qual  a dela
e saber como a dela pode ser um barato, digamos assim. , tive
algumas poucas experincias nessa rea fsica, depois eu falo
nelas, se for o caso. Considero meu sadismo psicolgico muito
mais interessante, inclusive porque  seletivo,  um prato feito
para analistas.
Exemplo desse meu noivo, muitos exemplos, exemplo de tio Afonso,
o pior de todos. Tenho certeza de que contribu substancialmente
para o enfarte dele. Ele no valia nada, de qualquer jeito, comia
a mulher do irmo, minha me. Eu de Hamlet nessa histria, veja
que maluquice, eu toda electra, toda hamletiana, em torno de um
sentimento cretino como esse. A meu favor, diga-se que sim, eu
fiz, ou quis fazer, coisas iguais ou equivalentes, mas nunca
professei os valores que ele vivia  arrotando com cara de santa
puta arrependida, nunca fui a eptome da hipocrisia. No,
desculpa esfarrapada, no convence. Estou aberta  crtica, eu
mesma j pensei muito nisso, de certa forma vivo pensando. No
acho nada demais o sujeito comer a mulher do irmo, mas no
concordo em que o irmo de meu pai tivesse comido a mulher do
irmo, meu pai. Neuroses. Por mais que me desgoste, sou obrigada
a admitir. Traumas de infncia. Bem, eu no estava pensando
nisso, quando tio Afonso me sentou no colo e ficou de pau duro,
eu ainda devia ter uns doze ou treze anos e o filho da puta ficou
de pau duro comigo no colo, mas eu deixei. No sei o que deu em
mim, mas deixei e me mexi bastante em cima do pau dele e, desse
dia em diante, toda vez que ele aparecia, eu sentava no colo
dele, j tnhamos at umas combinaes tcitas. At que, mais ou
menos um ano depois, no stio dele, todo mundo foi passear a
cavalo, e eu menti que no ia porque estava menstruada, e ele
mentiu que tinha de supervisionar a limpeza dos coqueiros, j
tnhamos acertado tudo antes. Dia quente, de liblulas zumbindo
em vos baixos, calangos de cabea erguida nos troncos das
mangueiras, folhas imveis, o sol retinindo no laguinho, uma
fogo-pagou de arrulos enervantes, um silncio desagradvel, que
parecia imposto por aquele ar cristalizado. Eu demorei de
propsito, sabia que ele estava ansioso, mas, quando cheguei, no
fiz pirraa. Assim que fechei a porta, na sala pequena do segundo
andar, marchei para ele sem dizer uma palavra e peguei no pau
dele, patolei mesmo. Ele tomou um susto, mas se recuperou logo
e meteu a mo por baixo de meu suti. Parecia desses filmes em
ritmo acelerado, aquelas comdias do cinema mudo, um tal de puxa
roupa, tira roupa, aperta pau, d chupo, chupa peito, lambe
xoxota, uma coisa impressionante. S depois desse frenesi  que
me deitei de barriga para  cima no sof, com o corpo meio para
fora, as pernas abertas estendidas, o pbis empinado e atrevido
-- sempre tive um monte de Vnus lindo e pentelhos fartos na
medida certa --, esperando que ele viesse de cabea, como de fato
veio, e chupava muito bem, habilidade surpreendentemente rara em
homens, mesmo homens de valor. Em seguida foi a minha vez, mas
eu disse que sabia que saa uma coisa l de dentro, tinha lido
num livro, e no queria que ele esguichasse aquela coisa na minha
boca, como de fato no queria. Ele disse "claro, claro, tudo como
voc quiser", como se essa concesso de alguma maneira atenuasse
a monstruosidade que ele achava que estava fazendo, e continuou
com a sacanagem, muito boa realmente, at que gozou nas minhas
coxas e eu tambm gozei na mesma hora.
   Comeou ento a escravido dele. No dia mesmo do banheiro, j
mencionei esse dia, ele no queria me botar nas coxas em p,
atrs da porta de um banheirinho que nem bid  tinha, porque
estava com medo de que a mulher dele, tia Regina, nos pegasse.
Mas eu, que gostava do perigo de tia Regina nos flagrar, disse
que, nesse caso, nunca mais faria nada com ele, ou ele topava ou
adeus. Ele ento topou e eu ainda lhe dei uma mordida no pescoo
para deixar marca e ele ter de inventar uma histria qualquer,
ele que se lixasse, eu achava que no tinha nada a perder. Tia
Regina no me suportava, morreu me odiando, meio caqutica, mas
ainda lcida o suficiente para odiar. Claro que ela nunca teve
condies de provar qualquer coisa, e eu fazia guerra de nervos,
no tinha d. Cheguei a pensar em comer ela tambm, mas no dava,
s os perfumes que ela usava j broxavam qualquer um e, alm de
tudo, no acredito que ela casse, era do tipo
meu-negcio--homem, uma dessas antas falocntricas, falfilas
e fallatras que no morrem porque lhes falta vergonha. Para no
falar que,  sem eu ter nada com ela, meu domnio sobre o sacana
era integral, era s dizer que ia contar tudo a tia Regininha --
e ele sabia que eu era inconseqente, maluca e corajosa o
bastante para contar 
-- que ele ficava s portas da morte, quase apopltico. Apliquei
at a tortura da gravidez nele, anunciei o atraso de umas dez
regras, s para sacanear ele. Houve uma fase em que eu telefonava
para a casa dele e dizia "s quero que voc saiba porque estou
me sentindo muito sozinha, eu s queria que voc soubesse que meu
incmodo at hoje no chegou e eu posso estar com um filhinho seu
aqui dentro e eu fico pensando: ser que vai ser bom, como ser
a cara dele?". Ele morria, morria; acabou morrendo, alis. E
claro que ele no metia em mim, mas me esporrava toda e eu sempre
dava um jeito de que ele se lembrasse de que alguma coisa sempre
podia escorrer para dentro de mim, eu tambm j tinha lido isso
num livro. Ele andava com milhares de lenos nos bolsos, que
tinha de jogar fora depois, para ningum em casa suspeitar.
Lembrando assim, a vida dele se tornou um inferno, e eu Satans.
Ele virou uma espcie de farrapo humano gordote, em que eu
mandava e desmandava. Sempre quis comer minha bunda, e eu nunca
dei, mesmo depois que aprendi. Contei a ele, em pormenores, que
tinha aprendido e agora gostava muito, falei longamente sobre os
rapazes que me comiam, menti um pouco, floreei bastante.
   -- Ento agora me d, me d. Agora voc no tem razo para no
me dar essa bundinha linda.
   -- Eu no.
   -- Mas por que no? No, voc vai me dar, voc vai me dar,
voc est brincando.  mais dinheiro que voc quer? Claro, tenho
lhe dado pouco dinheiro, estupidez minha, de quanto voc est
precisando? Eu lhe dou o dinheiro que voc quiser e  voc vai me
dar essa bundinha que eu estou alisando to gostoso, no vai?
   -- Eu no.
   -- Me d, est aqui, agora no tem problema, voc pode dar,
eu fao tudo o que voc quiser.
   -- No dou. Pode pegar, pode alisar, pode apertar, pode
beijar, pode lamber, pode dar mordidinha, pode ver tudo o que
quiser, mas eu no dou.
   Nunca dei. Deixei alisar, deixei pegar, deixei abrir, fiquei
de quatro, mugindo e chamando ele de meu touro, deixei beijar,
deixei meter a lngua um bocadinho, exibi muito a bunda, mas
nunca dei. Cansei de ficar nua, com ele correndo atrs de mim no
quarto e eu fazendo poses de slfide esvoaante e falando mais
ou menos parnasianamente, arcadicamente, romanticamente. Assim
prometi a ele que um certo dia, num incerto porvir, em incerto
arrebol, nesse incerto dia com certeza eu daria ao certo, ele
podia ter como favas contadas, tripudiei o que foi possvel, mas
nunca dei, e eu sabia que nunca ia dar, ele no sabia. Quer
dizer, sabia, mas tinha esperanas voluntaristas, era um babaca
do mais alto coturno, no sei por que minha me dava a ele, s
se meu pai era ruim de cama, coisa sobre a qual nunca vou poder
testemunhar, esta vida  ingrata mesmo. Nem tampouco dei a ele
pela frente, acho que foi isso que acabou matando ele, porque,
quando eu finalmente resolvi contar que no era mais virgem, ele
endoidou e me ofereceu absolutamente tudo o que eu quisesse, pago
antecipadamente, mas eu no dei. Uma vez ele estava em p e eu
chupando o pau dele sentada, sem botar as mos no pau, como ele
gostava -- de vez em quando eu fazia as coisas mnimas de que ele
gostava, no s porque tambm no sou nenhuma Torquemada, como
porque gostava de mostrar como podia  fazer dele gato e sapato
-- eu estava chupando ele muito aplicadamente mas pensando em
artistas de cinema e a resolvi isso que vou contar. Sem qu nem
para qu, disse a ele que ia lhe dar minha bundinha; mas antes
ia chupar mais um bocadinho; e ento cantei Eine kleine
Nachtmusik assim: "Vou, vou-vou, eu vou  lhe chupar! Vou,
vou-vou, eu vou  lhe chupar!". Allegro vivace: "Vou-vou, lhe dar
a bunda, vorororor, mas voc vai broxar!". Mais ou menos assim,
agora no est saindo, mas na hora encaixou tudo certinho,
notadamente a inteno, porque, quando ofertei minha bunda e
disse que j tinha feito muito bem a minha parte e agora era com
ele e acrescentei um "venha logo" petulante, ele obviamente
broxou. Viso pattica, ele choramingando "mais uma chance, mais
uma chance" e eu respondendo "menos uma chance, menos uma
chance", no sou realmente to boa quanto gosto de me achar,
embora me tenha na conta de enviada de Deus, srio mesmo. Mas no
fico metida a besta com isso, antes humilde. Pode parecer
mentira, mas eu acredito muito em Deus, foi Ele Quem fez tudo,
louvado seja Deus. Existe maior sdico, no melhor dos sentidos,
do que Deus? No precisa ler Sartre, que j foi a moda das modas,
basta participar de um papo de botequim filosfico. Deus, Deus,
Deus, eu acredito muito em Deus, acredito na Providncia Divina,
acredito mesmo. Preguia de explicar a quem  preso a paradigmas
hebraicos ou conciliares. Simpaticssimos, os meus Budas ditosos,
impossvel deixar de gostar deles.
   Meu querido tio Afonso Pedro, de saudoso sarro, foi quem me
deu a bolsa de estudos para Los Angeles. Ele perguntou se, depois
que eu voltasse, dava para ele de verdade e eu disse "dou esta
bundona linda, ponha a mo debaixo de minha saia e pegue aqui
para sentir, pegue debaixo da calola, passe a mo  na minha
regadinha", e ele pegou e passou a mo fora de si e, quando eu
voltei, ele cobrou, e eu disse que estava com a cabea mudada e
no dava nada, foi a que ele deve ter comeado a estuporar e
teve um enfarte na frente da televiso, vendo um filme policial
americano, ele venerava os americanos, grande babaca. Bom filho
da puta, no tenho a menor gratido pela bolsa, acho at que foi
muito pouco para ele transar com uma menina de minha categoria,
muitos quiseram mas nem tantos conseguiram, s os que eu quis.
Numerosos, numerosos, graas a Deus, mas somente os que eu quis.
Eu sempre tive as coxas poderosas: de frente, redondas e bem
talhadas, terminando em joelhos perfeitos; de lado, com aquela
cavadinha que at hoje eu tenho, uma escultura sutil que
entontece qualquer conhecedor do assunto; de trs,  at covardia
falar. Bom, eu sempre tive um senhor par de pernas e coxas, no
h como inovar na descrio. Um senhor par de pernas e coxas,
pronto, embora eu ainda ache que merecia algo mais elaborado, no
 justo. E "poderosa" est sendo uma palavra muito desgastada,
como aconteceu com "gnio" e, antes, com "formidvel". Uma pena,
porque no acho outra, coxas poderosas,  isso, mas  muito mais,
um poder no s fsico como emocional e psicolgico; ,
poderosas. Formidveis, no sentido antigo, tambm servia, embora
no tanto. Narcisa, no  verdade? Oh well. Bom, eu sempre tive
grandes coxas. E sei us-las como rgo sexual de primeiro
escalo, principalmente em p, j vi muito homem despencar na
minha frente, s vezes era muito bom. Volta e meia me assalta a
vontade de escrever um livro sobre isso, porque sei que  uma
arte que est se perdendo e  uma pena. Tomar nas coxas 
insubstituvel, e eu estou segura de que, no nosso imenso Brasil,
agora mesmo, h centenas de   milhares de mulheres e muitos
rapazes tomando nas coxas,  geralmente em lugares de alto risco.
Isto, naturalmente, faz parte. Espero que o progresso no venha,
mais uma vez, matar o desenvolvimento e a evoluo desejvel,
assassinando essa arte veneranda. No percebemos uma poro de
valores culturais importantes, ficamos pensando sempre em
cantorias nordestinas, Aleijadinho, escolas de samba e
macarronadas paulistas, mas e o bom e velho ante portas, de
tanta, to intricada e colorida histria? Onde fica ele? Onde
ficam as coxas? Ter meu tio morrido to ingloriamente que seus
feitos comigo no faro sentido para as geraes futuras?
   Pues que s, si es as, por supuesto... No tenho gratido a
ele por nada, nem pela bolsa nem por nada, nem mesmo pelos bons
orgasmos juvenis que ele me proporcionava e ajudavam a dar vazo
a minha energia sexual compulsiva, nem mesmo porque tive
experincias mais ou menos raras. No que eu possa botar o dedo
em cima de alguma vantagem que isso porventura signifique, mas
h um qu de singular e interessante em ter na memria o tempo
em que gozei com um homem chamando-o de "titio", ou "meu tio".
Sim, certamente no h vantagem nisto, mas eu j comi um tio,
alguma coisa h de significar. Eu gostava de trepar dizendo
"titio", mas ele no sabia disso. E tambm tive orgasmos muito
melhores, inclusive e notadamente com parentes prximos, como
Rodolfo. Esse tio s tinha a grande vantagem de eu poder
exercitar meu sadismo especializado numa boa, sou uma sdica
competente. Algo me diz, contudo... Algo mente mesmo pra caralho.
Parntese: agora eu quase gaguejei e cheguei a cogitar dizer "pra
caramba", como tenho ouvido por ai. Que horror! Como a maioria
dos eufemismos, que coisa pequeno-burguesa atrasada. Todo mundo
sabe que a pessoa est querendo dizer "pra
caralho" e, em vez disso, em vez de procurar decentemente
 outra figura de linguagem, usa esse barbarismo intolervel.
Todo mundo que diz "pra caramba" para mim  um imbecil.
Normalmente no me ocorreria dizer essa coisa inominvel, mas
deve ter sido porque o que estou falando vai ser, espero eu,
escrito, digitado e impresso. Quer dizer, eu ainda padeo, embora
me gabe de no padecer, da relao ritualstica que o babaca do
ser humano mantm com a palavra escrita. Ter sido por isso que
a escrita era inicialmente privilgio de sacerdotes e depois de
monges? Ou por causa disso existe essa reverncia cretina? No
sei, j falei nisto antes, mas no me canso de falar. Chega ao
ponto de muitos dbeis mentais se orgulharem de "falar como se
escreve", como se a grafia no fosse uma tentativa muito
defeituosa de engessar as palavras em smbolos metidos a
fonticos, como se se pudesse pedir a um chins para falar como
se escreve, como se a escrita tivesse precedido a fala. Ouo
gente pronunciando os emes finais, como se esta merda desta
lngua fosse ingls. Umam, dizem eles, e no apenas nasalando
o som do u, em "um-a-um". Se fosse assim, "um alho" era a mesma
coisa que "um malho", "um olho", "um molho", e a lngua ficaria
invivel. Outro ablptico que eu conheo -- s quem estudou
Medicina Legal  que sabe estas palavras, quem quiser que v ao
dicionrio -- pronuncia a palavra "muito" como se escreve, ou
seja, "mito", sem nasalao do u. Ai! Realmente, somos uma
espcie muito atrasada e s faltamos bater a testa no cho para
coisas a que no daramos a mnima importncia se fossem somente
faladas. Esto escritas, assumem sacralidade, tanto assim que,
como eu tambm j disse, certas palavras nunca adquiriram
passaporte para a escrita e, quando conseguem penetrar pela mo
de algum mrtir, so logo deportadas de volta, condenadas 
clandestinidade ou confinadas em guetos, como fazem com gente. 
Ridculo, pattico, mas inelutvel, as palavras so de fato um
mistrio, um dia eu escrevo um livro louco, s quero escrever um
livro louco, em que as palavras possam detonar, explodir em todos
os tipos de significados, provocar todo tipo de reao. Eu queria
libertar todas as palavras, eu sei que isso parece veadagem de
poetastro juvenil, mas que  que eu posso fazer,  o que eu
sinto, eu queria libertar as palavras. Idiota, voc tambm. Acaba
delrio lingistico, fecha parntese.
   Algo me diz, falava-lhes eu... Ha-ha-ha-ha! Ha-ha-ha-ha! Ai,
meu Deus... Desculpe a crise de riso, mas eu me senti, no sei
por qu, meio Lacan, declamando todas aquelas baboseiras
desconexas e ininteligveis, e os crentes tentando decifr-lo
como quem decifra Nostradamus ou a pitonisa de Delfos, quando 
claro que ele mesmo no sabia que merda estava falando, suspeito
que tomava qualquer coisa para o juzo. Descia as ventas numas
quatro carreirinhas gordas e ia  luta. O que se fala e escreve
de merda engalanada na Frana  inacreditvel, eu mesma nunca
engoli nada dessa empulhao que confunde ininteligibilidade e
chatice com profundidade, nem Lacan, nem Godard, nem
Robbe-Grillet, nada dessas merdas, tudo chute e chato, e quem
gosta  porque foi chantageado a gostar e, no fundo, se sente
burro. Sartre ainda tinha umas coisas, se bem que L.etre et le
nant  a me dele, mas ainda tinha umas coisas, s vezes era
arrebatador. No, no tenho nada que me sentir como Lacan, eu...
Ha-ha-ha, desculpe,  dessas crises de riso que a gente no
consegue deter. Lacan... Imagine a cena, um maluco furibundo, com
o miolo cheio de cocana ou anfetamina, despejando aquela
enxurrada amaznica de non sequiturs esbugalhados em cima de uma
platia que nunca entendeu e at hoje vive tentando comicamente
entender e terminando por falar do mesmo jeito e  acabando
invariavelmente por infelicitar algum. Ele no escreveu porque,
provavelmente, no conseguia sentar para escrever. Tem gente
assim. Eu tambm, quando ficava ligadona, era assim, no parava
quieta, nem na cama. Devia haver um nome para essa doena, ou
pelo menos para alguns de seus sintomas. No a doena dele, que
era uma variante neurolgica maligna de glossolalia, nada de
extraordinrio. Eu me refiro  doena dos religiosos dele, os
iniciados, os sacerdotes e, naturalmente, os que usam o tal
"tempo lgico" -- como se o Mestre dos Mestres jamais houvesse
proferido alguma coisa de lgico -- mais espertamente, s
deixando o sofrente falar dois minutos e mandando-o s favas para
ter tempo de atender a mais novios. Lgico para o bolso;  uma.
   No, eu no tenho nada a ver com Lacan; sim, there is method
in my madness. Algo mente muito, j disse e repeti, mas, como de
hbito, vou esquecer isso e mais uma vez dar-lhe crdito. Algo
me diz que no sou uma sdica, digamos, geral, sou uma sdica
seletiva. Com Rodolfo mesmo, com Rodolfo, como era diferente! O
pior dia de minha vida foi quando eu voltei para casa quase
amanhecendo e l estava o recado de que Rodolfo tinha morrido num
desastre de carro. Ele ainda chegou vivo ao hospital e perguntou
por mim. E eu na casa de Chiquinho, cheirando p com Fernando,
Marcito, Miltinho, Eliana, Rita e Las, aquelas coisas de p, que
na poca eu achava a verdadeira redeno da conscincia e da
convivncia perfeita entre a razo e prtica, e hoje acho uma
merda aviltante. Lembro que Eliana, que tambm tinha uma teso
de jegue nele, havia combinado que a gente ia fazer uma suruba.
Cheguei l trincada e morta de raiva da pobre da Eliana, que at
hoje felizmente  minha amiga. O padre e os mdicos nos olharam
atravessado, ele tinha acabado de morrer. No esqueo aquele
instante pavoroso, a  gente completamente louca, de olhos
arregalados, fazendo bico e suando como chaleiras e eu mal
segurando a vontade de esculhambar o padre, e meu irmo morto.
Dei um beijo na boca dele e fui ao enterro de culos escuros e
cheirei no cemitrio, passei o resto do dia enfurnada no quarto
e o resto do ms odiando o mundo e uns bons anos desatinada e a
vida desamparada. Eu era louca por meu irmo, ensandecida,
fantica, quem falava qualquer coisa dele virava meu inimigo. Ele
era lindo, parecia comigo, s que mais bonito ainda, era grande
como eu, tinha os mesmos lbios, os mesmos olhos verdes, um
bigode indizvel, desses que descem pelas comissuras quase como
o dos mongis do cinema, s que mais cheio e menos comprido, era
a pessoa mais carinhosa que se possa conceber, tinha um canto de
olho enrugadinho como eu nunca vi em ningum, a voz s um
tantinho rouca, mas forte, os ps enrgicos, suaves, doces,
violentos, tinha as mos mais sexy que algum pode ter, tinha uma
bunda esplendorosa, no h palavra para descrever aquela mistura
realmente inefvel de masculinidade e feminilidade, aquele jeito
de deitar de bruos com as pernas dobradas, aquele sorriso entre
maroto e tmido e no fundo resoluto, uns dentes como nunca houve
dentes, esporrava mais longe e fartamente do que jamais algum
homem esporrou, tinha um pau lindssimo, delicado e ao mesmo
tempo afirmativo e mais duro do que a conscincia da Alemanha,
tinha uma inteligncia acachapante, umas virilhas de cheiro
inebriante, os cabelos mais macios do planeta, uns grunhidozinhos
impossveis de imitar, umas caras to lindas na hora de trepar
-- e olhe que j vi as mudanas de cara na hora de trepar mais
espetaculares, como  bela a mudana de cara na hora de trepar,
 o conhecimento absoluto --, tinha orgasmos pelos peitos igual
a mim, orgasmos completos, tinha um ofegar inimitvel  na hora
de gozar, tinha a melhor trilha sonora de que j participei,
tinha um umbigo irrepreensvel, entre plos mais macios que
barriga de ovelha, tinha o melhor nariz que j entrou pelas
minhas pernas acima, um cangote irresistvel, tinha um saco que
dava imediata vontade de beijar e lamber e que me fazia gozar
quando esfregava a cara nele, tinha um jeito de bater punheta
para gozar na minha boca s na ltima hora que at agora me deixa
endoidecida, tinha uma maneira de me penetrar por trs que eu
nunca esqueo, oferecendo lindo seu pau ereto para que eu
chupasse e molhasse e depois metendo tudo dentro de mim, eu de
quatro e ele amassando meus peitos e me xingando e fazendo
questo de puxar o pau para meter de novo devagar at o fundo e
mordendo meu pescoo e me puxando pelos quadris e eu abrindo a
bunda com as mos para ele me meter ainda mais fundo, ele tinha
tudo, tudo, tudo, ele me comeu de todas as formas que ele quis,
e eu tambm comi ele, eu adoro meu irmo, nunca mais a vida foi
a mesma coisa, ele estava sempre, ele era sempre, eu nunca podia
ficar s porque ele existia, ele era minha referncia e meu
parceiro bsico, meu macho e minha fmea, ele me deixava molhada
todas as vezes em que me tocava, ele anunciava que ia gozar em
mim como um csar em triunfo, me elogiava antes, durante e
depois, o pau dele pulsava em minha boca antes de ele gozar,
todas as minhas entradas palpitavam antes de ele meter, eu subia
para o cu quando ele levantava meu traseiro e me transfigurava
numa potranca sendo enrabada pelo puro-sangue seu irmo, o nico
que sonhe ser tudo, macho, puto, fmea, descarado, sdico,
masoquista, mentiroso, verdadeiro, lindo, feio, disposto,
preguioso, lindo, lindo, lindo, lindo, meu irmo Rodolfo.
   Ele teve trs mulheres, Cludia, Verena e Cida, hoje a viva
oficial. Me dou muito bem com ela. Me dou bem com
 todas as trs, alis. Trs mulheres superiores, cultas e finas,
as trs sabiam que eu era tarada por Rodolfo e at tinham uma
certa apreciao esttica por isso, sempre nos demos muito bem
mesmo, e Verena ns chegamos a comer juntos algumas vezes. Ela
topava com muito esprito esportivo, mas acho que preferia ler
e jogar a sexo, era uma coisa que, quando ela fazia, divertia-se
razoavelmente, mas, quando no fazia, parecia no sentir falta.
Caso mais comum do que se pensa,  algum aleijo ainda no
adequadamente estudado. A moderao sempre me intrigou, no
consigo compreend-la direito e tenho um certo medo dessas
pessoas deliberadas e pausadas, que pensam no que lentamente
falam e fazem sempre o que devem fazer, nos limites que querem
observar. S consigo ser desabrida e s me dou efetivamente bem
com os desabridos, seja como pessoas, seja como artistas ou
pensadores. Cida era diferente, mas nunca chegamos a ter nada.
Ela cheirava e eu tambm, e tivemos um frete, como se diz na
Bahia. Nunca pintou nada de concreto, s uns beijos na boca e uns
amassos, mas eu creio que, se Rodolfo no tivesse morrido,
acabava acontecendo alguma coisa. Cida beijava muito bem e sempre
me alisava muito, e a gente sempre se amassava nos peitos, nas
despedidas. Uma vez, a gente cheirando, Rodolfo pediu para mamar
em mim, e ela ficou assistindo, pegando em meu outro peito, me
beijando na boca e se esfregando em ns. Mas o negcio dela era
mais falar, pensando bem. Isso acontece muito com p, Fernando
que o diga, Deus o tenha, morreu de enfarte tambm e me deixou
umas coisinhas.




Histria de minha vida, ai minha histria, to rica, to curta.
Vittorio Gassman tinha razo, numa entrevista que eu vi na tev:
a vida devia ser duas; uma para ensaiar, outra para viver a
srio. Quando se aprende alguma coisa, est na hora de ir. Desde
que meus peitos cresceram, ns comeamos a brincar de mame e
nenm, mesmo ele sendo mais velho do que eu. Eu me sentava, ele
deitava a cabea no meu colo, eu tirava um peito, punha os dois
dedos perto dos mamilos, ele mamava de olhos fechados e mais ou
menos gemendo, e ficvamos assim um tempo. Depois eu mudava de
peito e ele continuava a mamar. Depois a gente evoluiu e  eu
ficava afagando o pau dele, enquanto ele mamava. Depois evolumos
ainda mais. Eu nunca ficava nua, s tirava os peitos, mas ele
ficava nu. Depois foi indo, foi indo, a gente praticamente
comeou a transar, e eu fiquei para sempre cativa da bunda dele.
No havia nada melhor no mundo do que comer a bunda dele. Ele
botava um travesseiro embaixo dele, e eu o cavalgava com um
prazer que nunca senti, nem com homem, nem com mulher, nem com
veado, alis eu no gosto muito de transa com veado, s por
amizade, amigos veados eu tenho muitos, me dou bem com eles. Com
Rodolfo, a bunda era um gozo monumental, no s porque ele era
especial, como porque fazia a mulherzinha sem deixar de ser
macho,  indescritvel, s presenciando, s vivenciando. Eu o
possua todo, este tem que ser o termo, enroscada nele, me
esfregando nele com fora, abrindo-o para me esfregar bem fundo,
e ele se deixava comer lindo, um deus dourado debaixo de mim, e
eu mordia a nuca dele, amassava os peitos dele, apertava o pau
dele, e ele voltava o rosto para me dar a lngua quando eu pedia.
E depois ele me comia. Geralmente era ele me chupando e eu
alisando a bunda dele, mas eu tambm gostei muito quando ele
passou a me comer por trs, eu levantava a bunda na hora em que
ele ia meter e adorava quando ele me pincelava e fazia que ia
entrar mas no entrava, at que aquele pau grosso se enfiava
todo em mim -- ningum me venha com essa histria, muito citada
por a e at sacramentada em pesquisas pseudocientficas, de que
pau pequeno no faz diferena, claro que faz, um pau bem
dimensionado preenche apropriadamente a mulher e  um visual
estimulante e excitante, nada desse negcio de pau pequeno. Isto
 uma das muitas balelas que nos foram pela goela abaixo. As
nicas mulheres que apreciam pau pequeno so as que, de uma forma
ou de outra, tm medo de pau, seja  porque sentem dor, seja
porque so ruins da cabea. A mesma coisa  pau mole. Claro, so
os homens que espalham histrias terrveis sobre o que outros,
nunca eles, ouviram de mulheres com quem broxaram. As mulheres,
de fato, no costumam esculhambar os homens que broxam com elas,
so invariavelmente compreensivas e at solidrias tanto quanto
podem ser, e algumas chegam a se culpar pelo malogro. Mas mulher
plenamente sadia gosta de pau duro e gosta de penetrao. O resto
 conversa de consolao, que at convm a algumas, que com isso
ocultam o que lhes interessa ocultar. Escreva-se: a) nenhuma
mulher gosta de pau mole; b) excetuadas dimenses aberrantes e
as outras variveis sendo equivalentes, o pau maior e mais
vistoso  preferido. Evidente que o principal, principalssimo,
 quem  o proprietrio do pau. Mas a, se  pequeno, a mulher
apenas deixa para l, embora preferisse que fosse maiorzinho; 
mais satisfatrio, por alguma, ou vrias, razes. Esta  que 
a realidade, o resto, repito,  onda e pensamento voluntarista.
No que no haja muitos casos em que o homem de pau pequeno
oferece compensaes inestimveis, mas mil vezes um pau digno
desse nome, Rodolfo, Rodolfo! E nenhuma mulher sadia tem nojo de
esperma, outra coisa que precisa ser bem esclarecida. Eu li no
sei onde que alguns muulmanos consideram ofensa suprema a mulher
cuspir fora o esperma derramado em sua boca por seu homem. Eu
concordo,  uma selvageria, um sinal de baixa extrao, falta de
formao, de classe, de cultura, de sofisticao. Cuspir o
esperma s  admissvel ou quando se quer insultar um homem ou
quando se quer p-lo em seu lugar: voc pode ser bom para eu me
distrair chupando seu pau, mas no  bom o suficiente para eu
engolir sua seiva, me recuso a devor-lo, no dou s suas clulas
essa intimidade com as minhas. Eu sou maluca.  Sim, e ento
Rodolfo e eu evolumos outra vez, como  bom contar isto. Eu dava
de mamar a ele nos peitos e, em seguida, tirava as calas,
separava meu clitris dos grandes lbios, apresentava-o com todo
o carinho e ficava vendo ele mamar, geralmente tocando depois uma
punhetinha nele. Ficamos timos nisso, fizemos isso at ele
morrer, apesar de tambm transarmos de todos os outros jeitos.
Qando ele mamava entre minhas pernas, quase sempre com a cabea
recostada na parte interna de minha coxa, eu me sentia a mais
completa das mulheres, me sentia a Grande Me, me sentia no sei
como, s algum que j fez isso  que sabe, s as mulheres. Os
homens, quando sensveis, sabem tambm um pouco, porque tm uma
teta que  o pau e espirram um leite que  o esperma, mas
seguramente na mulher esse sentimento  muito mais amplo e
visceral,  intransmissvel oferecer o clitris como quem oferece
um bico de peito e ver aquele homem mamando, ainda mais quando
 o irmo. Ele encaixava to bem aquele queixo lindo em meus
baixios mais secretos, eu queria que o corpo dele todo entrasse
em mim, queria me misturar, sexo somente no era bastante, eu
queria me fundir com ele. Rodolfo. Rodolfo. Meu amor.
   Eu no vou fazer conferncia, prometo que no vou fazer
conferncia, sei que  um hbito intolervel, mas no posso
deixar de fazer um adendo em relao ao incesto. Sou como Bernard
Shaw, no basta mostrar, tem que explicar, seno as pessoas no
entendem. Claro que as mulheres de Rodolfo estavam cansadas de
saber que muita coisa mais do que beijinhos havia entre ns, eu
nunca escondi que tinha loucura por ele, embora sem precisar at
que ponto e assim por diante, mas sempre me indignou ter que
esconder o que para mim  a coisa mais natural do mundo. Tenho
absoluta certeza de que o  nmero de irmos que transa com irms,
tios e tias com sobrinhos e sobrinhas, pais com filhas e mes com
filhos, ad infnitum,  muitssimo maior do que a nossa hipocrisia
admite, e no h razo por que deva ser de outra forma. E primos
criados juntos?  universal -- cousinage, dangereux voisinage.
Antes de se poder evitar filhos com segurana, v l, havia uma
razo gentica. Mas no hoje em dia, mesmo antes da plula,
quando se podia fazer um aborto nas melhores clnicas, bastando
ao mdico usar o nome artstico de curetagem. Incesto era normal
no Egito antigo, Juno era irm e mulher de Jpiter, todo mundo
comia todo mundo,  natural, artificial  a noo de incesto como
um mal em si, no tem nada de intrinsecamente mau no incesto,
antes muito pelo contrrio,  uma fora da Natureza,  natural!
No  obrigatrio, mas  natural. Acho burro ou mentiroso quem
se escandaliza com eu ter comido meu irmo e meu tio, para no
falar em primos, cunhados e quejandos. Eu me arrependo de no ter
comido meu pai, hoje me arrependo, tenho certeza de que, armando
um bom esquema, eu conseguiria, ele tambm era normal, e eu
adorava ele e bem que eu podia ter contracorneado minha me, ia
fazer bem a todos os envolvidos, at a tio Afonso, quem sabe? E
nisso eu sinto l a cara feia do preconceito, fico puta com essas
contradies, mas neurose  neurose. Tenho de admitir que sou uma
nevropata, talvez no feliz dizer de Euclides da Cunha. Porque
tambm acho esse negcio de cornido o maior atraso de vida,
ningum  mongamo, nem homem nem mulher, s degenerado mesmo,
masoca, deslibidado, doente da cabea gravemente. Ficar casado
com a mesma pessoa a vida toda, timo; at tenho admirao
sincera por esse tipo de santidade e pode-se mesmo alegar que
passei a minha vida toda casada com Rodolfo e presentemente sou
viva dele. Agora, nunca ter querido dar  uma escapulidinha de
vez em quando, nunca ter fantasiado uma trepada fora  mentira.
Mentira que muito raramente pode ser sincera, mas, mesmo nestes
casos, no deixa de ser mentira. Todo mundo  corno, mesmo que
no seja, por uma mera questo conjuntural tcnica. Sei de muita
gente a quem esse reconhecimento incomoda tremendamente, traz
mudanas de assunto, crises de melancolia, irritabilidade e
surtos de suores frios em bibliotecas, livrarias e cinemas.
Alguns homens, at liberais, no suportam a idia de suas
mulheres verem fotos pornogrficas, no querem que isso exista
para elas, coitados. Acham que, por no deixarem que a mulher
veja certos atos e observe o pau de outros homens, elas no vo
fazer isso por conta prpria se resolverem, ou passaro a vida
na crena de que s o marido tem pau, o maior do mundo, e ningum
faz safadagem. E mulheres que criam caso porque seus homens vem
fotos de mulheres peladas, tambm coitadas. Luta mais besta no
pode haver, melhor seria que todo mundo fosse foder numa boa e
deixasse de aporrinhar o juzo alheio. Mas parece que a
humanidade acabar e isso no acontecer. No existe ningum
razoavelmente normal que no pense, ou tenha pensado, em
prevaricar. Nesse ponto, como em muita coisa mais, eu fui
pioneira, numa gerao obscuramente pioneira. Quando eu fui morar
com Fernando, em 62 ou 63, nunca sei direito, j velha para os
padres da poca, ele sabia tudo sobre mim e sabia at que eu
tinha prometido a bunda a tio Afonso para quando voltasse de Los
Angeles, s que, verdade seja dita, Fernando tinha certeza de que
eu ia sacanear meu tio e no ia dar nada. Mas o resto ele sabia.
nica combinao: fodeu na rua, contava ao outro. Corolrio: o
fodedor ou fodedora da rua tinha que saber que a gente contava
tudo um ao outro. Mas no contava realmente tudo, esse tipo de
combinao nunca  funciona cem por cento. E olhe que a gente
comia muito as mesmas pessoas, o que facilitava as coisas. No
resolve, at cime aparece,  inacreditvel. Mas  melhor do que
nada, pelo menos a gente no mente nem finge e dissimula tanto,
melhor que em muitos conventos.
   Isso pode parecer bobagem, mas no . Evita muita aporrinhao
posterior e  fruto da minha experincia. Como dizia um professor
maluco de Processo Civil, a respeito do corno, di ao nascer, mas
ajuda a viver. Teve gente que se negou a me comer quando eu disse
que ia contar a Fernando e muita gente que se negou a comer ele,
quando ele disse que ia me contar. Teve uma mocinha que eu comi
aqui no Rio e me esqueci de fazer aviso prvio, no pensei que
ela fosse se importar. Mas, quando eu estava com ela na cama
outra vez e disse casualmente que j tinha contado tudo a
Fernando, ela ficou nervosssima, no acertou a conversar mais
sobre nada e foi embora sem graa, desapareceu e at hoje finge
que no me v na rua. Mora aqui, nesta mesma rua, e s falta
correr quando topa comigo. Aconteceu muito. Em Los Angeles, teve
o caso de Mark e Kate, que eram recm-casados, fumavam maconha,
faziam o gnero avanadex. Ela no saa assim  rua, mesmo porque
corria at o risco de ser presa, naquele tempo em que a Playboy
no mostrava pentelho e era banida de muitas comunidades e vista
pelos liberais como smbolo da liberdade e da democracia -- para
a gente ver como so as coisas, a Playboy j foi baluarte da
democracia e da liberdade, inclusive aqui no Brasil, eu me lembro
de tudo --, ela no saa desse jeito, mas andava de vestido de
malha em cima da pele pelos corredores de nosso prdio, mesmo
andar. Gostosssima, lbios carnudos, cabelos fartos caindo pelos
ombros, olhos azuis enormes, uma bunda de Rosanna Schiaffino, um
pau de mulher, enfim, como se diz  na ilha, um burro duma mul
mesmo. E os dois j estavam praticamente no papo. Eu me esfreguei
em Mark uma poro de vezes e toda vez que batia com ele sozinho
no elevador dava-lhe um chupo rpido, disse a ele que queria ir
para a cama com ele, s no pintou porque no tinha que pintar,
e tambm patalei Kate e dei um beijo na boca dela na varanda,
e Fernando pegou no pau de Mark e nos peitos de Kate, tudo certo,
certo, certo, in the bag s faltava o alinhavo final. E chegou
o dia em que ns compramos uma garrafa de champanhe francs,
desses de cinco mil contos a flte, pegamos o champanhe, fomos
para o apartamento deles como combinado, queimamos dois baseados,
servimos o champanhe e, naturalmente, abrimos o jogo. Ah, para
qu? A vergonha, em ltima anlise, foi deles, tenho certeza de
que acabaram se separando e se arrependendo, mas na hora a
vergonha foi nossa, foi chatssimo. Eles primeiro tomaram um
susto, mas logo assumiram um ar afetadamente simptico e de mal
disfarada condescendncia -- , hipocrisia,  praga da
humanidade, at quando? -- e disseram que naturalmente
continuariam nossos amigos de sempre, mas a cultura deles era
diferente, compreendiam nosso equvoco, mas aquela no era a
deles, no queriam que ficssemos magoados, compreendiam nossos
padres de conduta e nada tinham contra eles, mas no podiam
adot-los. Tanto Fernando quanto eu fomos elegantes, nem
mencionamos, como podamos ter feito, o ponto a que,
separadamente, tnhamos chegado com os dois, agora quem no
queria mais era a gente, eles perderam o interesse. Um horror,
um horror, um horror. Foi to chato que Fernando props logo que
a gente se mudasse, para nunca mais dar de cara com eles, e eu
topei.
   E foi timo termos feito essa mudana, porque o bairro novo
-- cidade, alis, Los Angeles so milhares de cidades, a
 gente atravessa a rua e paga impostos diferentes -- era meio
riponga, riponga chique, apesar de os hippies estarem s
comeando naquela poca, e a gente se integrou como se tivesse
nascido l. Conhecemos logo o Mike e a Alice e fizemos o nariz
com eles. P ainda era meio raro, mas eles tinham timos
fornecedores. At esse tempo, a gente s conhecia birita mesmo,
maconha e assim mesmo mal, lana-perfume, perfume, Pervitin,
Dexamil, mais uns outros dois ou trs comprimidos, tudo meio
coisa de pobre. Voc veja, p, essa desgraa que s serve para
se experimentar algumas vezes, para no se ficar ignorante. Acho,
sim, que a pessoa deve experimentar boa cocana. A cheira um par
de vezes, faz e diz as sandices delirantes e confessionais comuns
a quem cheira e compreende que  uma merda e deixa de lado. Assim
seria timo, porque o ser humano precisa compreender, a fim de
selecion-los para seu uso, os variados instrumentos para se
entrar num barato e alterar a realidade percebida. Digo percebida
para qualificar a realidade, porque a realidade, naturalmente,
no existe em si, Lenine era grosso, e o bispo Berkeley era fino,
e a fsica quntica mais fina ainda. Pergunte a um cientista
nuclear o que  a realidade e ele vai gaguejar, se for honesto.
Mas existe uma realidade percebida, e o ser humano no pode
toler-la e a altera a percepo. Desde que o homem  homem, ele
procura isso por milhares de vias, as mais conhecidas sendo o
lcool e as drogas em geral, naturais ou no. A msica  isso,
a msica no  seno isso, o nico intermedirio  o ouvido, ela
vai direto e afeta quem a ouve, nunca deixa de afetar, de uma
maneira ou de outra. Ento eu acho que se deve experimentar, 
uma borrice no experimentar. Quem no usa nada, nem
secretamente,  um perigoso louco que possivelmente mataria
algum. O problema  que muita gente tem dificuldade em ver que
aquela droga cobra  um tributo que no se pode pagar e no sai
daquela em que eu entrei e, graas a Deus, sa sem precisar de
um esforo extraordinrio. Muita gente fica grudada naquela
droga, e eu achava que ficaria, sou obrigada a confessar que tive
deslumbramento cocainal. Quando fui apresentada e durante anos
a seguir, p me pareceu uma chave do universo e da felicidade,
a droga da sabedoria, da verdade e da iluminao, o brilho!
Estupidez,  exatamente o contrrio.
   Mike e Alice cheiravam todo dia e, se continuaram e ainda
esto vivos, devem ter se transformado nuns cacos irreconhecveis
e imprestveis. Eles tambm tinham grana, ele transava p com uns
milionrios amigos deles, ganhava uma baba s com isso. Era uma
completa insanidade. Havia ocasies em que passvamos dias a fio
cheirando e bebendo em volumes industriais, conversando sacanagem
e entrando numas barras pesadinhas, como na madrugada em que os
quatro resolvemos sair de carro pela Harbor Freeway nus da
cintura para baixo,  um milagre que nunca tenhamos entrado em
cana. A gente fazia tudo. Estava entrando na moda wife swapping,
e ns entramos em vrios grupos, uns sem p, outros com p. Tinha
que haver uns sem p, porque p  broxante, o sujeito fica
ligado em sacanagem, mas geralmente o pau no sobe, s d para
tirar um sarro mesmo, ou ento chupao e coisas assim, mas
normalmente s sai papo alucinado mesmo. Eu tenho um amigo que
cheirava muito e, quando ia sair com uma mulher, perguntava "com
p ou com pau?" Ela que escolhesse, porque, se havia pau, no
podia haver p e vice-versa. Ele me contou que uma vez conseguiu
uma meia-bomba e usou uma caladeira pequenininha, dessas que s
vezes distribuem em avio e, apesar de ter havido alguma
penetrao, a experincia no agradou. E tinha grupos chatssimos
entre os swappers, religiosos,  vegetarianos, esperantistas, o
que voc possa imaginar. Americano consegue ser chato e cagar
regra at em suruba, so muito piores do que os alemes, que,
quando botam qualquer coisa no juzo, ficam completamente
despirocados e no respeitam regra nenhuma. Nos Estados Unidos
h um manual e um curso para tudo e sem dvida l muito se trepa
de acordo com os manuais. Mas isso no  geral e d para se
distrair com fartura. Ns freqentamos algum tempo esses grupos
e, tudo somado, foi uma experincia divertida e valiosa.
   Mike tambm tinha um estdio fotogrfico em casa, equipamento
de primeira, at com fundo infinito e diversas paisagens, o maior
high tech, e ns tirvamos fotos nus, no s ns quatro, mas
muita gente mais,  assombroso como tem gente que sonha em tirar
fotos nua, embora a maioria reprima,  uma pena e um desperdcio.
Botamos todo tipo de gente peladona naquele estdio e em outros
lugares que a gente descolava, era uma festa. Tiramos at fotos
de uma freira, prima de Mike e portadora de uma cara de
santarrona exemplar, mas que depois se revelou uma dessas freiras
medievais de colees fesceninas francesas de antigamente e
adorava suruba, ou ento transar comigo, transvamos praticamente
todas as vezes em que nos vamos. E arrumou dois padres para a
turma, um veado e outro homem de todas as armas, grande Father
Pat Mulligan, que topava qualquer coisa e trocava com Fernando
numa boa, eu no sei o que era mais lindo, se Fernando enrabando
ele, ou ele enrabando Fernando, s vezes de quatro, muitas vezes
de frente, que era a minha posio favorita para eles, o pau
entra mais dramaticamente, eles se encaram,  muito bonito mesmo,
uma das coisas mais sensuais e excitantes que eu conheo. Tambm
era muito bonito eles se chupando de olhos fechados, pondo com
volpia o pau do outro na boca. Eu ficava fora de  mim e quase
nunca conseguia permanecer somente apreciando, como planejava
antes, e participava de alguma forma.
   Claro que nessa sodoma-e-gomorra do wife swapping, os padres
-- os padres, no, porque o Bill no se interessava por mulher
-- Pat e a freira tinham um certo problema porque no dispunham
de cnjuges para apresentar, mas a gente apresentava um como
cnjuge do outro, e Mike falsificava licenas de casamento, se
fosse necessrio -- que loucura, duas pessoas casadas que vo
trepar com outras exigindo papel passado, ou isso  loucura
rematada ou  de um requinte por mim inatingvel, embora possa
imaginar um certo cenrio, um filme de Buuel, por exemplo. Deve
haver filmes, relatos e ensaios sobre wife swapping, mas nada
pode descrever aquilo, nenhum filme, nenhuma coleo de filmes
e livros. Eu adorava quando podia ir como mulher de padre Pat,
porque ele era excelente marido e companheiro e adorava perverter
aquelas peruas cheirosas de cabelo armado e sapatos brilhosos da
mesma cor que o vestido, o cachecol, os brincos e tudo mais. Ele
ensinava as coisas mais escabrosas, fazendo as caras mais
inacreditveis, e eu ali, batalhando pelo Oscar de coadjuvante,
aprendi muito com ele tambm. Ele era privilegiado. Os
irlandeses, que eu saiba, no tm fama de desmarcados, mas o dele
era muito grande e grosso e ficava duro como uma viga de madeira,
apontando para cima e gozando com uma fora e abundncia, que,
onde quer que ele gozasse em algum, esse algum sentia a
inundao, eu amava isso. s vezes ficava sentada com a boca
junto ao pau dele, assistindo transportada a ele bater uma
punheta para, na hora de gozar, dirigir o jato  minha boca
aberta. Fizemos muito isso em ocasies em que a pressa era amiga
da perfeio e tiramos vrios finos, fomos quase pilhados
diversas vezes, mas isso dava graa. Ele fez padre tinha alguma
coisa a ver com  isso, ou ento o Diabo lhe dava uma colaborao
extraordinria. Andy, mesmo. Andy era uma mulher que ns comamos
num desses clubes, descoberta por ele. Quer dizer, descobrir todo
mundo tinha descoberto, porque ela era exibidssima. Ele
descobriu foi o talento dela, por trs daquela boalidade
empetecada e ao lado do marido meio broxa e barrigudo, sem
charme nenhum, coitado, mas acho que preferia freqentar aquela
turma, onde pelo menos estava nominalmente em igualdade de
condies, do que tomar o corno solitrio que fatalmente tomaria.
No comeo, eu achei que padre Pat estava maluco, querendo que a
gente comesse aquela Jayne Mansfield de oitava categoria -- a
verdadeira Jayne Mansfield era fantstica, e eu quase como,
verdade mesmo, mas isso  outra histria, foi num coquetel em
Beverly Hills, me lembre depois, mas ele tinha razo, Andy era
uma gnia, um diamante bruto. Em dois meses, j sabia e gostava
de tudo, deixou de achar que chupar pau era fazer caras e bocas
e passar uma lngua frentica na glande como uma cobra com
problemas neurolgicos, aprendeu a curtir tudo, comeu todos os
homens, mulheres e sortidos disponveis, ficou craque em todas
as modalidades, virou absolutamente outra. E o casamento acabou,
claro. Tracy, o marido dela, realmente no tinha jeito. Nossa
freira, Sister Grace, alias Mrs. Saunders, alias Maureen, alias
Dee, alias tanta coisa, acho que nesse clube ela era Mrs. Rivera,
mulher de Fernando. Ela fez o impossvel para trazer Tracy ao
convvio da humanidade, mas nem ela seria capaz desse feito, nem
eu. Nem Norma Lcia. E cumpriu-se o carma de cada um, ns
transando com Andy e Tracy se dando por muito feliz em ser
chupado com afinco e dentes por Rita Mae, a magrela de Iowa que
ningum queria comer. Eu queria ser pintora, prima de um Brueghel
qualquer, um Bosch qualquer, para pintar aquelas noites. E dias.
Saudades, por que no dizer, saudades.


Grande Sister Grace, grande Father Bill, grande Father Pat
Mulligan! Fernando sempre disse que a maior fantasia dele se
cumpriu no dia em que foi chupado por Sister Grace, com ela toda
nua, menos pelo arranjo de cabea de freira. E Grace era linda,
tinha aquelas sardas de irlandesa, mas no ponto certo, os peitos
curvados suavemente, os bicos rosados e arredondados, uma xoxota
magnfica, com pentelhos arruivados e deixados  vontade, uma
bunda clssica, a fronteira, para as coxas traseiras bem
traadssima, linda, linda, linda e safada, era como eu e Pat e
raros outros e outras que encontramos na vida: estava sempre
disposta, sempre a  fim, em qualquer lugar, a qualquer hora,
sinto falta de mais gente assim, acho que todo mundo seria assim,
se ajudado. Fazia um escndalo quando gozava, tinha que ter
msica alta, para os vizinhos no pensarem que a gente estava
matando algum de vocabulrio mais sujo do que Long John Silver.
Father Bill era mais calmo, muito delicado, educadssimo, falava
no sei quantas lnguas e era tambm muito bonito, s que alto,
moreno, com uma covinha no queixo e absolutamente bandeira
nenhuma de que era bicha, eu tomei um susto quando soube. No era
um veado radical, s se recusava a comer ou chupar xoxota;
alis, nem tocar; alis, nem ver. Tinha nojo, dizia que lembrava
as ostras da cidadezinha de pescadores onde ele nasceu em
Massachusetts, ou no Maine, sei l. Ele
tinha pavor dessas ostras, tinha at pesadelos com elas. Mas,
tirando as ostras, o resto era com ele mesmo, principalmente
chupar pau e peito com a avidez de um bacorinho. Mas o que
ele preferia mesmo era ser enrabado por Fernando na frente de
quem estivesse. Quanto mais gente, preferivelmente mulher, melhor
para ele. Parecia um ator de filme porn classe A, era  uma
vocao inata. Dirigia o espetculo e fazia uma espcie de ensaio
com Fernando, hoje voc faz assim, hoje faz assado. E Fernando
tambm tinha senso de espetculo, eles dois eram um show, sem
exageros, understated mas vigoroso, uma beleza mesmo, inspirou
muita gente. Comi a bunda dele algumas vezes, mas ele me
emprestava um nome masculino e quase sempre me pedia para usar
uns dildos especiais, umas picas de borracha deste tamanho que
se encaixavam direitinho no pbis da mulher e ela gozava de tanto
se esfregar. Atualmente, qualquer revista de sacanagem traz
anncios de calcinhas, geralmente pretas e de um mau gosto atroz,
todas com picas de diversos tamanhos, sempre achei detestvel.
Usei umas duas 
vezes, mas foi terrvel, inclusive por eu ter de trepar usando
calcinhas, no h a menor graa e me d um certo nojinho do homem
que curte isso, no sei bem por qu. De mulher tambm, pensando
bem, a passiva e, principalmente, a ativa, no acredito que uma
sapatona de respeito use habitualmente um negcio desses,  uma
indignidade.
   J Father Pat, como eu disse, era perfeitssimo, completo,
nenhuma reclamao, pelo contrrio. Irretocvel, aquilo  que se
pode verdadeiramente chamar de atirar com todas as armas mesmo,
gostaria muito de estar com ele e Grace novamente, mas ele sempre
promete que vem ao Brasil e nunca aparece. Foi ele quem confirmou
muitas coisas de que a gente havia muito suspeitava e perdia
tempo e nimo com elas. Por exemplo, sessenta-e-nove  uma
besteira, que tira a concentrao e s vale a pena em casos
especialssimos. E a chamada penetrao dupla, que hoje est
muito na moda e eu vejo nas revistas pornogrficas? Eu passo na
banca e pergunto se tem revista de sacanagem nova, pergunto em
tom de voz natural, no importa quem esteja presente.
Interessante  que a maioria das pessoas finge que no ouve, 
curioso, no comeo eu esperava o contrrio. E os jornaleiros j
separam as revistas para mim, os jornaleiros so uma categoria
muito esclarecida e de mente muito aberta, algum devia escrever
uma tese sobre esse interessante papel da imprensa. Em quase
todas as revistas, h fotos de penetrao dupla, dois sujeitos
e uma infeliz toda maquilada, ela mais ou menos como um naco de
carne no espeto, eles como as duas metades de um po de
cachorro-quente, isso no existe. Ou melhor, existe, porque ns
mesmos experimentamos, mas no tem valor algum, a no ser para
currculo. E outras contores, que me destroncam a alma s de
lembrar, principalmente quando se arma uma macarronada humana. 
Trs, trs  o nmero ideal para um grupo, quaisquer que sejam
os sexos dos participantes, inclusive misturado. Eu gosto das
trs formas possveis: uma mulher e duas mulheres, uma mulher,
um homem e outra mulher, uma mulher e dois homens. Na minha
experincia, mas enfatizo que s falo por mim, o menos
satisfatrio  mulher com duas mulheres, e o mais satisfatrio
-- surprise! --  duas mulheres com um homem. O ideal  que todo
mundo nesse grupo se transe, mas no  indispensvel. O
indispensvel  que as duas mulheres se dem muito bem, em
matria de rivalidade sejam esportistas sinceras e gostem e
tenham teso no homem e, um belo dia, decidam transform-lo em
sulto e elas em odaliscas. E, muito preferivelmente, que todos
sejam amigos, essa histria de que no se pode misturar amizade
com sexo  uma maluquice,  precisamente o contrrio, meu Deus
do cu.  porque as pessoas envolvem o sexo em tanta merda
--mesquinharias, cimes, de peitos, inseguranas, disse-me-disse,
suspeitas, afirmaes de ego, tanta, tanta merda -- que fazer
sexo com amigos s vezes acaba prejudicando a amizade. No se
oferece merda aos amigos, atentar nisso, os amigos so muito
importantes. Ento, livrar-se da merda, para pode oferecer a
ambrosia, que est a para quem quiser deixar de ser babaca e
ver. Se se prestar ateno e se assumir a postura correta, o
certo  comer os amigos,  absolutamente bvio, chega a ser
ridculo ter que dizer isso e apresentar como tese a ser
discutida, no h nada a ser discutido,  elementar, lgico,
curial. No todos os amigos,  claro, minha idia no deve ser
deturpada, embora eu ache legtimo que algum empreenda como
misso de vida comer todos os amigos e amigas que puder. Eu
mesma, de certa forma, sou assim e conheo gente assim, mais
gente do que seria de esperar  primeira vista. Comer algum deve
ser um gesto de  amizade e que complementa e aprofunda, no
estraga essa amizade. O que estraga  o lixo na cabea, que no
 inerente ao sexo, so os penduricalhos mortferos que arranjam
para ele. Experimente conversar sobre isso com amigos e coma
eles, se eles se revelarem sensveis a essa maneira de ver as
coisas. Indecente  comer pessoas que no seriam nossas amigas.
Isso s se admite em rarssimos casos, como, por exemplo, para
satisfazer uma perversozinha. Eu gosto, de vez em quando e com
as pessoas certas, de dar uma de odalisca, toda mulher sabe de
que estou falando,  gostoso. Fiz isso muito,  bom ser uma das
duas mulheres que esto comendo um homem de cima a baixo e de
todos os jeitos e sabendo que esto dando a ele um dia de rei,
bastam elas para que ele se sinta um rei, maior que um rei. H
quem pense que no tem homem com resistncia para isso, mas tem,
sempre topava com um, a variao de parceiros faz muito bem ao
macho, ele  programado para isso. Voc sabe o que eu curti? Eu
e uma amiga minha, por exemplo, curtimos intensssimamente uma
noite que passamos com meu irmo Rodolfo e na qual, entre outras
coisas, ficamos ambas de rabo para cima, para ele nos penetrar
alternadamente. E Rodolfo era Rodolfo, fodeu as duas a noite
inteira em todos os buracos e fez questo de no ser grosseiro
e esporrou tambm nas duas. J quatro pessoas  mais complicado.
 possvel, mas no  fcil, a no ser se for na base da troca
vez por outra e outras variaes. Todo mundo embolado no  bom.
Ou ento  disfarce, j vi isso acontecer. Por minha causa, uns
dois ou trs homens, que eu encorajei e elogiei na hora,
praticaram vrios atos a que antes se recusavam. Muitos resistiam
a Fernando no comeo, mas acabavam cedendo, at porque tanto ele
como eu ramos muito hbeis nesse setor. Se o sujeito permitia
que Fernando o chupasse e no ele a Fernando, tudo bem, 
desapontava um pouco as mulheres, mas Fernando queria chup-lo
de qualquer jeito, reciprocidade ou no, porque no tinha essas
frescuras. E a gente aplaudia e mostrava admirao e teso
redobrada por Fernando e, embora no forasse a barra ou
recriminasse o refratrio, deixava visvel que ele era assim uma
espcie de bobo. As mulheres sempre se revelaram timas nisso,
a maior parte me ajudava muito a convencer os maridos e namorados
a transar com outros homens na nossa presena ou com a nossa
participao. Voc pode pensar que no, mas as mulheres curtem
isso, talvez muito mais do que a maioria suspeita, no me lembro
de uma que tivesse experimentado e no tivesse gostado. Ento,
nas trepadas de quatro, h freqentemente disfarces, que, quando
eu descobria, desmascarava logo e encorajava a que liberassem
logo tudo, fossem homens na expresso da palavra, fossem os
fodaos que ns sempre quisemos que eles fossem. E um fodao
cheio de limitaes no pode ser um fodao. Que um no curta
certas coisas, tudo bem; um camarada pode gostar muito de comer
outro e no querer dar para esse outro, assim como esse outro
pode muito bem s querer dar, ou dezenas de vice-versas. Assim
como pode no se sentir teso por determinada pessoa, ou tipo de
pessoa, pode-se at s ter teso por um tipo de pessoa
exclusivamente, embora isso j seja doidice. Mas que se seja
absolutamente infenso a toda e qualquer coisa com o mesmo sexo,
a no, a  limitao grave, no h um homem ou mulher completo,
no caso. Todo homem que disser que nunca, na vida toda, sentiu
nenhuma teso por absolutamente nenhum outro homem, at um belo
transexual ou um efebo, mas nenhum mesmo, ou est mentindo ou se
enganando. O mesmo para as mulheres, que reconhecem esse fato com
muito maior facilidade, talvez porque no tenham que ser machos
como os homens e no 
vivam to  assustadas o tempo todo. Por isso e porque as mulheres
so de especial ajuda aos homens hesitantes e inseguros -- j que
s os inseguros  que tm esse problema 
--  que eu nunca deixei os disfarces escaparem, no sexo grupal.
Os disfarces comeam j no sexo a trs. No importa o que digam,
se dois homens esto transando ao mesmo tempo com a mesma mulher,
existe um contedo de veadismo nisso, eles ficam olhando as rolas
um do outro, curtindo coisas que o outro faz, volta e meia se
encostam, se pegam e, sem falar nada, acabam entrando no samba
um com o outro, sempre tem uma coisa dessas. O mesmo ocorre com
duas mulheres e um homem, excetuando, como  de praxe nestas
questes e eu observo sempre, casos graves de doena mental.
Excetuando casos graves de doena mental, todas as mulheres
gostam de mulher tambm, em graus variados ou at especializados,
do mesmo jeito que todo homem gosta de homem, faz parte da
constituio de ns todos, ningum nasceu com papel sexual
rgido, todo mundo  tudo em maior ou menor grau, o resto  medo
de fantasmas ridculos e absurdos, que nunca se sustentaram nas
suas pernocas de nvoa. J assisti a episdios e j ouvi
confidncias de homens que odiariam dar o rabo, mas curtiam
fantasias endemoninhadas de enrabar jovens rapazes e muitas vezes
faziam isso escondidos deles mesmos. Os travestis comem
habitualmente homens srios, os travestis tm histrias muito
boas, eu simpatizo com os travestis em geral. Eles comem
basicamente homens srios. Os homens os pegam em seus carros e
ficam de quatro para eles,  esse o grande negcio deles, no 
dar aos homens srios, como se pensa. E todos esses homens srios
so indistinguveis dos que no fazem o que eles fazem, eles
esto em toda parte, so nossos conhecidos, pais, maridos,
chefes, comandantes etc., que se abrasam ocultamente, depois se
aposentam e morrem de cncer. Precisava disso, precisava? No,
se certas verdades bvias fossem admitidas de uma vez por todas.
Atraso, atraso, vivemos segundo regras e padres para os quais
nenhum ser humano foi feito e, claro, ficamos malucos por isso.
No sei se j falei que encaro com piedade a mulher que diz
sincera e proibitivamente "meu negcio  homem, minha filha" e,
freqentemente,  irrecupervel para uma viso do mundo e uma
vida sadias, at porque fortificada por trs de sua muralha de
neuroses e crendices. Fico com pena. A bem dizer, fico com pena
no s dessas mulheres como dos homens em condio anloga, fico
com pena de todos esses exclusivos de araque. Preferncias, sim;
exclusividade, jamais. As mulheres gostam, sim, de mulheres e as
que menos gostam pelo menos adoram ser vistas em ao pelas
outras que as acompanham, preferivelmente mostrando que so mais
gostosas. J participei desse tipo de coisa, e muitos homens,
como o prprio Fernando, me contaram que transaram com mulheres
que, sozinhas com ele, ficavam l, paradonas como uma almofada
com buracos, mas, quando eu ou qualquer outra estava por perto,
viravam demnios do leito, gritavam, gemiam, berravam o nome dele
em altos brados e assim por diante.  o famoso ser humano. Mas
no faz mal a ningum,  talvez dos grandes atrativos de sexo a
trs,  legtimo, uma concorrncia construtiva. Mas a verdade 
que a grande maioria das fantasias como o sexo grupal, quando
vivida,  um saco, com raras e episdicas excees. Quando
imaginada e at vista em fotos, a impresso  outra. Ser
penetrada enquanto se chupa algum de valor, todos amigos e
amantes, tudo bem. Alis, o melhor para tudo isso, volto a bater
na tecla, so os amigos e parentes. Ou ento o outro extremo,
desconhecidos que no vo mais ser vistos. Quando se  amigo,
acabam se tornando
 mais provveis as combinaes, geralmente espontneas, que podem
dar certo. At sincronismo de orgasmo a trs muitas vezes d
certo, mas gente de primeira qualidade para isso  difcil de ser
encontrada, e a situao propcia  tambm difcil de armar.
Atraso, atraso! E eu dei sorte, ainda dei muita sorte.
   Minha bolsa de estudos, todo esse tempo, foi de longe a melhor
que eu poderia esperar. Sa formadssima, ps-graduadssima. No
nas matrias do currculo, evidente, porque eu ia ao campus
somente quando havia necessidade, embora tenha pegado o maior
diploma de mestrado. L  igual a aqui, basicamente, s que
bastante mais elaborado e com uma hipocrisia intrincadamente
coreografada, que chega a ser bonita de to horripilante e bem
estruturada. L a gente compra os papers, os trabalhos de casa
que tem de apresentar, existem firmas que fazem isso,  a maior
moleza,  s ter dinheiro para comprar, como quase tudo mais. Dar
para os professores funcionava da mesma forma que aqui, dei at
para um mrmon, que no fumava, no bebia nem caf, no dizia
palavro; era um santo homem, mas, quando eu peguei no pau dele
por cima das calas, se esporrou todo e s me deu nota A o curso
inteiro. E assim diversos outros, era s dar e passar, procurem
em outro lugar as diferenas de desenvolvimento entre o Brasil
e os Estados Unidos. No feliz dizer de Marilyn Monroe, segundo
eu li em alguma revista de fofoca, chupei muita pica, mas
consegui muitos papis. No havia dificuldade, ainda mais com a
aparncia demolidora que eu tinha, eles tinham medo de mim e
fascinao absoluta e, melhor ainda, no havia concorrncia digna
desse nome, eu estrangeira, casada, livre para qualquer horrio,
sem querer dinheiro de ningum, gostosssima, fazendo coisas que
eles nunca sonharam, era at covardia, nenhum resistiu,
absolutamente nenhum. Eu falava  portugus durante as trepadas,
eles calam em transe. Com dois eu trepei a srio, mas com os
outros eu ficava dizendo "Flamengo at morrer!", "o sufl j est
pronto", "tu  ruim de cama pra caralho" e outras maluquices que
me davam na cabea, sempre ligeirinho para no arriscar que eles
entendessem, era na Califrnia, e muitos sabiam umas palavrinhas
em espanhol, como quando eu chamei Dr. Scott de estpido porque
ele me penetrou por trs como um rinoceronte dando uma marrada,
coitado dele, era casado com uma mulher terrvel que eu e
Fernando comemos e era corno vitalcio, se bem que bom de nota
para mim, straight A.s again.
   Tive apenas trs problemas, dois pequenos e um grande, na
volta para a Bahia. O primeiro probleminha foi titioAfonso, 
claro, que chorou, me chamou de ingrata, perversa, irresponsvel
e mau-carter, porque eu no quis dar. Ele estava todo crente,
todo Leocdia, como se falava no meu tempo de colgio de freiras,
e foi logo metendo a mo em mim, assim que me pegou sozinha.
Alis, ns marcamos. Eu marquei, melhor dizendo, quem marcou fui
eu, sem dizer nada do que havia decidido e deixando que ele
devaneasse  vontade. Marquei na mesma sala do sitio onde fizemos
sacanagem pela primeira vez. Deus me perdoe, fiz como Hitler, que
obrigou os franceses a assinarem a rendio no mesmo vago de
trem onde o Tratado de Versalhes foi assinado. Nos encontramos
l, ele veio todo pressuroso, todo metido a timo, mas eu tirei
as mos dele de cima de mim e disse que parasse, que as coisas
j no eram as mesmas. Ele me perguntou se eu ia cumprir a
promessa, fiquei calada, levantei a saia e, ainda sem dizer uma
palavra, fiz com que ele compreendesse que eram s as coxas. Sei
que  difcil crer, mas dei somente as coxas. Em p, pedindo
pressa porque achava que vinha gente, sem beijo na boca, sem
nenhum extra,  e ainda ri na cara dele, na hora em que as pernas
dele bambearam e ele teve de se agarrar em meus ombros e ainda
disse a ele -- eu no valho nada mesmo, mas menos valia ele --
que tinha baixado a calcinha somente porque no queria que ela
ficasse toda lambuzada daquilo, exigi o leno dele para me
limpar, segurando-o nas pontas dos dedos e fazendo carinhas de
nojo. E pronto, aquela era a ltima vez, ele que se desse por
muitssimo satisfeito por eu ainda ter feito aquilo como
despedida, ele me fizera cair numa armadilha, prometer o que no
poderia cumprir, se aproveitando da minha boa-f e inexperincia,
o inescrupuloso amoral que tinha iniciado a sobrinha inocente na
sacanagem, o ltimo e mais prfido dos homens. E agora, para
todos os efeitos, eu era uma senhora casada, ele queria que eu
contasse tudo a Fernando ou a algum mais da famlia? A tia
Regina, talvez? Se tia Regina concordasse com o cumprimento da
promessa, podia ser que eu revisse minha posio. Devolvi o leno
ainda nas pontas dos dedos e desviando o rosto e nunca mais
deixei que ele chegasse nem perto de mim.
   O segundo problemazinho foi que eu tinha de ensinar na
universidade por conta da bolsa, que tinha uns requisitos desse
tipo, embora tivesse sido quase toda paga pelo tio Afonso, Deus
o tenha, pensando bem, eu tambm botei pra quebrar em cima dele,
aquilo no se faz. Apareceu para dar aulas o Dalai Lama? Assim
apareci eu. Ainda tentaram me. chantagear para eu aceitar aquele
emprego escravizante de merda, mas eu no quis nem saber, at
hoje deve haver algum inqurito ou processo contra mim, mas eu
nunca dei a menor importncia. Mas, enfim, como eu disse, foi uma
grande bolsa, apesar de eu detestar Los Angeles e a Califrnia
de modo geral, com exceo de So Francisco. E veio o terceiro
problema, desta vez bem mais grave. Nem Fernando nem eu
conseguiamos agentar a  Babia depois de 64, e todo mundo se
mandou, e ns ficamos praticamente sem amigo nenhum,
principalmente os que ns queramos converter  nossa maneira de
viver. Eu sempre dei para comunistas e esquerdistas variados por
uma questo que eu considerava cvica. Comunista  ruim de cama
que ningum sabe, talvez seja a maior incidncia de broxura
definhada que eu encontrei. Nunca tive teso em Lnin, s tenho
por Fidel Castro. Mas os esquerdinhas tinham todos desaparecido,
entre boatos de que enfiaram uma granada na boca de um, outro era
guerrilheiro no Camboja e outra tinha dedado todo mundo e agora
era combora de um major torturador, todo dia aparecia uma
histria. E todo mundo que ficou parecia sem graa, chato e
atrasado -- e, para quem est cheirando p, todo mundo que no
cheira  chato e atrasado --, e Fernando tinha que viajar para
o Rio para conseguir p, e tudo era realmente muito, muito chato,
e a1 ns resolvemos vir para o Rio de Janeiro. Chegamos a passar
ainda uns trs ou quatro anos na Bahia, mas pegamos ojeriza
mesmo, at porque nos parecia que l estavam concentrados os
filhos das putas que se aproveitaram da Redentora para encher o
cu de dinheiro, a comear por aqueles fundos de no sei o qu,
da famlia militar, no sei o qu, que realmente encheram o rabo
de dinheiro e agora sumiram com o dinheiro de todo mundo que foi
na deles e ningum mais fala neles. Um bando de escrotaos, e no
comeo nem pelos milicos, comeo pelos dbeis mentais que doaram
at as alianas de casamento, e no duvido que os mais babacas
tenham dado seus blocos dentais de ouro para a campanha "ouro
pelo Brasil", ouro sinistro, que lembrava o que os nazistas
roubaram dos judeus e que nunca mais ningum viu e at hoje deve
estar fazendo a felicidade dos promotores da campanha, bons
filhos das putas, para no falar no festival de dedurismo da
poca e 
em muitas outras coisas sobre as quais a gente age como se  em
muitas outras coisas sobre as quais a gente age como se nunca
tivessem acontecido. Mas eu no, se bem que reconhea que, no
fundo,  uma atitude besta.
   Resolvemos nos mudar para o Rio entre altas expectativas.
Eu, que nunca tinha evitado filhos com a seriedade apropriada,
mas tinha medo de pegar um sem querer e, pior ainda, sem ter saco
para crianas, ainda mais podendo no ter certeza sobre quem era
o pai, fui a no sei quantos ginecologistas, e todos inventaram
um problema diferente em meu sistema reprodutivo. Problema era
claro que eu tinha, porque obrigaram Fernando a fazer exames, e
os exames sempre demonstraram que ele tinha fertilidade
suficiente para emprenhar todas as chinesas com meia dzia de
esguichadinhas. Foi at interessante que ele fizesse esses
exames, porque eu decidi ir com ele e me trancava com ele
naquelas salinhas srdidas, uma coberta de folhinhas de posto de
gasolina e todas srdidas, srdidas, eu dizia, com a maior
cara-de-pau, que ia ajudar na coleta de material. Era timo sair
da salinha e ver as caras das pessoas, algumas fazendo fora para
disfarar e outras abertamente escandalizadas. Uma vez, levamos
uma putinha contratada especialmente, dizendo que ela era
secretria de Fernando, e o mdico, Dr. Clvis, no me esqueo
dele, um baixote meio sebentinho, que fumava um toco de charuto
mordido e babado, tentou fazer um discurso contra, mas Fernando
e eu reagimos e entramos os trs na salinha de punheta, foi
fantstico, aposto que o Dr. Clvis deve ter ficado traumatizado
pelo resto da vida. Meu palpite era que eu era estril mesmo, no
importando por que razo, mas, como confio em mdicos tanto
quanto em economistas, resolvi ligar minhas trompas e me livrar
dessa preocupao para sempre.




Rio de Janeiro, trompas ligadas, problemas nenhuns, liberdade,
liberdade. Mas no comeo foi uma merda e pensamos at em morar
em outro lugar, chegamos a viajar, pensamos em Paris, pensamos
na Provena, pensamos numa ilha do Mediterrneo, mas acabamos
ficando no Rio e tudo foi se acertando aos poucos. Eu no concebo
outro lugar para morar que no o Rio, apesar de tudo o que fazem
para acabar com ele, notadamente os cariocas mesmos. Mas s 
possvel morar, morar mesmo, no Rio. Voc veja, eu adoro So
Paulo, acham at estranho, mas  verdade, adoro. As paulistas so
fogosas, os paulistas so bons amigos e, quando  fodem bem, fodem
muito bem, basta voc desenvolver o paladar. E o interior de So
Paulo tambm tem muita coisa tima,  surpreendente. Mas eu s
quero morar no Rio, nem pensar em sair daqui. E olhe que eu sou
baiana e, como todo baiano, criada com preconceito contra
carioca. Baiano tem preconceito contra todo mundo, alis, quem
quiser que pense que entra mesmo em casa de baiano, porque no
entra. Tem aquele oba-oba todo, meu irmozinho, meu amor, meu
idolatrado, meu rei, tudo o que  meu  seu, minha mulher  sua,
meu marido  seu, minha bunda  sua, mas quem quiser que pense
que entra, porque no entra, s um ou outro, salvando-se uma alma
no purgatrio. Baiano acha no-baianos seres incompreensveis,
perigosos e conspiratoriais. Observe: fora do territrio deles,
eles podem se detestar, mas vivem se elogiando. Pergunte a
qualquer baiano o que ele acha de outro baiano, que na verdade
ele considera a caca das cacas, e ele dir que  o maior do
mundo. Eles ficam malocados, mas, se outro baiano precisar, eles
saem das tocas, so uma espcie muito peculiar, quem quer que
tenha medo deles tem razo. At eu, que tenho esta postura
crtica, sou vtima disso. Fui criada para odiar o Bahia e odeio
o Bahia, mas, quando ele est jogando fora de l, eu toro por
ele,  ridculo. Mas  srio. Por isso que, para muitos
paulistas, a Endlsang  acabar com a baianada toda. Eu acho uma
sacanagem, mas compreendo. Eles podem espernear, mas no
conseguem aceitar a existncia da baianidade, ela tem de ser
exterminada.
   Alguns baianos apareceram no Rio, nessa ocasio. E alguns
destes somente nessa ocasio, nunca mais vimos. Pareciam uns
missionrios e hoje compreendo que era a baianada em ao, acho
que  uma coisa meio inconsciente, que j est programada neles
de nascena. Eles foram nos ajeitando e da a pouco  estvamos
integrados, completamente cariocas -- o Rio adota todo mundo, no
faz perguntas, se bem que tampouco paparique, mas isto j  outra
conversa. Logo j tinha p de dar de pau no Rio, j tnhamos as
conexes certas, nada de subir no morro e lidar com malandros que
no podem ser recebidos em casa. Minto. Uns quatro ou cinco
chegaram a entrar, e me lembro de um que apresentou de graa
diversas vezes, adorava Fernando, achava que se tratava de um
intelectual finssimo e eu tambm era uma intelectual finssima
e uma grande dama. Esse era um fenmeno, parecia um aspirador de
p pesado, desses que voc v limpando as ruas em Paris. Batia
o p com as costas de um pentinho de plstico e cheirava fileiras
do tamanho de um salame. Ele tinha obsesso por uma mulher do seu
passado chamada Madalena e de vez em quando escrevia o nome dela
com p, em letras enormes, numa capa de elep, e cheirava
Madalena toda numa cafungada s, tinha que ver para acreditar.
O problema era que, quando ele aparecia, tanto Fernando como eu,
depois de umas duas cheiradas, estvamos mortos de teso e de
vontade de falar sacanagem e de telefonar para chamar mais gente,
mas isso era impossvel com ele ali, seu bigodinho pintado, suas
pernas esquelticas e sua barriga maior que um zepelim, um
verdadeiro maxixe espetado em dois palitos. Eu mesma, que, quando
cheirava, j fiquei excitada vendo a foto de uma mulher muito
bonita chupando o pau de um cavalo e j pensei muito em dar para
um jegue -- cheguei mesmo --, nunca consegui nem pensar em
transar com ele. Quer dizer, pensar at pensei, mas no podia ir
adiante, por mais que recorresse a meus argumentos pansexuais de
costume. Acho que j contei que, quando menina, veraneando na
ilha, vi muitos jegues trepando, e s uma pessoa de sangue de
barata no fica excitada, quando v o jegue subir com  aquele
vergalho imenso em riste, montar na jega, morder a nuca dela, ele
fechando os olhos e ela mexendo o queixo, dando uns coicezinhos
nele e babando,  lindo. Claro que nunca esperei agentar um
jegue todo em mim, mas pelo menos um pouco, e fiz um desenho de
memria da cilha que eu tinha visto com Fernando em So
Francisco, num show porn de um night club de quinta categoria.
O nmero principal, pelo menos do meu ponto de vista, era uma
mulher encilhada por baixo de um cavalo, e o cavalo metia nela.
No tudo,  bvio, mas um pedao impressionante. Fiquei
excitadssima, at com vontade de subir no palco e tomar o lugar
dela. E Norma Lcia me ensinou a curtir transas com cavalos, era
muito bom pegar um cavalo manso daqueles e ficar de mente perdida
no descampado, acariciando os colhes dele e lhe alisando o pau.
Era, no; .  muito bom e carrega logo o corpo de todos os
hormnios mais safados. Mas vamos deixar de lado jegues e
cavalos, nunca consegui de fato praticar minhas poucas fantasias
de bestialidade, sou fraca em bestialidade, nasci mal dotada e
no desenvolvi nada. Cachorro, que  o mais comum,  que nunca
me atraiu. Limitao minha, com certeza. Outro dia, numa dessas
salas de bate-papo de sacanagem na Internet que eu freqento, um
rapaz estava procurando um cachorro grande e manso, que pudesse
enrab-lo. Permitia que os donos assistissem e at fotografassem.
E dizia que nada superava ser enrabado por um cachorro. O pau do
cachorro parece fino, disse o rapaz, mas aumenta muito de volume
quando penetra e tem um magnfico n no meio. Alm disso, o
cachorro prolonga sua penetrao por at meia hora, ejaculando
abundantemente a intervalos. O rapaz est pensando num fila.
Quando vi o anncio, fiquei com vontade de ter um cachorro e
assistir a isso. Mas no fiz nada e o anncio pode at ser 
mentira, embora eu creia que  verdade; ns, o homem, fazemos
tudo. Mas nunca consegui nem pensar direito em fazer qualquer
coisa de sexual com esse sujeito do pente no p, lamento mesmo
dizer que no havia a mais remota condio. Alm disso, um dos
problemas com p  que a gente fica se dando e afetando amizade
por uma poro de gente para quem nem olharia, se no fosse pelo
fato de eles oferecerem ou repartirem o uso da droga deles. E da
fomos nos desligando gradualmente desse tipo de gente e ficamos
s com os nossos fornecedores de classe fina, digamos assim, e
acabamos entrando num regime de loucura total, de que no tenho
o mnimo de arrependimento -- s gostaria de fazer algumas
revises --, s tenho arrependimento do que no fiz, como se diz
muito e  verdade, a gente s se arrepende do que no fez. E a
mergulhamos de cabea no p e na sacanagem.
   De repente nos vimos metidos numa roda-viva alucinante, que
nem sei reconstituir direito, nem, quero, nem vou tentar. O que
eu sei  o seguinte: pensemos em desvarios. Mas desvarios mesmo,
houve muito pouca coisa que eu no experimentasse, no terreno que
arbitrariamente defini como normal para mim. Desisti de querer
justificar minhas escolhas, trabalhei os pontos nos quais notei
uma centelha inicial, alm disso a vida  curta. Necrofilia,
coprofilia, muitas outras filias, no, definitivamente. Tudo bem
para quem gosta, nada de represso, a no ser  mutilao e 
morte. Mas eu no. Tirando isso, fomos bastante fundo. P,
contudo, tem aquele defeito, entre muitos, a que j me referi:
liga a cabea, mas desliga os rgos genitais. Fernando mesmo,
que eu saiba, nunca conseguiu transar com p. Mulher no tem esse
problema de precisar de ficar fisicamente tesa, mas, assim mesmo,
prejudica, pelo menos no meu caso e no de diversas amigas minhas.
Mas isso no 
impedia que, menos de um minuto depois que a gente cheirava a
primeira carreirinha, a gente se obsedasse tanto por sexo que s
falvamos putaria at o dia amanhecer.
   E praticvamos. Chega a ser tedioso recordar certas coisas.
E tambm no quero ficar repisando aqui o que todo mundo j
conhece. Mas, por outro lado, preciso repisar. Henry James -- eu
j gostei muito de Henry James, hoje no gosto mais tanto assim,
mas me d uma saudade imprecisa de tardes longas e meio nubladas,
entre rvores tristonhas, no sei bem por qu, ou, por outra sei,
mas estou com preguia de falar,  por causa de Washington
Square, eu sempre fico triste quando passo por l no inverno --,
Henry James escreveu no sei onde que ler um romance  olhar pelo
buraco da fechadura. Este depoimento no  um romance, nem enredo
tem -- se bem que os do prprio Henry James tambm mal tivessem,
pensando bem --, mas  olhar pelo buraco da fechadura. Claro,
minha vida no foi comum, mas eu basicamente sou igual a qualquer
uma, nem pior, nem melhor. Sempre tive dinheiro e fui
inteligente, o que certamente facilita as coisas. Mas sou igual
a qualquer uma. E as pessoas lem romances, biografias,
confisses e memrias porque querem saber se as outras pessoas
so como elas. No somente por isso, mas muito por isso. Querem
saber se aquilo de vergonhoso que sentem  tambm sentido por
outros, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto
mais olham, mais precisam olhar, nunca estaro saciadas. Faz bem,
 reconfortante. Porque eu tenho a convico de que a maior parte
das mulheres e homens  como eu e pensa que no, cada um pensa
que  nico em suas maluquices. No , no, somos todos iguais.
Vai ter muita gente que vai ler isso e vai discordar e de novo
estou com preguia de argumentar. Largue este texto, ento, no
perca seu tempo. No largou?  No largou, claro, chegou at aqui.
No  para largar. A inteno do buraco da fechadura  a
primeira. A segunda  provocar teso, quero que quem me ler fique
com vontade de fazer sacanagem, pelo menos se masturbando. Se
algum lesse isto no avio e, por causa disso, entrasse numa
sesso de sacanagem com o companheiro ao lado, seria uma
realizao, um accomplishment. Penso principalmente nas mulheres,
gostaria que as mulheres, ao tempo em que se tornassem mais
ousadas, se tornassem tambm mais abertas, mais compreensivas,
deixassem de ser to mulheres, por assim dizer. E gostaria de um
mundo de sacanagem sem problemas,  dificlimo, mas no 
impossvel em certos casos. Quero que as mulheres fiquem
excitadas, se identifiquem comigo, queiram me comer e comer todo
mundo que nunca se permitiram saber que queriam comer, quero
criar um clima de luxria e sofreguido. De noite, sozinha, isso
acontece. s vezes por causa de um drinque, um baseado, uma
msica, uma foto, uma coisa qualquer que altere ou provoque a
conscincia. s vezes, aparentemente por nada. Mas todas as
mulheres --todos os homens, mas agora quero falar de mulheres --
j sentiram e sentem um momento em que so puramente sexo e
pulsam sexo por todos os lados e ficam com medo de si mesmas e
se descontrolam e compreendem tudo sobre sexo e querem tudo, 
uma sensao avassaladora de absoluta sexualidade, um momento em
que a sacanagem toma conta de tudo, e ela se sente fmea,
devassa, puta, ela faria tudo, tudo, ela quer foder, ela quer
fazer tudo! Toda mulher que no d a bunda sente vontade de
tambm dar a bunda nessas horas, toda mulher que nunca deixou
gozarem em sua boca sente vontade de chupar um pau at que ele
esguiche forte em sua boca, toda mulher assim limitada sai desses
limites nessas horas, finge que no tem problemas.  Todas iguais.
Eu quero excitar essas, quero provocar muitas trepadas, quero que
maridos, namorados e pais assustados as probam de ler, quero que
haja gente com vergonha de ler em pblico ou mesmo pedir na
livraria, ah, como seria bom acompanhar tudo isso. E no estou
fazendo nada demais, a no ser contar a verdade.  de fato
inacreditvel, se voc for ver bem, que contar a verdade seja
escandaloso, quase subversivo, o atraso, o atraso. Se todo mundo
contasse, este depoimento seria apenas mais um entre milhes.
Mas, como no conta, eu conto, e ainda tenho muito mais coisa
para contar, nunca vou conseguir contar tudo. E, finalmente, a
terceira inteno  bem mais um desejo.  o desejo de estar com
mulheres que tenham lido este texto, para ver as caras delas e
ouvir os comentrios para consumo externo e para o marido que se
julga liberalssimo, mas despencaria do Everest se soubesse dez
por cento do que vai na cabea dela. Parece que eu estou vendo:
Gostei, sim, mas  claro que discordo de muita coisa, ela  muito
radical para mim, eu no chego quele ponto nem na teoria, quanto
mais na prtica. Canalhas. Claro que chegam, se j no chegaram.
Mas tm que se defender,  natural.  a tal coisa, tem uma
comunidade cheia de veados e nenhum homem que coma os veados.
Existe? Claro que no existe.  a mesma coisa, modus in rebus.
Eu serei a nica? Pelo contrrio, eu sou mais  a regra, a norma,
embora poucas tenham tido as oportunidades que eu tive e, por
isso, no foram longe. E com quem  que eu fiz tudo o que eu fiz?
Com algum marciano, por acaso? Quem est fazendo tudo agora? Sim,
quero mexer com essas mulheres tambm, quero mexer com todo
mundo.
    muito difcil fazer um resumo dessa poca de ouro do p, mas
foi uma grande lio de vida. Ensinou muitas coisas, das quais
agora vou dizer a primeira, sem ordem de importncia.  Ensinou
que  muito difcil encontrar algum que no tenha alguma grande
obsesso sexual, ou mais comumente vrias, geralmente reprimidas
das formas mais inesperadas. Que mais?  muito difcil encontrar
algum que no se possa seduzir. Querendo-se pagar o preo, que
pode ser at uma existncia,  possvel seduzir toda e qualquer
pessoa. Que mais? Todo homem  veado, em maior ou menor grau, e
toda mulher  lsbica, em maior ou menor grau. Ningum  alguma
coisa de forma absoluta, no h hiptese. Case histories uma
atrs da outra, devo ter uma das maiores colees do mundo,
somente contando com meu tempo com Fernando e com Antonia.
   Primeiro caso que me vem: Marina, a comissria de bordo.
Prefiro muito dizer "aeromoa", mas parece que agora elas se
ofendem quando so chamadas de aeromoas, deve ser porque a cada
dia ficam mais aerovelhas. Hoje em dia tudo ofende e, como ns
vivemos macaqueando os americanos, tambm ficamos politicamente
corretos, e um babaca a agora est querendo uma lei proibindo
piadas que possam ofender qualquer grupo, de qualquer tipo.
Imagino o surgimento de um grupo antipiadas -- a Igreja Universal
da Assemblia dos Homens Srios -- registrado e, portanto, a
proibio de contar qualquer piada, sob o risco de ofend-lo.
Haver piadas clandestinas, contrabandistas de piadas, transeiros
de piadas, fornecedores de piadas de rabe e judeu e presos
inafianveis pelo delito de contar piadas. Puta que o pariu, s
falando assim, atraso, atraso. A aeromoa nos conheceu numa
birosca de praia, quando estava passando frias numa pousada em
Porto Seguro, que no era moda como agora. Ela tomou umas
batidinhas e acabou confessando que j estava ficando meio dura,
e a Fernando e eu, j pensando em dar um bote, porque ela era
um deslumbramento, olhos verdes, peitos e coxas na medida certa,
uma  voz grave enlouquecedora, enfim, tima, tima, uma
verdadeira esttua grega de biquni, oferecemos lugar para ela,
casa, comida, roupa lavada e ajuda no que ela precisasse, no
sitiozinho que tnhamos alugado para a temporada. No comeo, ela
fingiu no querer, mas depois quis. E tambm fingiu que no
gostava de p, mas depois sentou a venta, como dizia o nosso
amigo que cheirava Madalena. Na primeira noite em que cheiramos
juntos, ela estava de shortinho meio frouxo e blusa por cima dos
inenarrveis peitos, com os bicos que pareciam dois
telescopiozinhos empinados para o cu, e eu fiquei ensandecida
de teso, passei o tempo todo alisando ela durante as conversas
e, quando finalmente resolvemos ir dormir, eu entrei no quarto
dela e deitei junto dela e encostei na bunda dela, e ela veio com
aquela conversa de que o negcio dela era homem. Mas isso com um
sorriso sem-vergonha, que nem de longe me convenceu. Alis,
mulher que vive repetindo que o negcio dela  homem, o negcio
dela  homem, est num caso anlogo ao que minha av denunciava
-- a mulher que no se refere ao marido pelo nome, mas vive
falando "meu marido", "meu marido". No primeiro caso, deduo
minha, o negcio no  s homem e, no segundo caso, deduo de
minha av, o marido  corno. Ainda conversei um pouco e apertei
os peitos dela, que tirou minhas mos, mas daquele jeito safado
de quem no quer que a gente tire realmente. Perguntei se, nesse
caso, ela estava interessada em Fernando, mas ela disse que no,
desta vez com firmeza, que ela pode no ter tencionado mostrar,
mas eu notei logo. Est certo, tudo bem, v dormir, durma bem.
E, por uma questo de estratgia -- coisas sutis para as quais
a gente tem talento natural e aperfeioa com a vida --, deixei
ela sozinha no quarto e fui continuar a conversar sacanagem com
Fernando, at o dia comear a amanhecer. No gosto de ver o  dia
amanhecer completamente, deve ser algum lixo catlico que eu
carrego, me d desconforto, culpa. J desisti de combater isso
h muito tempo, sempre vou para a cama antes que o dia amanhea,
 mais cmodo do que dedicar a vida a tentar vencer uma neurose
de merda. Como de hbito, no dormi durante muito tempo, apesar
das bolinhas, e fiquei pensando nela. Eu tinha certeza de que ela
queria que eu insistisse, mas no insisti; posso ser boba, mas
nem tanto. No sou boba, alis. E assim se passou essa noite e
a seguinte, at que, na terceira noite, depois que ela alegou
sono e cansao e foi para a cama sozinha novamente, eu passei de
propsito pela porta do quarto dela, que estava quase
completamente aberta e a luz do abajur l dentro acesa. Ela no
estava mais de shortinho e blusa, no
estava vestindo nada, estava completamente nua, de bruos,
pernas em ngulo, pose clssica, aquela bunda inefvel, aquela
pele coberta de lanugem dourada, e eu,  claro, no hesitei. No
podia haver a mnima dvida de que ela estava ali me esperando
para transar, por mais que pudesse dizer o contrrio. Eu no ia
deixar essa oportunidade passar levada por prudncia babaca, j
bastam as de que me arrependo por no ter cado em cima, hoje
vejo como as barreiras eram bestas ou at fictcias. Nem parei
para pensar. Fiquei tambm nua na porta do quarto, deixando as
roupas carem na entrada, e me insinuei por cima dela, que agiu
como se estivesse acordando naquele momento, pssima atriz.
Deitada em cima das costas dela, encaixada em uma das bochechas
da bunda dela, j comeando a me esfregar, pedi que virasse o
rosto para trs para que eu a beijasse na boca, e ela virou.
Pronto, uma qumica jamais declarada baixou em Porto Seguro, meu
Deus! Tudo funcionou como se tivssemos nascido j fazendo tudo
aquilo uma com a outra, at os gemidinhos dela compassavam com
meus  gemides, nada deu errado, nenhum movimento se frustrou,
ai, como foi bom, esta vida  muito injusta, quando nos traz
essas lembranas. Penso nela como ela era ento, no penso nela
como deve estar hoje, me masturbo evocando aqueles dias com ela.
Sem o momento, no existiriam nem a antecipao nem a lembrana,
mas como os dois so melhores que o momento! Quando, depois de
j termos gozado quase instantaneamente, eu na bunda dela e ela
com meus dedos, vi o que minha mo j tinha adivinhado: ela tinha
um tufo de pentelhos que s posso chamar de suntuoso, a viso
mais hospedeira que j tive, adoro mulheres fartamente
pentelhudas, no sou chegada s aparadinhas e raspadinhas, que
so muito comuns no Nordeste. E nos Estados Unidos tambm, 
engraado. E tambm no aprecio esses pentelhos que ficam como
uma crista, raspados certeiramente junto s virilhas, parecendo
a cabea de um ndio seminole ou o topo do capacete de um
centurio romano de cinema. Est certo,  para usar o biquni,
mas no  necessria aquela preciso, podia ser uma coisa menos
definida, mais dgrade, menos brutal. Ou ento deixar os
pentelhos sarem pelos lados do biquini, ou at por cima,  bem
mais sofisticado, embora requeira classe. Ela era perfeita nesse
sentido, aquele monte de Vnus amplo e generoso, aqueles plos
lzudos e macios. Refocilei a cara nesse tapete que at agora
sinto em meu rosto e vivemos horas de abraos, esfregadas e gozo,
um atrs do outro, como s as boas mulheres sabemos fazer. Alis,
entramos num delrio tal que Fernando, sozinho, sozinho, abrindo
ao acaso revistas pornogrficas para tentar adivinhar se ele
ainda ia comer Beltrana ou Sicrano e enchendo a cara, apareceu
no quarto e tambm ficou nu e, apesar de broxado, no
envergonhou. Nos transformamos num novelo e, no fim, Fernando
entrou em rebordosa e 
ficou numa paudurisia inaudita, comeu ns duas e gozou na boca
dela. Isso se repetiu at as frias dela acabarem e, no fim, ela
nos disse misteriosamente que era casada e, por mais que
tentssemos, nunca mais a vimos, mas eu no a esqueo como a
mulher que eu mais gostaria de ter tido sempre ao p, para a
gente se comer.
   Como ela me chupava! Mulher sempre chupa xoxota muito melhor
do que homem, que geralmente acha que sua lngua  uma espcie
de pnis desarvorado e que pode sugar um clitris ignorando os
prprios dentes cheios de arestas, como quem est tomando
refrigerante de canudinho, com raiva do contedo. E ela me
chupava com classe e um toque, no sei bem como dizer, um toque
de devoo. Respirava fundo, se aconchegava entre minhas coxas,
me segurava delicadamente na bunda, respirava fundo outra vez,
me cobria de beijos nas virilhas, fechava os olhos e me levava
ao cu, ao cu! No posso nunca me esquecer do dia em que ela
comeou a me chupar no sof, e eu resolvi que naquela hora
preferia a cama e, no sei como, ela conseguiu me seguir at a
cama sem tirar a boca de mim com os olhos fechados e eu gozei
torrencialmente logo em seguida. No sei se posso dizer, porque
no vejo razo para rejeitar o rtulo de libertina pervertida e
devassa, se j tive paixonite a srio por algum, mas, se j
tive, foi por ela. Uma vez, Fernando fora de casa, comendo uma
carioca grfina que havia aparecido com um marido altamente
babaca e ns duas em casa, eu deitada num tapete, e ela, usando
um roupo felpudo de Fernando sem nada por baixo, fez que ia
passar por cima de minha cabea e parou bem acima de minha cara
com as pernas levemente abertas e aquele boceto irresistvel,
na penumbra em torno de meus olhos. Toquei nos quadris dela, e
ela, como se tivssemos combinado antes,  sentou na minha cara,
que sensao insubstituvel e incomparvel! Como era aveludada,
como era acolhedora, como tinha os cheiros certos! Como era
submissa da maneira mais encantadora, pronta para fazer tudo o
que eu quisesse, do jeito que eu quisesse, na hora em que eu
quisesse, tudo com uma naturalidade que parecia que a vida sempre
tinha sido assim, desde que o mundo era mundo. No sei, no sei
mesmo como descrever o que havia entre mim e ela, at o jeito
como ela se livrou do roupo nessa hora  inimitvel. Ela me
chamou de meu amor, meu amor, minha teso, minha dona, minha
dola, meu tudo, minha vida e, ai como eu a chupei, como chupei
tudo dela, at que ela, falando as coisas mais sublimes que podem
ser ouvidas, gozou como uma loba divina uivando, gozou mais,
suspirou com aqueles olhes que davam vontade de mergulhar e
pediu que rossemos entrelaadas at morrermos, e naturalmente
que morremos um pouco. E depois continuamos a nos roar e eu pedi
que ela me desse a lngua toda para eu enfiar na minha boca e,
enquanto isso, que girasse a bunda para eu alis-la, e ela passou
a me chupar novamente, eu j sem flego e sem vontade de ser mais
coisa nenhuma neste mundo, a no ser ns duas, diludas no meio
do universo e trocando nossos corpos. Quando falo nisso, fico um
pouco -- um pouco, no, muito -- excitada e me arrependo por no
t-la perseguido o resto da vida.  claro que o negcio dela no
era homem, era eu mesma. Podia no ser s eu mesma, mas eu fazia
parte importante do negcio dela. Os outros participantes
certamente houve ou h, mas no podem ter sido melhores com ela
na cama do que eu.





Fernando, naturalmente, acabou se integrando. Ela era talentosa
e claro que gostava de homem tambm, como acontece com todas as
pessoas taentosas e cheias de vida. Vida, para mim, sabe o que
! Interessante, acabo de fazer uma espcie de reduo
epistemolgica, no vou dizer nenhuma novidade, mas posso
garantir que cheguei a essa reduo depois de seguir um caminho
que leva ao convencimento de que se trata de verdade
transparente, um caminho que no posso dividir, mas que qualquer
um, se quiser, pode trilhar tambm. A reduo  a seguinte, sabe
o que  a vida?  foder. A vida  foder. Note bem: esta, partindo
de  mim, , como eu j sugeri, uma afirmao refinadssima, no
tem nada a ver com enunciados idnticos, mas simplesmente grossos
ou instintivos. O meu enunciado  fruto de muita vivncia e
processamento dessa vivncia. A vida  foder, em ltima anlise.
 uma pena que a maioria nunca chegue nem de longe  plenitude
que esta constatao oferece, uma grande pena mesmo. Ela tambm
tinha compreendido isso e comigo abriu o resto do horizonte que
precisava ter. Fernando entrou e demos muito certo, os trs.
Gostvamos de sair para passear  noite e fazer sacanagem na rua,
sabendo que estavam nos espreitando. A gente bebia numa pracinha
ao ar livre e depois nos levantvamos e amos os trs para o
escuro, se agarrar. Voltvamos com a cara mais inocente do mundo,
sabendo que todo mundo sabia e que alguns tinham espiado e mesmo
tocado uma punheta vendo a gente se beijar, se chupar e fazer
outras coisas boas para o ar livre. E, mais ainda, ela inventou
um roteiro domstico que Fernando adorou. Ela ficava com uma
carinha de puta inocente inacreditvel e dizia que queria dar
para ele gemendo entre ofegos quase lacrimosos e explicando que
estava precisando que ele a cobrisse, a protegesse, penetrasse
bem fundo nela e esporrasse muito nela, por favor, por favor. Uma
diaba. Quando Fernando acabava, agradecia a ele, s vendo o jeito
dela. E fez Fernando ainda mais feliz, porque comeu o casal que
tomava conta do stio e abriu caminho para Fernando, que estava
doido pelos dois, realmente um casal de mulatos muito bonito, um
raceamento perfeito. Fernando ficou doido pelo pau do rapaz, que
de fato  excepcional, mais comprido do que grosso e muito teso,
lustroso e parecendo envernizado. E pela bunda tambm, que eu
achava ainda mais bonita e comi algumas vezes. Fernando
ficava indcil, no sabia se chupava ele, se o comia ou se lhe 
dava a bunda, comeava uma coisa, emendava pela outra, era um
frenesi. Eu devia contar isto em pormenores esmiuados, pelo
prazer de excitar as pessoas e induzi-las  sacanagem,  um
exerccio de poder agradvel e meu propsito desde que eu comecei
isto. Sim, no passvamos dia sem que fizssemos muitas, muitas
sacanagens, todo tipo de coisa com esse rapaz e a mulher dele,
ele chupando Fernando todo para depois enrab-lo com aquele
cacete comprido que entrava todo, e Fernando chegou a sentar em
cima dele, tanta coisa... Mas no vou contar,  preciso
reconhecer que tenho pressa. Tenho que ter pressa, se quiser
estar segura de que pelo menos as partes que considero mais
interessantes neste depoimento no ficaro de fora. Esta
doena... Eu vou falar sobre a doena que eu tenho, no  cncer
como voc deve estar pensando, eu no sou do tipo que tem cncer,
minhas clulas tm pouqussimos motivos de revolta, notadamente
em comparao com a maioria das pessoas. Cncer  a doena do
reprimido, da libido encarcerada, da falsidade extrema em relao
 prpria natureza. As clulas tradas e frustradas ento se
rebelam, mandam emissrios subversivos para todas as partes do
corpo e geralmente vencem e destroem o organismo. Eu no tenho
isso e, de certa forma, a minha  uma condio bem mais
interessante do que cncer, pelo menos num aspecto. E mais
condizente comigo, mais tchan. Mas depois eu falo nisso e depois
conto mais histrias com detalhes, a doena pode no me dar muito
tempo, h coisas que julgo bsicas e que ainda no contei. J dei
uma idia suficiente de como nossos dias em Porto Seguro no tm
comparao, o que se imaginar  pouco.
   No. Minto. Minto. Alis, mente-se sempre, mesmo quando no
se tem nenhuma inteno. Mente-se, mente-se o tempo todo e, que
me desculpem a filosofia barata, a vida  
uma mentira impenitente, renitente e resistente, e o nico
problema filosfico de fato  o suicdio. Estou pernstica hoje,
mas no minto sobre isso, ao contrrio de praticamente todo
mundo. the world is but a stage, no  assim que est no Hamlet?
The world is but a stage, e eu, que no me considero melhor do
que ningum - mentira, mentira, me considero, claro que me
considero, vamos ser democratas mas no vamos achar que todo
mundo  igualmente dotado, porque no  --, estou desempenhando
meu papel com um mnimo absoluto de veadagem psicanaltica, at
porque considero Freud, alm de mau-carter, o gnio mais
desperdiado da Histria depois de Plato, aquele filho da puta,
responsvel pelo tascismo tecnocrata da Repblica, babaca, devia
ser castigado com uma encarnao perptua como Ministro da
Administrao do Brasil. Babaca, eu no posso ler A Repblica sem
ficar com vontade de ir l e esculhambar Scrates, aquele veado
sebento -- isso era o que ele era, um veado sebento e burro, que
no comeu Alcibades, ora homem, creia, no comer Alcibades,
quem era ele para no comer Alcibades, quando qualquer um de ns
comeria? E que pentelho inominvel, o que ele enche o saco do
coitado daquele escravo no banquete deixa a 
pessoa nervosa s de pensar em conviver com ele, Bernard Shaw
tinha razo mataram ele porque ningum conseguia suportar sua
presena encardidinha, perguntadeira, petulante e impertinente,
devia ter mau hlito, Alcibades precisa ser desagravado e viva
Xantipa, grande mrtir Xantipa. E, quanto a Freud, deixou essa
herana desarvorada de falantes nebulosos e nervosos, que
praticam seitas obscuras e dedicam as vidas  infelicidade
palavrosa. Nunca provaram efetivamente nada e nunca geraram nada
de aproveitvel alm de uns dois filmes de Woody Allen, mas esto
a para ficar, sempre estaro, como as  cartomantes e videntes
e conselheiros sentimentais. Ouvido de aluguel sempre teve um
grande mercado, a Igreja tem sacadas geniais, vamos reconhecer,
a confisso auricular foi uma delas. Freud no chegou a
substituir isso, nunca ser suficiente e, alm do mais, no se
pode perdoar o progenitor do maior acmulo de asnices
labirnticas jamais despejado sobre a Humanidade e de bichas
francesas que no entendem o que elas prprias escrevem e de
alemes que acham que, pelo fato de terem palavras para designar
condies, atos e situaes que os outros no tm, entendem mais
dessas coisas, um perfeito non sequitur, nada a ver o cu com as
calas, alemo s entende de alemo, Weltschmerz  a puta que
pariu Gocthe, com quem, alis, eu simpatizo, era um fodelo e
morreu um velho safado, como devem ser todos os velhos, em vez
de engolirem calados os papis que os mais jovens, no se
contentando em ser mais jovens, lhes impem. Nada de conferncia,
que coisa,  incontrolvel. Se eu fosse professora, seria
linchada pelos alunos. Evidente que no retiro nada do que acabo
de dizer, mas o objetivo que escolhi, depois de muito pensar, foi
dar um depoimento pornogrfico e provocar e espicaar e encorajar
e reassegurar homens e mulheres enfurnados em suas cascas de
caracis. Portanto, no tenho nada que ficar falando nisso, quero
mostrar e argumentar, mas tudo num contexto pornogrfico, quero
ditar por-no-gra-fi-a, me agrada muito, quando eu consigo.
   Minto, dizia eu. Minto quanto a Marina, minha aeromoa, que
fao parecer a melhor transa de minha vida depois de
Rodolfo, mas no  nada disso, no existe essa transa. No
existe a foda, s existem fodas. Minto, mente-se, eu minto, tu
mentes, ele mente, ns mentimos, vs mentis, eles mentem.
Sempre tive problemas com a mentira, mas tambm sou 
mentirosa, no h como escapar, all the world etc. Quantas
mentiras, embora a maior parte, felizmente, apenas
interpretativa, j no contei aqui e vou continuar a contar? Vo
 merda, vocs todos mentirosos, mentirosos, a esmagadora maioria
hipcrita e santarrona. Viva ns, os mentirosos  fora, os
conscientes. O Cristo no soube dizer o que era a verdade diante
do Imprio Romano porque Ele prprio teve que mentir desde que
aprendeu a falar. No h como Ele no haver mentido, a no ser
que vivesse isolado e sem falar desde o bero. Do contrrio, nem
teria chegado  idade da razo, quanto mais aos 33 que dizem que
Ele viveu, querendo nos ensinar uma maneira de ser impossvel de
assumir. A quem tem, ser dado; de quem no tem, ser tirado!
Expulsai os vendilhes do templo a chibatadas, oferecei a outra
face para a bofetada! Crescei e multipli-
cai-vos, disse Jav, porm no fodais. Todo mundo sabe de gente
que se castrou e muitos outros que passaram as vidas como se seus
rgos sexuais houvessem sido criados apenas para lev-los 
tentao e ao inferno. Ento  tudo uma permanente contradio,
e todos so obrigados a mentir, tanto assim que, no dilogo
geral, todo mundo sabe o que  mentira, mas definir com preciso
 difcil, seno impossvel.
Portanto, era mentira que os tempos de Porto Seguro no tenham
rival. E a vida no  um campeonato de futebol, em que a gente
fica procurando o melhor, cada instante  um, comparar 
impossvel. Na verdade, minha vida tem apenas um denominador
comum, que  o fato de eu t-la dedicado basicamente  satisfao
saudvel de minha luxria. Tenho orgulho, grande orgulho disso,
como j devo ter deixado transparecer. Tudo em escala grandiosa
assume grandiosidade. Creio firmemente que  o meu caso, no
consigo v-lo de outra forma, seno com orgulho. Agradeo muito
a Deus, por Ele  me ter dado a fora, a determinao, a
inteligncia e a coragem para levar adiante o dom que recebi de
nascena, digo isto com devoo, os burros no acreditam, os
inteligentes vem logo que  verdade. Eu nasci com um dom que
Deus me deu e honrei esse dom, diferente de muitos outros, talvez
quase todos. Ele fez a parte d.Ele, e eu fiz a minha, como ordena
o Livro. Ento eu tenho esse denominador comum, que  muito
forte, muito singular, at porque, se a maioria das pessoas 
mesmo como eu, a imensa maioria dessa maioria nunca conseguiu
fazer nem um milsimo do que eu fiz. No, no h como comparar
nada, todo tempo tem sua individualidade. Como este, que estou
vivendo. Talvez, muitos anos atrs, se eu pudesse antev-lo,
achasse que viria a ser o melhor da minha vida. Talvez agora
mesmo eu possa dizer isso, de fato achei uma soluo irretocvel
para os problemas que uma pessoa sozinha, na minha idade, costuma
encontrar. E ento, na medida em que se pode dizer isto, eu sou
feliz. Mas no esqueo que dinheiro ajuda muito,  mesmo
indispensvel como suporte e ferramenta, mas o mais importante
 a imaginao. Curvemonos aos tempos e usemos suas palavras.
Criatividade, palavra horrenda -- por que no pudemos preservar
"inveno", com as belas conotaes que ela tinha, "engenho",
tantas palavras boas mofando por burrice e colonizao. Mas no
adianta reclamar. Ento digamos: criatividade e grana confortvel
facilitam muito. No meu caso, uma no funcionaria sem a outra,
e estou muito satisfeita.
   Minha soluo tambm dependeu um pouco de sorte, se bem que,
se ela no tivesse aparecido, eu a encontraria por outro caminho.
Equacione isto. Eu, bem de vida, morando bem, vestindo bem, tudo
muito bem, velha bonitona, gostosa e devassa, no querendo mais
amantes fixos que me encham o  saco -- e  muito difcil achar
um que acabe no enchendo -- e vivendo na grande cidade do Rio
de Janeiro, que  que eu fao, quando estou com vontade de uma
transazinha expedita? Pego o jornal, acho um anncio qualquer,
telefono, encomendo um rapaz, uma moa, um rapaz e uma moa,
qualquer combinao, tudo especificado, pago at com carto de
crdito. Nenhum problema, certo? Errado. Todo dia a gente l no
mesmo jornal a histria de um veado velho e s, assaltado e
assassinado por um garoto de programa, ou equivalente. Nunca, o
veado velho e eu estamos na mesma situao bsica. Uma boa
parania, como eu acho que j lembrei, tem o seu lugar. Eu estava
procurando uma soluo, e a ela caiu no meu colo. A ma de
Newton, serendipity. Eu tinha sido convidada para sair com um
casal amigo meu, tambm baiano, mas morando aqui acho que at h
mais tempo do que eu, e no queria ir, eles so meio chatinhos.
Essas pessoas de que a gente gosta genuinamente, mas cuja
convivncia  soporfera, todo mundo se d com gente assim, 
como o chato a favor, todo mundo tem pelo menos um chato a favor,
que a gente no pode mandar ir se catar porque  bonzinho e  a
favor, faz tudo pela gente. Mas  chato e s vezes fica difcil
de suportar. A eu no ia mesmo, mas, um dia depois de haver
decidido isso, me surpreendi morta de teso e sozinha em casa,
repentinamente desprevenida e pensando sacanagem com tanta
intensidade que ia acabar fazendo uma besteira, pegar algum no
supermercado 24 horas, qualquer coisa assim, eu me conheo, j
fiz isso,  porque eu de fato dou muita sorte, meu anjo-da-guarda
 timo, como se diz. E a, meio de ltima hora, telefonei para
eles e fui com eles ao Caneco e foi l que encontrei outro
casal, esse jovem. Um sobrinho deles e a namorada, uma garota
muito simptica e bonitinha, com umas pernas e uma bunda 
provocantes e uns peitinhos engraadinhos, que ela deixava ver
de vez em quando, com muito charme. Eu parecia que tinha cheirado
uma fileira, de to ligadona em sexo que estava, e a sem-vergonha
encostou o joelho no meu por baixo da mesa assim que as luzes se
apagaram e ficamos numa bolinao sonsa o tempo todo. Eu no
aguentava mais, minha vontade era arranc-la dali na hora e
lev-la para casa e com-la toda minuciosamente, mas tive de me
conter e, por via das dvidas, sondei o rapaz, afinal podia vir
a ser necessrio p-lo na transa tambm. Quando tive de prestar
ateno nele, vi que no era feio, tinha uma boa cara e talvez
ficasse inibido na companhia de uma mulher infinitamente mais
escolada do que ele, que devia lhe pr chifres escrotos
rotineiramente. Sim, no era feio, era at bonito, e Algo me
disse de estalo que ali tinha ouro. Thars gold in them thar
hills! Curiosssimo,  como o momento em que a gente adormece,
no se pode lembr-lo. A gente est na cama e cai no sono, no
se d conta da passagem pela fronteira, foi isso o que aconteceu
com ele. Bateu-se-me c o borbulhar do gnio, troquei de marcha
como um piloto de Frmula-1 e baixei a mo no pau dele. Baixei
mesmo, nem pensei, fosse o que Deus quisesse. E, menino, a reao
foi instantnea, parecia que eu tinha acordado um urso hibernado.
Uma massinha antes murcha e informe desabrolhou como uma pipoca,
e eu, enquanto o dalo no palco sincronizava requebros vis com
acordes igualmente desagradveis, cerrei meus dedos no belo pau
que j adivinhava em minha boca.
   Encurtemos, ars longa, vita brevis, viva o grande Quintus
Horatius Flavius, viva Roma. Eu... No! No vou falar sobre
Horcio, no vou fazer outra conferncia, silncio! Oh vs,
sombras soturnas das eras... Speak, by heaven, I charge thee,
speak! Sim, os fantasmas devem falar, eu  que no devo falar 
agora. Falai, fantasmas. Fala o fantasma: na calada daquela noite
de janeiro, em que na sada trovejava e chovia e relmpagos
arrojavam lampejos infernais sobre as almas inquietas que adejam
acima do cemitrio de So Joo Batista... Fala, fantasma, estamos
atentos; no hesite, fantasma, de que pode ter medo um fantasma?
Fala o fantasma, com sua voz reverberante. Ooooh, sim, naquela
noite mesma comi os dois, comi os dois muito tempo, comi diversas
outras vezes, gostei dele e terminei constatando que ela era um
equvoco enfeitado, e me aliviei quando a famlia se mudou com
ela para a Holanda, terra do pai dela, e nunca mais a vimos.
Quanto a ele, Paulo Henrique, pode me chamar de Pigmaliona. Fui
eu que o esculpi e fui eu quem pediu a Afrodite para que ele
fosse exatamente o que eu queria, e Afrodite me atendeu, me deu
meu Galateo. Eu creio que posso me considerar sacerdotisa de
Afrodite, tenho prestgio com ela, um dia desses, se a doena no
explodir em minha cabea, como dizem que vai explodir, escrevo
a biografia dela, sou conhecedora ntima.
   Paulo Henrique. Ignorantssimo, mas inteligentssimo, at para
perceber encantadoramente que  ignorante e usar essa condio
como adorno. Riso fcil, jovialidade, vivacidade, alegria e,
principalmente, talento, sensibilidade e aplicao. Quando o
peguei, peguei uma forcinha da Natureza, um esprito silvestre,
um exuzinho inocente e sfrego, dentro de um homem alto,
musculoso mas macio e todo bem-feito, todo como se tivesse sido
projetado por um designer milans como obra aberta, de leitura
dependente de quem a encontrasse. E igual a um programa de
computador, desses que voc configura para sempre, porque
armazena tudo em arquivos arcanos, que nunca ningum abre e so
obra obscura de algum programador que chega de bermuda a sua toca
na Microsoft e a passa o  tempo todo feliz porque foi o autor
do subprograma responsvel pelo desabrochar de um iconezinho no
canto da status line, esta  a obra dele, ele no pode ver aquele
iconezinho sem dizer Parla! Era pedra-sabo, era a minha
matria-prima, to bem moldvel. E eu configurei ele, um
programazinho de cada vez. E, de sbito, ao abrir os meus
arquivos executveis um belo dia, l est Paulo Henrique, Deus
seja louvado. Ele tambm leva a srio seu dom, me adora porque
eu o ajudei a compreender como esse tipo de coisa funciona.
Assumiu, virou meu executivo sexual, de uma forma antes
insuspeitvel.  realmente fantstico o que aconteceu, chega a
parecer inveno, mas no ,  verdade, a vida  que parece
inveno, a inveno  que tem que parecer verdadeira.
Creio que, entre outros benefcios que a publicao deste
depoimento com certeza trar -- e eu quero que traga e fico feliz
com isso, gosto de ajudar o semelhante --, est tambm um servio
pblico que agora estou prestando. Vou contar o esquema que armei
e que considero muito bem bolado.  um pouco elitista, ou
bastante elitista, mas pode at ser adaptado a circunstncias bem
mais modestas. A primeira coisa que eu fiz foi criar uma firma,
uma sociedade civil. Peguei o mesmo casal chato atravs do qual
conheci Paulo Henrique e botei os dois como scios somente para
constar -- eles nem perguntaram nada, assinaram logo, so grandes
chatos a favor, e criei a firma. Em seguida, tirei Paulo Henrique
do emprego na gerncia de um posto de gasolina da Barra, onde ele
ganhava uma merreca, e a firma alugou um quarto-e-sala bonitinho
no Leblon, onde eu botei ele, porque no suporto a Barra, e a
nica hiptese de eu ir l  se me levarem de ambulncia ou
camburo, tenho horror s de pensar, para mim os separatistas tm
razo, eles devem mesmo bloquear aquela merda e continuar 
pastando em paz nos seus shoppings, que horror. Contratei ele
como funcionrio da firma e pago um bom salrio. No
extraordinrio, para no acostumar mal, mas o suficiente para que
ele possa comprar as roupinhas dele, os CDs e outras coisas de
que ele gosta, alm de possibilitar que ele saia com as gatinhas
dele sem muita preocupao de dinheiro, quero que ele tenha uma
vida normal, e Deus nos livre de enchermos os sacos um do outro,
isso  inadmissvel. E, finalmente, a parte bsica, eis que j
vivi o suficiente para saber que seguro morreu de velho e confiar
desconfiando  um lema sapientssimo. Fiz um baita seguro de vida
para ele, em dlar, e dei a aplice a ele. E, evidentemente, ele
s recebe o seguro se eu morrer de causas naturais. Se houver
qualquer dvida fundamentada quanto  minha causa mortis, ele no
recebe um tosto, pode ser at acidente de carro ou avio, para
no falar no bvio, que  assassinato. Expliquei a ele tudo
direitinho, ele compreendeu e hoje tem uma preocupao enorme com
minha segurana. Se eu quero encontrar algum que no conheo
muito bem, muitas vezes uso o apartamento dele. E ele geralmente
est aqui em casa quando recebo algum, discreto, mas visvel.
Gosto de crer que ele seria to atencioso assim mesmo que eu no
fizesse o seguro, mas no vem ao caso, indagao acadmica. O
fato  que tudo funciona maravilhosamente bem, ele ficou perfeito
na cama e nunca nega servio de qualquer tipo, arruma namoradas
para a gente transar juntos, arruma homens,  um esquema
primoroso, estou muitssimo bem servida, to sem problemas que
parece sonho. Agora ele est querendo casar. No sou propriamente
contra, mas tambm no sou a favor, no vejo para que ele precisa
casar. E sou insuspeita para falar, porque a menina  tima, sem
problemas, cuca fresca, como se diz. Se a gente est a fim, a
gente transa, e ela, apesar de estar  apaixonada por ele, diz que
tambm  apaixonada por mim, tudo sem grilo. Mas  que eu no
sei... Bom, no vou pensar nisso, no adianta. E no quero dar
a entender que tenho cime. Achar isso, a esta altura de uma vida
como a minha,  uma ofensa grave, mas as pessoas tiram
concluses, geralmente baseadas em sua prpria maneira de ser,
e isso me irrita, ficaria com vontade de dar porrada em quem
dissesse que eu estou com cime. E, veja voc, tambm sou
apaixonada por Paulo Henrique, mas minha paixo no  doente,
como costuma acontecer. J nasci assim e me aperfeioei
conscientemente Nunca me deixei engabelar por essas baboseiras
que nos impingem como fazendo parte da natureza humana. No se
pode estar apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo, meu Deus,
quanta gente morreu e morre todos os dias por causa desse dogma
babaca, que  to arraigado que a pessoa, homem e,
principalmente, mulher, que est ou  apaixonada por dois ou trs
entra em conflitos cavernosssimos, se remi de culpa, se acha
um degenerado, no confessa o que sente nem s paredes, impe-se
falsssimos dilemas, se tortura,  uma situao infernal e
cancergena, todo mundo lutando estupidamente para ser quixotes
e dulcinas.  o atraso, o atraso! Em tese, somos capazes de nos
apaixonar por tantas pessoas quantas sejamos capazes de lembrar,
o limite  este, no um ou dois, ou trs, ou quatro, ou cinco,
ou dezessete, todos esses nmeros so arbitrrios, tirnicos e
opressores. T l o meu fichrio apaixonativo, com o perfil do
que eu acho atraente, que  bastante vasto. Entrou novo contato,
perfil aprovado, eu posso me apaixonar por ele. Hoje eu estou
altamente informtica. A superstio perniciosa generalizada 
que  preciso deletar o anterior, para aceitar o novo. Que
pobreza, que pobreza, que pobreza, que atraso! Se a memria
aceita, se o perfil confere, se  a senha foi dada, roda os dois
programas ao mesmo tempo, roda os trs, roda os vinte, porra!
Minimiza um, roda embaixo o outro, exporta um arquivo pra l,
outro pra c, a informtica  muito educativa, para que os dbeis
mentais que tanto pontificam e nos abalam com suas besteiras
compreendam que os processos mentais que consideram sublimes e
prova da existncia de Deus so meras linhazinhas de comando de
rotina no DOS do crebro, o buraco  abissalmentissimamente mais
embaixo. Claro que a paixo nova, no primeiro momento, mobiliza
muito o apaixonado, que tende a ficar cego para os outros
arquivos e a, na maior parte das vezes, o entulho burro comea
a aporrinhar, o camarada foi treinado para no achar aquilo
certo, tem que deletar o arquivo em uso, no sei o qu. A
analogia informtica continua certeira,  como um programa novo,
um brinquedo novo. Mas depois a gente abre o arquivo mais antigo,
 bom, reaviva, estimula, meu Deus, por que erigimos empecilhos
absurdos e destrutivos da beleza da Criao, os arquivos podem
conviver na maior paz; clica, ele abre, tudo pronto para o
deleite de todos e o cumprimento cioso quo alegre da sina! O
limite  a memria! E quantos gugis de bytes no temos na
memria? Nunca vamos usar nem um zilionsimo, por mais que
vivamos e abertos sejamos. Por conseguinte, minhas paixes no
so doentes, convivem perfeitamente bem e  por isso que no
morrem como as outras, s morrem quando eu deixo de regar, porque
resolvi deixar de regar. Mas as pessoas se sentem obrigadas a
deixar de regar, 
uma merda, esculhamba tudo, cancergeno, cancergeno. Sou
apaixonada por meu irmo Rodolfo, sempre serei, apaixonada pela
minha aeromoa, apaixonada por Fernando, apaixonada por Paulo
Henrique e Tnia, a moa com quem ele quer casar, por todo mundo
por quem me interessa apaixonar-me, pois  meu manejo da paixo
me d grande liberdade, eu posso botar o tempero da paixo em
qualquer transa, sem culpa, sem apreenses ridculas. E todo
mundo que sofre e vai ter cncer por isso pode fazer como eu, que
desperdcio, meu Deus, que genocdio. Tatat, ta-ta-t. No se
pode amar duas pessoas ao mesmo tempo, bah-bah-bah,
duh-duh-duh-duh. Corolrios mltiplos, s um filho da puta se
pensas o contrrio, mesmo que saibas que o contrrio  a verdade
que vive no peito e na cabea. A paixo  simplesmente a teso
formatada, ser que jamais isto ser compreendido, ser que
ficaremos sempre algemados com a chave na mo? Meu Deus, dai
fora a vossos mrtires, ao penosssimo testemunho de nossa f
e  perseverana no exerccio de nossa inteligncia.





A formao dele foi impressionante. Magnfico aluno, professora
genial. Como j contei, peguei matria bruta. Ele no sabia
trepar, no tinha compreendido nem aspectos relativamente
elementares, tais como a desnecessidade de ficar agindo como se
o pau fosse um pisto com arritmia e caprichando em estocadas,
quando todo bom homem sabe que, no ramerro satisfatrio, basta
ele se encaixar e ficar indo e vindo em movimentos suaves, quase
imperceptveis, quase como o amortecedor de um Rolls-Royce;
estocada tem seu lugar, mas como efeito especial, como componente
de um determinado cenrio, como um solo de jazz  improvisado,
nada de prtica habitual. E ele tinha ejaculao prematura, que
ataquei logo com Masters e Johnson, funciona. Novo servio
pblico, redivulgao de uma tcnica inexplicavelmente esquecida.
O candidato se desmancha em ejaculaes assim que penetra. No
comeo, tudo bem, mas depois enche o saco. Que fazer, se o
candidato vale o esforo? Consultem o Masters e Johnson para
maiores detalhes, mas o bsico eu posso transmitir. Criem um
clima de sacanagem. Clima criado, fiquem nus. Ficados nus, toque
uma punheta nele e pea que lhe avise, na hora em que estiver
prestes a gozar, ou seja, da a quatro segundos. Quando ele
avisar, pare a punheta imediatamente e aperte o pau dele pela
base. Funciona,  difcil de acreditar, mas funciona, nem requer
muito know-how. Paulo Henrique reagiu belamente ao tratamento,
hoje goza na hora em que quer. Eu digo "goze!", e ele goza, 
perfeito, ele agora se sente muito mais seguro, com muito mais
poder, que maravilha uma bela esporrada, nisso eu tenho um
tantinho de inveja dos homens, que riqueza simblica insuportvel
h numa esporrada, como o homem pode explorar bem isso para o seu
deleite, como as mulheres gostam, como  bom saber que se est
sendo magicamente irrigada, que coisa mais lindamente atvica,
 bom ser bicho. Para mim, sem esperma derramado, no existe sexo
com homem, a camisinha  uma castrao fundssima,  uma privao
cruel para as mulheres.
   Mas evidente que a moldagem no ficou nisso, foi total. Ele
era um homem completo e no sabia, certamente nunca viria a
saber, se no me conhecesse. Ele hoje curte tudo o que eu curto,
aprendeu com rapidez e entusiasmo. S tinha tido, por exemplo,
umas experincias homossexuais na infncia, cuja memria aprendeu
a reprimir e, na adolescncia, tinha comido umas trs vezes um
mdico que lhe deu dinheiro, fato que ele  s me contou depois
de muita conversa persuasria. Usei a mesma tcnica consagrada
que eu e muitas outras mulheres, muitas mulheres mesmo -- ah, se
eu tivesse estatsticas, que sustos no tomaramos --, usamos,
e que j descrevi.  s livr-lo, com pacincia e compreenso,
da insegurana em permitir que acordemos nele sentimentos j to
represadinhos que parecem mortos. Decepcionar-se com ele, com
moderao, discrio mal-disfarada, uma trombinha ou uma
palavrinha eventual ou outra, porque ele acha timo que voc
transe com outra mulher, mas no admite para ele nenhuma forma
de relacionamento com outro homem, seja moo, seja velho, seja
dando, seja comendo, seja apenas pegando. Portanto, considera
voc inferior, mas na verdade voc deixa claro que o inferior 
ele. Enfim, vo se dando os reforos e sanes certos, tipo
Skinner mesmo, at que um dia pinta. Se no pintar,  porque ele
no vale a pena, a no ser que se queira continuar a ser fiel a
um bestalho impenitente, muito aqum da gente em versatilidade
e sensibilidade. Enfim, um sensaboro limitado, destitudo de
verdadeiro atrativo. Mas isso  comparativamente raro, soube de
muito poucos fracassos nessa rea. Quando ele sente que a mulher
 sincera, ele embarca. E a adeso de uma boa amiga, que ele
queira comer ou cuja opinio ele respeite,  fcil de obter e s
vezes  a espoleta. Eu mesma, h sculos, j dizia coisas como
"ns duas tnhamos muita vontade de trepar com voc, mas agora,
que voc se revelou esse homenzinho, perdemos a vontade", ganhei
muitos assim, ou mais ou menos assim. "Quer dizer que, no fundo,
voc se considera superior a Fernando, porque ele pegou no seu
pau sem exigir reciprocidade, e voc quer que a gente ache voc
gostoso por isso, quando  revoltantemente o contrrio?" E eu
dizia isso com sinceridade mesmo, no mantenho a teso em homem 
que no faz pelo menos tudo o que eu fao, chega de caretice, a
vida  curta. S tem  que cumprir. Se voc diz uma coisa dessas
e ele adere e voc no lhe d logo recompensas e reforos
generosos,  uma sacanagem, tem de atentar nisso no comeo, tem
que ajudar os pobres nos primeiros passos, depois eles pegam
embalagem. Para muitos  difcil,  preciso dar muito apoio. Mas,
quando ele adquire certeza de que as mulheres em torno esto 
a fim de sacanagem e no de ficar julgando que ele  isso ou
aquilo porque transa com homem, antes muito pelo contrrio, ele
embarca e  muito mais feliz, e as mulheres muito mais felizes.
As mulheres transmitem sinceridade nessas ocasies porque esto
de fato sendo sinceras e s vezes at ficam ansiosas, descobrem
que precisam de uma coisa da qual antes no tinham plena
conscincia, descobrem que foi metido na cabea delas, por
interessados, que, por alguma razo explicvel, transa entre duas
mulheres  "mais bonitinho". Pode ser para muitos, mas para
outros tantos no . Para os normais  tanto quanto, embora
diferentes, ambas esttica e sexualmente curtveis. Por que 
bonito uma mulher transando com outra e nunca um homem transando
com outro? All in the eye of the beholder, tudo est no olho de
quem v,  clarssimo, e fizeram os olhos dela e a um belo dia
d-se que ela descobre que adoraria ver o homem dela penetrando
outro homem, preferivelmente um homem que ela tambm pudesse ter,
ou no, ou vice-versa, ou vice do vice da versa do verso da vice,
cada uma  uma coisa, viva a diversidade biolgica e cultural.
Sejam sinceras, pensem nisso sem filtros babacas, olhem umas
fotos de homens machos se enrabando e se chupando, claro que 
um barato a que vocs tm direito, principalmente aquelas fotos
em que est com pinta de veado clssico mas simplesmente um homem
enraba o outro de frente, um de pernas para 
cima e o outro, ao meter fundo, obrigado a roar a barriga no pau
do que est sendo enrabado, ambos se olhando ou de olhos
fechados,  lindo, mentira de quem diz que no  lindo, senso
esttico distorcido e atrofiado, assim como os veados do tipo de
Father Bill, que se imunizaram contra a beleza de uma xoxota. Por
que h tanto mercado para essas fotos, muito mais do que o
mercado gay reconhecido? Por que que h tantos prostitutos, cada
vez mais? Porque as pessoas esto podendo ter cada vez acesso
mais fcil e da a pouco, se houver progresso, vo parar com
intermedirios e agir diretamente, nada de arriscar ser assaltado
na rua, levar um amigo para casa e se comerem os dois, a mulher
participando ou no, mas provavelmente sim, eis que ningum  de
ferro e deve ser assim, porque dificulta a ao dos entulhos
neolticos. Se voc for olhar, a maioria dos veados superiores
continua veada, mas fez ou faz filhos, no tem medo de xoxota,
s prefere outra coisa, podendo escolher. Perfeito, nica atitude
sadia, entre veados e sapatonas superiores. Entre homens e
mulheres superiores,  a norma. Muitos veados e sapatonas que eu
conheo no tiveram filhos por relaxamento, no por ojeriza.
Foram adiando, adiando e a ficou tarde e tambm no era uma
coisa imperiosa, como no  entre muitos dos chamados hteros
puros -- espcie esquisitssima, quanto mais eu penso, mais eu
acho que no existem, so unicrnios. Agora resumo minha tese
explicitamente. Claro que no estou dizendo novidade nenhuma,
nada do que se diz  novidade, especialmente isto, muita gente
j disse isto, sou apenas uma vulgarizadora veemente.
Heterossexualismo exclusivo, limitao. Homossexualismo
exclusivo, limitao. Bissexualismo, normal, tanto assim que na
infncia desperta em todos e todas, sem exceo. Pansexualismo,
o futuro, se at no acabarmos como espcie, por fora de vcios 
de origem que s fizemos piorar e jogarmos fora a chance de
universalizar a fora agregadora do amor. No duvido nada que um
fsico quntico, desses que ficam malucos porque no sabem
explicar com os termos deles aquilo que no d para explicar com
os termos deles, ou sequer explicar, venha a adicionar, se no
j adicionou, o conceito de amor romntico  fsica das
partculas, no adicionaram sabor, cor, no sei o qu? A
exclusividade -- os exclusivos inteligentes e sensveis sabem
disso, e os que no saem dessa situao deprimente  porque no
encontraram ajuda --  no mnimo medocre e espoliativa. A mesma
tcnica de despertar a conscincia deve ser aplicada nos casos,
bem menos fceis de achar, em que a mulher resiste seriamente 
idia de ir para a cama com outra mulher, nesse ponto as mulheres
se beneficiaram do machismo que mitificou as transas entre
mulheres e lhes conferiu um status esttico fajuto, muito
superior ao do homossexualismo masculino. Tanto isso no 
natural que durante muito tempo acontecia o contrrio, acontecia
na Grcia, acontecia em Roma, antinatural uma conversa, em
empulhao conciliar, broxura calvinista, veadagem anglicana
enrustida, tudo isso e o resto que conhecemos. As mulheres, mesmo
as mais quadradinhas, h muito tempo se livraram das culpas por
haverem transado com amiguinhas na infncia, nem lembram, a
sociedade faliforme no d a menor importncia a essas coisas,
no so nem transgresses interessantes.
   Nada disso, na verdade; foi apenas outra conferncia, elas me
pegam desprevenida. Eu apenas queria mostrar como arrumei esse
esquema invejvel com Paulo Henrique e como fiz dele um homem
completo. J tinha contribudo para muitos casos desses, continuo
a contribuir, at com a ajuda dele, mas ele foi total, foi
realmente uma escultura. No tive  um filho, mas tive algo de
mais meu, duvido que algum pudesse ter feito de um filho o que
fiz dele, nunca. J era obra para encerrar minha vida. Mas,
felizmente, minha vida no se ciscunscreveu a isso, foi dedicada
mesmo a uma misso, e eu levei essa misso a conseqncias
possveis e impossveis, com uma dedicao que nunca esmoreceu.
Eu fiz o bem a muita gente, muita gente, e cheguei ao ponto de
dizer isto sem orgulho, apenas com contentamento. Eu j falei
muito em Deus aqui, fica difcil dizer que algum acredita tanto
em Deus e fala tanto em sacanagem. Minha resposta  como se eu
dissesse: "Desculpe, assim no d para conversar." Eu serei ento
a voz de Satans, sem dvida. Mas, no, lamento dizer-lhes;
lamento mesmo, porque sei que isto vai fazer muitos sofrerem mais
do que no inferno, mas eu sou a voz de Deus. No s porque a voz
da luz e da inteligncia  a voz de Deus, mas porque sou mesmo
a voz de Deus. No sou profeta, muito menos o Messias, mas sou
a voz d.Ele como na teofania do livro de J -- onde estveis,
quando Ele criou as fmeas e os machos e lhes deu cada centelha
de desejo cego um pelo outro e lhes deu como misturar-se
livremente uns com os outros? Onde estveis, quando Ele criou
todos os mistrios que levam ao Desejo e  teso e tornam
sublimes os abraos? Onde estveis, quando Ele criou as nsias
imortais que agora forcejais por sacrilegamente abafar e matar?
Onde estais, depois que Ele vos deu o poder do prazer inocente
e agora cuspis nesse poder e pretendeis que vossas palavras
valham mais que as d.ele?
   Eu no sou a voz de Satans, Satans odeia a Luxria, no 
inveno dele, assim como a Bondade. Tanto uma quanto a outra,
Satans usa solertemente para seus fins malvolos. Eu sou a voz
de Deus, sou uma das vozes de Deus, e no estou maluca. Ou por
outra, posso estar como qualquer um pode
 estar, o que faz com que a palavra perca o sentido. Seria o caso
de perguntar que religio estranha  esta, que eu professo. Eu
mesma no sei. Professar, professar mesmo, acho que no professo
nenhuma, detesto religio organizada, qualquer que seja ela.
Agora esto organizando at candombl,  uma praga, a religio
mais lindamente desorganizada do mundo e agora eles querem
cobri-la de regras. J li o Livro dos espritos, achei que ia
achar um bestialgico, mas no achei nada disso, pelo contrrio,
gostei muito, mas tambm no sou propriamente esprita e acredito
que deixaria um bom esprita chocado, se dissesse a ele que a
principal razo por que quero reencarnar  que na outra
encarnao eu planejo comer quem por bobeira deixei de comer
nesta. Tambm penso nisso, quando vejo ali meus Budas. No deixa
de ser verdade, embora talvez no seja a principal razo. No h
a principal razo, na realidade eu no quero reencarnar, acho
essa obrigao um saco. No, eu no queria reencarnao, acho
que, no posso compreender como, continuo catlica, do jeito que
fui criada. E voc veja, sempre honrei Seu Santo Nome, embora
nunca tenha aceito o magistrio da Igreja. E nunca blasfemei,
jamais saiu de minha boca uma blasfmia, uma queixa contra Ele,
s louvor. Minha doena mesmo, minha doena, antes que ela me
acabe e ningum saiba o que fui.  um aneurisma no meio do
crebro, inopervel. Sempre esteve ai, s soube faz algum tempo.
No comeo, me assustei, mas no levei dois dias assustada, achei
que ser uma boa morte, provavelmente rpida. J deixei
instrues para doarem o que puder ser doado e tocarem fogo no
resto e socarem as cinzas onde quiserem.
   Mas no era uma boa razo para eu me maldizer e blasfemar? Ser
avisada de que, a qualquer dia, a qualquer hora, dormindo ou
acordada, minha cabea pode explodir em  sangue? Claro que no,
morre-se de algum jeito, e considero o meu bom. No seria to bom
se eu seguisse as prescries, mas eu no dou a menor importncia
a quase nenhuma delas, ajo como sempre agi minha vida toda.
Blasfemo nada, at agradeo. Fao tudo que me d na cabea, no
quero saber de limitaes. Eu no pequei contra a luxria. Quem
peca  aquele que no faz o que foi criado para fazer. E eu fiz
o que Ele me criou para fazer. No quero entender nada. Quero
acreditar, mas no posso ter certeza, no se pode ter certeza de
nada, que Deus me ter em Sua Glria e sei que Ele agora est
rindo.
